Missa celebra hoje os 98 anos do nascimento de Leonel de Moura Brizola, fundador do PDT, na Igreja do Santíssimo Sacramento – no Centro, na Av. Passos

Leonel Brizola, minha referência, por Wendel Pinheiro

Por Wendel Pinheiro

 

Um líder trabalhista que, junto com João Goulart, teve como o seu mestre político nada mais que o líder nacional-popular Getúlio Vargas.

Aquariano com ascendente em virgem e lua em sagitário e nascido às 22h no dia 22 de janeiro de 1922 em Carazinho, no interior gaúcho, Brizola lutaria no decorrer de sua infância, adolescente e juventude, através do trabalho e da educação, a alcançar os espaços de dignidade e cursar a Faculdade de Engenharia da Universidade do Rio Grande do Sul nos decorrer dos anos 1940.

Com o fim da Era Vargas, em meio à mobilização popular do Movimento Queremista, Brizola com um conjunto de trabalhadores, estudantes e donas de casa fundaria o PTB no Rio Grande do Sul em 1945.

Seria o mesmo Brizola que, liderando um grupo de jovens do porte de Fernando Ferrari, Antônio de Pádua Ferreira da Silva, Ney Ortiz Borges, Sereno Chaise e Pedro Simon, fundaria o setorial jovem do PTB, a Ala Moça em 15 de março de 1946.

Com clara liderança, Vargas não apenas admirou a sua desenvoltura como incentivou Brizola a prosseguir a sua trajetória no PTB. Eleito ainda jovem como Deputado Estadual em 1947 com apenas 25 anos, ele se notabilizaria por ser um notório parlamentar das causas populares.

Seria neste ínterim, entre a Presidência da Ala Moça e o exercício de seu mandato que Brizola não apenas namoraria, mas se casaria com a irmã de Jango, a Neusa Goulart Brizola, cujo matrimônio apenas terminaria com o falecimento dela em 1993.

Reeleito deputado estadual em 1950 com expressiva votação, tudo se encaminhara para que o jovem Brizola pudesse ser eleito Prefeito de Porto Alegre pelo PTB na chapa composta com Maneco Vargas. Porém, as divisões internas na legenda trabalhista fariam com que Brizola perdesse por margem diminuta de votos nas eleições de 1952.

Entretanto, mesmo com o suicídio de Vargas em 24 de agosto de 1954 e a comoção popular em todo o país gerada pela sua morte e a sua mensagem na Carta Testamento, as eleições de outubro de 1954 apontariam para a consolidação política em definitivo de Leonel Brizola como um dos deputados federais mais votados do Rio Grande do Sul. Seria na sua posse de deputado que Brizola interromperia em público o juramento de Carlos Lacerda à Constituição por afirmar que ele estava faltando com a verdade, caracterizado como um notório perturbador do Estado de Direito.

Em 1956, Brizola foi eleito Prefeito de Porto Alegre e faria um arrojado mandato, investindo não apenas na modernização da capital gaúcha e de sua infraestrutura, projetando a cidade portoalegrense para o século XXI, bem como proliferaria a existência de escolas públicas nos vários pontos da capital.

Como efeito de sua reconhecida operosidade política, ainda tão jovem, ele seria eleito em 1958 como Governador do Rio Grande do Sul com apenas 36 anos de idade. Tamanho feito conferia a ele a devida responsabilidade pelos rumos do estado, enquanto o seu cunhado era, naquele momento, Vice-Presidente da República e Presidente Nacional do PTB.

Além de promover desenvolvimento com justiça social, seu governo criou mais de 6 mil escolas. O ensino técnico em seu governo foi apoiado e os professores eram devidamente valorizados. A Reforma Agrária seria um dos pontos de centralidade no seu governo, além de promover políticas sociais capazes de integrar as massas ao progresso social.

