Marconi: “Aumento da Selic seria cloroquina da política econômica”

Subir juros com o desemprego atual e a inoperância do governo no combate à pandemia só prejudicará a economia

*Por Nelson Marconi

O mercado desejou, em uníssono, o aumento da taxa de juros básica, a chamada Selic, fazendo marcação cerrada sobre o Copom (Comitê de Política Monetária), que está definindo agora a nova taxa para os próximos 45 dias; Se optar pela alta, certamente será uma decisão equivocada. Subir a taxa de juros com o nível de desemprego atual e a inoperância do governo federal no combate à pandemia só prejudicará mais nossa economia e a população em geral.

Os defensores da elevação da taxa de juros afirmam que, por consequência, ingressará mais capital no país e taxa de câmbio se reduzirá, ajudando a evolução da taxa de inflação, que está acima da meta; se as reformas tivessem sido encaminhadas, a pressão sobre os preços seria menor e o peso das taxas de juros e de câmbio sobre a inflação, idem.

Concordo que a taxa de câmbio está em um patamar um pouco acima do necessário, mas a alta na taxa de juros não mudará este cenário. Desde agosto a Selic encontra-se estável no patamar de 2%, portanto já são sete meses, e a taxa de câmbio desde aquele período até o dia de hoje tem oscilado bastante, mais inclusive do que em períodos anteriores em que a Selic era mais alta.

Para termos uma noção dessa volatilidade, a taxa de câmbio correspondia a R$ 5,27 em 4 de agosto, atingiu R$ 5,56 em 4 de novembro, depois caiu até R$ 5,06 em 16 de dezembro, subindo novamente até alcançar R$ 5,74 em 9 de março. Parece evidente que não há relação entre o comportamento da taxa de juros e de câmbio neste período, a não ser que as taxas de juros em outros países também tivessem oscilado na direção de alta e baixa de forma acentuada, o que não ocorreu.

Essa movimentação da taxa de câmbio está, na verdade, associada à ausência de perspectiva na política econômica, no combate à pandemia, na estabilização da relação dívida/PIB a longo prazo e na conjuntura política, reforçada pela existência de um dos maiores mercados futuros de câmbio do planeta, que possibilita uma série de operações especulativas que se aproveitam desse cenário. Afinal, qual investidor estrangeiro interessado em realizar investimentos de longo prazo aportaria recursos em uma economia com estas características? São raros casos.

Em relação à inflação, por sua vez, a pressão forte dos alimentos se deveu à alta dos preços das commodities no exterior, o que também pressionou o preço de insumos industriais e, mais recentemente, dos combustíveis. Daí pergunto: qual a influência direta da alta das taxas de juros sobre estes preços? Nenhuma! A única influência indireta seria através da taxa de câmbio, mas como mostrei acima, as variações desta última estão descoladas do comportamento da Selic. E, ademais, seria muito melhor evitar a alta dos preços de alimentos através de estoques reguladores –que o governo desmontou nos últimos anos– e de uma política de preços mais racional por parte da Petrobras que amortecesse as oscilações no mercado internacional.

Já conhecemos os impactos negativos do controle da taxa de câmbio, visando a sua valorização, sobre o setor produtivo e os empregos mais qualificados da economia. Assistimos a esse filme por muitos anos, entre 1995 e 1999 e entre 2006 e 2014.

Quando olhamos o comportamento da inflação, vemos que o pico das variações ocorreu entre setembro e dezembro de 2020, que foram decisivas para determinar a variação de 5,2% nos últimos doze meses até fevereiro. Neste último mês, o impacto mais incisivo decorre da alta dos combustíveis. A inflação de serviços —um importante sinal do comportamento da demanda, sobre a qual a taxa de juros exerceria influência— subiu em fevereiro devido ao reajuste das mensalidades escolares, típico desse período. Novamente, qual a influência da taxa de juros sobre a definição dos períodos de reajuste de mensalidades? Zero!

Subir a taxa de juros no atual cenário equivale a receitar cloroquina para quem está na UTI. Só piorará um cenário já deteriorado. Inibirá mais ainda os investimentos produtivos e elevará o custo de financiamento da dívida pública. É um atentado contra a economia brasileira.

Para finalizar, gostaria de dizer que a redução da meta de inflação que vem ocorrendo desde 2018 piora as perspectivas de crescimento do país. Em uma economia na qual a produtividade não se altera e as perspectivas fiscais futuras não vislumbram melhoria, a redução da inflação, a médio prazo, depende da redução do nível de atividade. Portanto, dá-lhe aumento dos juros, mesmo em plena pandemia. A que ponto chegamos.

 

* Nelson Marconi é vice-presidente da FLB-AP em São Paulo e professor da Escola de Administração da (Eaesp-FGV)