O desafio de olhar para o futuro da educação

Nexo 
25/03/2019

Já não temos tempo para apenas resolver questões como a da alfabetização e da evasão e abandono escolar. Precisamos também nos preparar para um mundo de trabalho mais dinâmico. Há experiências que deixam uma marca profunda em nossas vidas, e acabo de viver uma delas ao conhecer a Atwood Primary Academy de Londres. A visita foi parte da missão organizada pela embaixada do Reino Unido que levou, no início de março, lideranças brasileiras da educação para conhecer os principais projetos britânicos para a área. O convívio de uma semana com especialistas locais e os debates animados que travamos permitiram uma rica troca de experiências para que, a partir daí, se desenhasse um programa de cooperação para a inclusão socioeconômica de alunos brasileiros e o desenvolvimento de suas habilidades socioemocionais e técnicas.

O que me cativou na Atwood?

Uma junção de coisas, não muito diferentes daquelas que já começamos a ousar desejar ou buscar para termos uma educação de qualidade no Brasil. Nada ali era original no sentido de inusitado, mas tudo funcionava criativamente. A começar pela boa formação dos professores e excelentes condições de trabalho – temas que foram, aliás, motivadores de muitas conversas e debates sobre a importância da formação e valorização do corpo docente-, e a criação de incentivos para uma carreira de magistério que atraia e prepare de fato os melhores profissionais.

Chamou especialmente minha atenção o acolhimento e a forma como as crianças eram tratadas. Ali reinava a diversidade, mas o clima era de respeito e dignidade. Nada de preconceitos, mas um lugar de “oportunidades iguais”, como ressaltava um cartaz colado em uma das paredes. A escola dava a todos, igualmente, o mesmo ponto de partida, mas incentivava o potencial individual na outra ponta.

Talvez aqui algumas pessoas se perguntem o porquê de eu estar fazendo referência ao sistema britânico e não aos conhecidos sistemas finlandeses e sul-coreanos, por exemplo. O fato de o Reino Unido estar preocupado não apenas com os problemas mais antigos da educação, como ainda é o caso do Brasil, mas também, ao mesmo tempo, ter um olhar para o futuro e para os desafios que a revolução tecnológica estão trazendo, me convenceu que tínhamos muito a aprender uns com os outros. Já não temos tempo para apenas resolver problemas como o da alfabetização e da evasão e abandono escolar. Enquanto fazemos isso, precisamos também nos preparar para um mundo do trabalho mais dinâmico e dominado por novas profissões, as quais ainda não conhecemos.

Os centros de ensino técnico e profissionalizantes e as universidades que visitamos tinham por meta formar alunos com habilidades para o mundo globalizado. Preocupados igualmente com o desenvolvimento de habilidades para a vida e para o trabalho, mostravam saber que ser criativo, dominar o ambiente digital, liderar e trabalhar em grupo, negociar, se apresentar em público e defender suas ideias já não poderia ser luxo, restrito a uma pequena elite.

Nesse cenário, a educação não é um fim em si mesmo, e os britânicos já entenderam isso. A preocupação com resultados para o indivíduo e para o país é premissa. A carreira é algo em que se pensa e se busca influenciar desde cedo: ao longo do ensino fundamental (a partir dos oito anos, em alguns casos) as escolas já inserem discussões sobre variadas profissões. A ideia é informar desde cedo os alunos, identificar vocações e prepará-los.

Não há tampouco constrangimento em tratar de aspectos que dizem respeito à produtividade do indivíduo. Essa é a premissa fundamental na área de formação técnica. O sistema educacional é objetivo e focado. Capacitar para a alta performance e treinar são etapas naturais, o que não significa uma padronização ou robotização, pois envolve necessariamente pensamento crítico e inovação, dentre outras competências.

Uma das provocações que surgiram durante a missão ao Reino Unido foi que a nossa Base Nacional Comum Curricular não deixa claro o nível de inglês que esperamos dos alunos de escola pública ao final dos sete anos de formação. Qual é a nossa meta? Sem isso, não podemos avaliar se tivemos sucesso ou não. Outra questão importante é o conceito de educação ao longo da vida, ou seja, a escolha por uma formação técnica não representa um caminho sem volta ou menos oportunidades para o indivíduo. O sistema educacional britânico propicia possibilidades e incentivos para que as pessoas transitem entre as formações técnica e acadêmica. Além disso, o aluno é incentivado a sempre buscar conhecimento e, caso queira, tem a possibilidade de voltar ao sistema educacional ao longo da vida.

Há uma boa governança e gestão integrada no sistema educacional que oferta ensino técnico. As necessidades dos empregadores são mapeadas e os cursos profissionalizantes desenhados e atualizados de acordo com elas. As ofertas são alinhadas à demanda e muitas até desenhadas sob medida, de acordo com pedidos das próprias empresas e indústrias. Para isso, é feito um mapeamento das habilidades requeridas por setor. Há agências temáticas para cada setor predominante da economia, que ofertam formações alinhadas aos diferentes segmentos produtivos. Há também órgãos públicos de controle de qualidade e fiscalização do sistema. A indústria, por sua vez, procura os institutos e organizações que desenham essas formações para um just in time training – treinamento com foco na demanda, o que tende a garantir emprego de qualidade e renda.

As recentes mudanças tecnológicas têm representado um importante indutor de crescimento econômico, mas estão também associadas a transformações consideráveis no mundo do trabalho. O cenário pode ser catastrófico: segundo Carl Frey e Michael Osborne, pesquisadores da Universidade de Oxford, até 2030, cerca de 2 bilhões de empregos serão extintos. Como o Brasil está se preparando para esse futuro nada distante?

Precisamos refletir sobre o que queremos para nossas crianças e jovens. Como vamos garantir o ensino das novas competências na implementação da base curricular? Como tornaremos mais efetivo o ensino técnico e profissionalizante para que seja uma alternativa real de formação e carreira? A missão educacional ao Reino Unido me trouxe essas e outras provocações, reafirmando meu compromisso com uma educação de qualidade para todos os brasileiros. Aliás, esse é um dos principais objetivos do meu mandato.

*Tabata Amaral foi eleita deputada federal pelo PDT de São Paulo em 2018. Antes disso, formou-se em ciência política, com bolsa integral, pela Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Pesquisa e atua em temas ligados à educação.