Buscando desenvolver o Rio Grande do Sul e enfrentando a resistência das corporações estadunidenses com a péssima prestação de serviços no campo da telefonia e da energia elétrica, Leonel Brizola encampou, em um gesto de coragem e em um ato inédito na História do Brasil, as empresas ITT e Bond and Share. Tamanha ousadia faria com que Brizola fosse considerado um dos principais inimigos dos EUA.

Com a queda de Jânio Quadros em 25 de agosto de 1961, diante da tentativa frustrada de um golpe bonapartista, a tentativa de um golpe militar para impedir a posse de João Goulart seria impedida com a insurreição popular iniciada no Rio Grande do Sul e liderada por Brizola através da Campanha da Legalidade. Tamanha resistência popular, com a adesão posterior do III Exército, faria com que o país estivesse às vésperas de uma guerra civil. Entretanto, a “solução de compromisso” criada residiu na posse de Jango em 7 de setembro de 1961 sob o Regime Parlamentarista.

Brizola não apenas auferiu legitimidade, reconhecimento e liderança em nível nacional, como se tornara, em 1962, o deputado federal mais votado no Brasil pelo Estado da Guanabara, com 270 mil votos, correspondendo, naquele momento, a mais de 27% dos votos válidos.

Aliás, nenhum deputado federal até 2018 alcançara a marca proporcional recorde acima dos 20% dos votos – nem mesmo quadros como Paulo Maluf, Lula, Ciro Gomes, Enéas Carneiro, Garotinho, ACM Neto, Russomano e Bolsonaro ao disputarem as eleições de deputado federal.

Liderando a Frente de Mobilização Popular (FMP), Brizola mobilizou em todo o país os famosos Comandos Nacionalistas, também conhecidos como os “Grupos dos Onze”, onde eles receberiam as devidas orientações para defenderem as Reformas de Base e se mobilizarem, seja para pressionarem a agilidade de João Goulart ou para enfrentarem uma direita mobilizada e bancada pelos dólares oriundos de think tanks como o IPES e o IBAD.

Com as fortes tensões sociais e as disputas políticas acirradas, os setores conservadores da classe média e das Forças Amadas, além da burguesia brasileira e do apoio institucional de Washington promoveriam o êxito do Golpe Civil-Militar de 1964 contra o governo constitucional de Jango. Mesmo tentando resistir durante um mês após o golpe, Brizola foge para o Uruguai e apoia a resistência armada, criando do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR). Mesmo com as Guerrilhas de Três Passos e de Caparaó, as ações do MNR não surtiriam o efeito necessário para desgastar e derrubar o Regime Ditatorial e, neste sentido, Brizola não optou mais pela resistência armada.

Perseguido pela ditadura e se tornando um dos principais inimigos, Brizola sofreria um ultimato para ser expulso do Uruguai. Em um movimento inesperado, o líder trabalhista aproveitou a política de Direitos Humanos do Presidente Jimmy Carter para recorrer o seu pedido de asilo político, o que seria prontamente aceito em 1977.

Com a morte de Jango em 6 de dezembro de 1976, Brizola se tornara automaticamente a liderança trabalhista de vulto maior. Seus esforços em envidar a refundação do PTB não apenas resultaram no Encontro de Lisboa em junho de 1979, mas na sua volta ao Brasil em setembro do mesmo ano e as articulações para a reconstrução da agremiação trabalhista.

Entretanto, as manobras de Golbery do Couto e Silva, ministro chefe da casa civil, consumaram a perda da sigla do PTB em 12 de maio de 1980 para o setor à direita, liderado pela sobrinha neta de Getúlio, Ivete Vargas.

Sobrou a Brizola, junto com os trabalhistas históricos e demais quadros de esquerda, debaterem durante duas semanas o nome do futuro Partido, até a fundação do PDT em 26 de maio de 1980.

Muitos seriam os desafios de Brizola nesta nova legenda.

