Lupi celebra fundação do Movimento Negro ouvindo lideranças

Café com Lupi aborda luta pela inclusão racial dos negros iniciada por Abdias do Nascimento, Brizola e Edialeda Nascimento

Quando se fala em defesa de minorias, o PDT é sempre pioneiro no Brasil. Dessa vez, o partido está comemorando 40 anos do seu Movimento Negro e o Café com Lupi deste sábado (26) se dedicou inteiramente a data. Para lembrar a luta e as conquistas pedetistas ao longo dessas quatro décadas, o presidente nacional da legenda, Carlos Lupi, convidou o presidente do Movimento, Ivaldo Paixão, e a diretora do Instituto de Pesquisa e Estudos Afro-brasileiros (Ipeafro), Elisa Larkin.

Na realidade, anos antes de criar o Movimento Negro e a próprio PDT – ao menos sob essa sigla –, os trabalhistas já previam em documento a luta pelo povo negro marginalizado no Brasil. A Carta de Lisboa, em 1979, afirmava a intenção em “fazer justiça aos negros e aos índios que, além da exploração geral de classe, sofrem uma discriminação racial e étnica”.

Expoente incontestável dessa luta e maior liderança negra do país no século XX, Abdias do Nascimento foi quem protagonizou o início do movimento. De acordo com sua esposa, a diretora do Ipeafro, Elisa Larkin, sua intenção de ligar o trabalhismo à causa negra remonta o longínquo ano de 1945, quando os trabalhistas brasileiros se organizavam ainda sob a sigla PTB. Mas foi após o retorno de Brizola do exílio, na fundação do PDT, que pôde se concretizar.

“Abdias do Nascimento e Sebastião Rodrigues Alves, já em 1945, no antigo PTB, estavam reivindicando a fundação de um diretório negro”, disse Elisa. Em seguida, ela conta que esse processo pôde ser concretizado quando Brizola e Abdias se reuniram no momento de fundação do PDT, graças a empatia do trabalhista acerca das questões raciais. “[Na conversa] o governador Brizola ouvia, mas não só ouvia, ele assimilava a experiência [de Abdias] junto com a sua própria. Era perceptível o processo de identificação dele”, relembrou.

Com o pontapé inicial dado a partir desse entendimento e de ações inclusivas como a nomeação de secretários negros por Brizola em seu governo, o Movimento Negro do PDT construiu uma trajetória de luta, com a contribuição de memoráveis lideranças e muitas vitórias. Ivaldo Paixão fez questão de evocar alguns nomes como Edialeda do Nascimento e Alceu Collares.

Paixão elencou as principais conquistas do Movimento Negro ao longo desses 40 anos. “São vários fatos importantes, mas os principais foram justamente a implementação de políticas de ação afirmativa. Também a ocupação de espaço nos secretariados nos governos pedetistas […] E no parlamento eu cito a lei que criminaliza o racismo e o preconceito, conhecida como Lei Caó, de Carlos Alberto de Oliveira”, lembrou o presidente do Movimento Negro.

O Café com Lupi exibiu ainda um vídeo de apresentação do Ipeafro, com depoimento de diversos integrantes acerca do que o instituto representa para a população e para a cultura afro-brasileira. O breve documento também abordou o rico acervo com a memória da luta pela inclusão racial no país.

Ainda no Encontro de Lisboa, em 1979, Brizola incluiu no seu discurso sobre o partido que pretendia criar, ao retornar do exílio de 15 anos por conta da ditadura militar instaurada no Brasil em 1964, a questão dos negros – porque os considerava brasileiros historicamente perseguidos pelas elites desde o Brasil colônia, que cultivou o tráfico de escravos e a sociedade escravagista por mais de 300 anos. Brizola tinha clareza de que a libertação dos escravos fora uma das principais causas da proclamação da República em 1889 – por conta da insatisfação dos barões do café.

Sobre o tema, em seu longo discurso no Encontro de Lisboa, Brizola disse:

“(…) Considero também que o Trabalhismo precisa encarar o problema das populações negras no Brasil. É um tema que temos debatido e sei que no Brasil têm-se ampliado muitos círculos de debate sobre essa questão.Nossa mente foi trabalhada visando minimizar o problema. Que coincidência é essa, que as áreas de maior pobreza da população são áreas de população negra? Por que? