Martha Rocha a UOL e a ‘Veja”:  “Ameaças que sofro até hoje provam que combati as milícias” e respondendo a Bolsonaro, diz: “Meu nome não é Queiroz”

“Deixei a Polícia com mais de uma dezena de ameaças de morte”, afirma a delegada que meses atrás sofreu atentado

Em duas longas entrevistas esta semana ao portal UOL, do jornal “Folha de São Paulo” e à revista “Veja”, a deputada Martha Rocha comentou o momento político, falou sobre a disputa do segundo lugar com o prefeito Marcello Crivella, criticou Eduardo Paes e falou de sua vida profissional, ameaçada de morte várias vezes desde que se tornou Delegada na Praça Seca, em Jacarepaguá; além de devolver à altura, provocação feita pelo presidente Jair Bolsonaro: “Meu nome é Martha, Martha Rocha, não Queiróz!”.

Neste texto, fizemos uma síntese das principais declarações da candidata do PDT à prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, começando pela entrevista ao UOL e “Folha de São Paulo”, onde Martha afirmou que as  ameaças de morte que sofre até hoje são prova indiscutível que combateu as milícias na época em que esteve na ativa na Polícia Civil do Rio de Janeiro.

Delegada Martha Rocha e Anderson Quack, vice-prefeito

Na sabatina a UOL/Folha,  Martha Rocha foi questionada sobre a expansão desses grupos criminosos no período em que chefiou a Polícia Civil entre 2011 e 2014, no  governo Cabral.

“Na nossa gestão, trabalhamos muito e acho que o resultado disso é consultar o número de ameaças de morte que eu tenho, todas vinculadas à milícia”, disse na sabatina a cargo das jornalistas Silvia Ribeiro, editora do UOL, e Catia Seabra, repórter da “ Folha de São Paulo”

Segundo ela, as ameaças continuam até hoje, seis  anos após ter saído da polícia.

“Deixei a Polícia Civil com mais de uma dezena de ameaças de morte, como delegada. Como deputada, continuo recebendo ameaças de morte. Na nossa gestão, nós atuamos, sim, e nos dedicamos, sim, à questão da milícia”, disse.  Martha afirmou ainda que a Draco (Delegacia de Repressão às Ações Criminosas), que investiga milícias, não estava subordinada à Polícia Civil à época em que chefiou o órgão.

“O futuro prefeito deve ser respeitado por Bolsonaro”, afirmou  Martha, ao ser questionada se temia represálias do governo federal, caso seja eleita no Rio. Ela fez questão de afirmar que está na hora de os políticos aprenderem a ter uma “conduta republicana”.  Martha é do PDT, partido de Ciro Gomes, crítico ferrenho de Bolsonaro.

Ela frisou:  “Quem quer que esteja sentado naquela cadeira em janeiro de 2021, tem que ser respeitado pelo presidente da República”, disse.

Martha Rocha disse ainda que, “se a presença de alguém desagradar a Presidência da República”, ela tem certeza de que o carioca vai ser capaz de entender o que está acontecendo:  “Tenho absoluta certeza que, quem não tiver essa capacidade de ter essa conduta republicana, o carioca não vai perdoar essa pessoa”.

A delegada se considera vítima de misoginia na campanha “como foi na polícia”. Ela argumentou: “Eu passei 31 anos na Polícia Civil, e a minha primeira luta foi por um banheiro. […] Não será um candidato que vai me intimidar, que vai me aborrecer. Porque eu também não sou feita de açúcar”, disse.

Martha Rocha também falou sobre tentativa de desconstrução de sua imagem em um momento em que surge em ascensão em pesquisa eleitoral. “Eu, se fosse coordenador da campanha, iria sugerir que eles [Eduardo Paes e Marcelo Crivella] apresentassem suas propostas e não dessem tanta bandeira que Martha Rocha está incomodando tanto”, disse a candidata.

Segundo ela, um dos candidatos que a atacou durante o processo eleitoral foi Eduardo Paes (DEM). “Uma das campanhas foi feita pelo Eduardo Paes, nós ganhamos uma ação e retiramos do ar um perfil que apoiava, declaradamente, ele. Nós tiramos mais de uma dezena de perfis falsos do Twitter”, disse.

Questionada sobre o voto no ex-deputado estadual Domingos Brazão para conselheiro do TCE-RJ (Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro), em 2015, a deputada diz que “fez uma avaliação errada”. Dois anos depois Brazão foi preso por suspeita de corrupção e afastado do TCE-RJ. “Naquele momento, não havia nenhuma condenação dele. Ele havia sido citado, mas não havia uma condenação”, falou. “Naquele momento fiz uma avaliação errada. Não faria novamente”, falou.

A candidata negou que esconda Ciro Gomes (PDT), possível presidenciável para 2022, em sua campanha. “Nós não estamos nem escondendo, nem apresentando ninguém”, disse. “Eu e Ciro já aparecemos inúmeras vezes, em inúmeras atividades feitas, exclusivamente, para que eu e ele tivéssemos um diálogo, um debate”, disse.  Acrescentou:  “O desafio de Ciro é muito maior, Ciro não pode, nem deve, estar vinculado apenas à cidade do Rio de Janeiro. O desafio dele é caminhar pelo Brasil, e se eu tiver que ouvir uma opinião, eu ouvirei, como eu ouvi a opinião de inúmeras pessoas”, destacou Martha.