A perda da sigla do PTB fora uma perda irreparável para um líder trabalhista que não somente ajudara a fundar e construir o PTB pré-1964, bem como prosseguiria o legado nacional-reformista de Jango e a linha trabalhista de Vargas. O seu choro ao rasgar uma folha com a sigla do PTB ao lado de Doutel de Andrade no Hotel Ambassador em 12 de maio de 1980 representava a dor pungente de todos os brasileiros que creditavam à legenda petebista como o caudatário legítimo das demandas históricas populares.

De qualquer forma, a partir da fundação do PDT em 26 de maio de 1980, muitos seriam os desafios para a nova agremiação trabalhista que mal começara com 10 deputados federais e que iniciara com setoriais como a Juventude Trabalhista e o Movimento de Mulheres em 1981. De quebra, os desafios que Brizola teria em consolidar a imagem do PDT se daria na construção deste partido nos mais diversos rincões do país, para além do eixo histórico Rio Grande do Sul/Rio de Janeiro.

Como destaque no processo de redemocratização, Brizola protagonizou politicamente em um dos cenários políticos mais peculiares nas eleições de 1982. A eleição para o Governo do Rio de Janeiro possuía um caráter plebiscitário e a candidatura do líder trabalhista adquiriu contornos de cunho oposicionista, eclipsando a rivalidade artificializada entre os luas pretas do PMDB e os governistas do PDS, ex-ARENA. Vencendo os prognósticos eleitorais, Brizola ainda enfrentaria e denunciaria o esquema da Proconsult que favorecia abertamente o candidato da ditadura, Moreira Franco.

Como governador, suas políticas estiveram essencialmente voltadas para a implementação dos Direitos Humanos e para a consolidação dos Direitos Sociais. Além da construção de 513 CIEPs nos dois governos e a instituição do ensino em tempo integral, com a visão humanizada de uma educação democrático-popular, Brizola asseguraria a política de Direitos Humanos voltada para as mulheres, os negros e os moradores das comunidades.

No que concerne a política de segurança pública, a lógica se tornaria a partir do investimento na prevenção e no tratamento de igualdade entre os moradores dos subúrbios e das comunidades com os dos bairros nobres – o que provocaria fortes tensões sociais e políticas da própria direita carioca, ao associar a política de Direitos Humanos na Segurança Pública como o ato de “apaniguamento” com o banditismo urbano.

Seria com Brizola que, coibindo os abusos e os esquemas do Carnaval, criaria – a partir do projeto de Oscar Niemeyer e de Darcy Ribeiro – a passarela do samba na Praça Onze, conhecido também como o Sambódromo. Além da criação deste equipamento público, o mesmo seria utilizado no decorrer do ano como o espaço em excelência para a promoção do ensino em tempo integral para as crianças, além da formação profissional e artística de jovens e adultos.

Tais medidas, feitas em tempos de inflação galopante com mais de 210% no término da ditadura, mostravam na prática o grau de ousadia de Brizola na promoção de políticas públicas. Sem a neoliberal Lei de Responsabilidade Fiscal criada mais tarde por FHC, Brizola chegou a auferir 57% dos recursos para a educação no Rio de Janeiro em 1993.

De qualquer forma, mesmo com um pródigo governo democrático-popular, Brizola não emplacara o seu sucessor em 1986, face ao advento do Plano Cruzado. Não seria por falta de avisos constantes do líder trabalhista sobre o caráter eleitoreiro deste plano. Mesmo com a derrota de Darcy Ribeiro no Rio de Janeiro e de Aldo Pinto no Rio Grande do Sul, o fracasso do Plano Cruzado permitiu ao PDT voltar com força no cenário nacional, a ponto de fomentar as condições para que Brizola fosse visto como um dos principais presidenciáveis entre 1988 e 1989.

É bem verdade que em meio aos mais de 900% de inflação promovidos pelo Governo Sarney, Brizola se colocava como a imagem de um estadista dotado de experiência e voltado aos interesses populares. Sobretudo, oriundo da corrente trabalhista que, com Vargas e Goulart, comprovara uma série de serviços prestados ao país.