 

“Meu nome é Martha, Marta Rocha, não Queiróz”

Alfinetada  por Bolsonaro com a possível assessoria de Ciro , Martha ironizou a menção e rebateu Bolsonaro na entrevista à “Veja” conduzida por Dora Kramer,  Ricardo Rangel e Ricardo Ferraz.  “Queria só dizer para ele que meu nome é Martha, Martha Rocha, e que o meu sobrenome não é Queiroz. Eu não sou ‘essa aí’, referindo à expressão que o presidente usou ao citá-la, indiretamente, ao falar de Ciro Gomes.

“ A gente tem um nome, uma trajetória da qual a gente se orgulha muito”, disparou a pedetista, fazendo menção ao assessor Fabrício Queiroz, amigo pessoal do presidente apontado pelas investigações do Ministério Público do Rio como operador de um suposto esquema de rachadinhas no gabinete de Flávio Bolsonaro quando este era deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).

Em seguida, fez um desabafo: “Tenho muita diculdade de lidar com as pessoas fazendo questão de fazer fake news, fazendo questão de ter conduta misógina, fazendo questão de desqualicar. Eu não tenho muita facilidade de fazer de conta que isso não aconteceu”.

Sobre as milícias, explicou à revista que “em 2007 exerci o cargo de titular da delegacia da Praça Seca, em Jacarapaguá e foi exatamente investigando casos de morte praticados pelo milícia que eu recebi a minha primeira ameaça de morte. Naquele momento, uma das pessoas investigadas era um vereador eleito da cidade do Rio de Janeiro”, explicou  acrescentando que deixou o cargo de chefe da Polícia Civil com mais de uma dezena de ameaças de morte.

Na sua opinião,  a prefeitura pode fazer muito pelo combate às milícias. A candidata defendeu a formação de um Gabinete de Gestão Integrada, que seria uma espécie de coalizão das forças de segurança composta por membros da Polícia Militar, da Polícia Civil, da Polícia Federal e do Ministério Público. Essa nova pasta seria responsável pela articulação da Prefeitura do Rio com os demais poderes.

“Há uma movimentação das milícias e uma modernização das suas atividades criminosas. Não estamos falando mais daquele início de milícia que protegia o território para evitar a chegada do tráfico. Não estamos mais falando de transporte alternativo, nem de cobrança de kit gás. Estamos falando aqui de uma milícia empreendedora, que se traduziu, por exemplo, no bairro da Muzema, em que mais de 20 pessoas morreram [no desabamento de dois prédios, em abril do ano passado]. É inadmissível que a Prefeitura não tenha assistido aquela construção”, criticou, concluindo “Nós podemos ter um gabinete de gestão integrada para articular a questão com os demais poderes e enfrentar a milícia”.

Na sabatina fez aceno à Benedita da Silva (PT) – a ex-governadora do Rio e também candidata a prefeita, pelo PT, nesta eleição: “Queria deixar o meu abraço à Benedita da Silva e registrar a minha alegria ao ver seis mulheres concorrendo ao cargo de prefeita. Isso demonstra essa trajetória que nós, mulheres, fizemos, entendendo que lugar de mulher também é na política”.

Questionada por Dora Kramer sobre o gesto – um grande indicativo de uma aliança entre PDT e PT no segundo turno das eleições municipais do Rio – a candidata respondeu: “A referência à Benedita da Silva é referência pela sua trajetória. Nós somos adversárias políticas, desejamos o mesmo lugar [cargo de prefeita], mas não somos inimigas”, disse. “Aliás, as mulheres dão um belo exemplo da sua conduta política porque as questões importantes são tratadas sempre de forma suprapartidária”, acrescentou.

Sobre Eduardo Paes, disparou: “O ex-prefeito [Eduardo Paes] recebeu um rio de dinheiro, realizou dois grandes eventos e o legado que se deixou para a cidade do Rio de Janeiro não foi um legado de referência na educação, na mobilidade ou na saúde pública. Por outro lado, o atual prefeito [Marcelo Crivella], segundo dados do Tribunal de Contas do Município deixou, só no ano de 2019, um déficit de 4 bilhões de reais. Então, mais do que nunca, quem sentar naquela cadeira em 2021, e não será uma tarefa fácil, é seguir o que já foi um dia a capital cultural e que hoje é uma referência como a capital dos escândalos, eu acho que, mais do que nunca, a gente tem que ter uma gestão”,  disse.

Em seguida, se eleita, Martha  elencou quais serão as suas primeiras medidas à frente da Prefeitura do Rio. “Redução de desperdícios, redução de contratos, verificar as cobranças dos grandes devedores, revisão dos incentivos fiscais. Ou seja, revisão das contas e, a partir daí, tornar essa cidade uma cidade que seja boa para viver, para estudar e para investir”, enumerou. A ideia, segundo ela, também é consolidar programas de geração de emprego e renda, organizar a cidade e deixar o ambiente de negócios mais propício para o investimento em ciência e tecnologia”. (O.M. e B.C.)

 

Fontes:

https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2020/10/30/sabatina-martha-rocha.htm 1/7

https://veja.abril.com.br/brasil/meu-nome-e-martha-rocha-nao-queiroz-diz-candidata-do-rio-a-bolsonaro/