Entretanto, o discurso do “novo” pautaria o mote das eleições de 1989 e, por margem irrisória de votos, Brizola não conseguiria ir ao segundo turno. Com a presença de Collor na liderança das pesquisas e dos cenários eleitorais, coube a Brizola um gesto extremo de altruísmo político ao apoiar a candidatura de Lula naquela conjuntura – ainda que o procer petista não tivesse a mesma trajetória, bagagem e capital político que Brizola tinha.

A vitória de Collor faria com que o PDT se posicionasse como uma oposição propositiva com a sua bancada de 46 deputados federais e de três governadores, além da eleição de Darcy Ribeiro para o Senado. Dentre os governadores, Brizola seria reeleito em 1990 e manteria as mesmas ações políticas do primeiro governo – incluindo a manutenção da encampação das empresas de transporte público em prol da população. De quebra, além da criação da Universidade Federal do Norte Fluminense, Brizola manteria uma política de desenvolvimento e de integração entre as regiões do estado fluminense.

Perseguido pelas Organizações Globo e mesmo se utilizando do Direito de Resposta, Brizola perderia as eleições presidenciais de 1994. O uso indevido e eleitoreiro do Plano Real favorecera FHC a ponto do PSDB, junto com outros partidos de direita, elegê-lo no primeiro turno.

Brizola seria um arauto da defesa do Estado Nacional e um notório opositor das políticas neoliberais promovidas pelo governo tucano entre 1995 e 2002. Neste ínterim, em nome dos interesses nacionais, Brizola não só articulou a unidade das esquerdas bem como, em um gesto de extremo altruísmo, tornou-se vice de Lula, no entendimento de que aquela composição serviria para derrotar FHC. Entretanto, a reeleição do procer tucano não desanimaria Brizola, a ponto de usar a campanha de Prefeito do Rio de Janeiro para denunciar a política do “Estado Mínimo” de FHC que implicava no aumento da informalidade, do desemprego e da marginalidade.

Mesmo derrotado eleitoralmente nas eleições de 2000 para Prefeito e de 2002 para o Senado, Brizola era reconhecido como um patrimônio político nacional ainda em vida – ainda que nem sempre os setores de direita e de esquerda quisessem ouvi-lo. Mas os seus discursos, baseados na sua extrema coerência ideológica e no seu visionarismo, marcava o estilo direto, metafórico e de um humor carregado de ironias e de ilustrações promovida pelo líder trabalhista.

Sua morte em 21 de junho de 2004 se tornou um ponto paradigmático para os trabalhistas. Como prosseguir institucionalmente as metas ideológicas do PDT, herdeiro do PTB pré-1964? Como fugir das chacotas, chistes e comentários carregados de sarcasmo de que, com a morte de Brizola, o PDT acabaria?

O exemplo de Brizola marcaria aqueles que, como eu, puderam ainda acompanhá-lo em vida. Ou… aqueles que não puderam conhecê-lo pessoalmente ou foram privados de vê-lo por iniciar a sua vida política após a morte de Leonel Brizola.

Brizola se confunde com a História do Brasil Republicano.

Em tempos de crise do pós-golpe e de um governo antipopular e antinacionalista como o de Bolsonaro, os alertas de Brizola se tornam cada vez mais atuais. As exortações proféticas do líder trabalhista encontram eco e mostram explicações atemporais capazes de dar o norte político para os setores nacional-democráticos e populares.

A vida de Leonel Brizola é um paradigma não apenas para os trabalhistas, mas para o povo brasileiro! Seu desprendimento e coragem são marcas de um homem público que dedicou seis décadas de sua vida em prol dos interesses do povo e da nação.

BR de Brasil. BR de Brizola!

Saudações Trabalhistas!

 

A direção do PDT/RJ está convidando a militância para assistir a missa em homenagem a memória do Governador Leonel de Moura Brizola que estaria completando 98 anos hoje, dia data de seu nascimento.  O ato religioso será realizado hoje,  22 de janeiro, às 11 horas, na Igreja do Santíssimo Sacramento que fica na Avenida Passos 50, Centro, Rio de Janeiro.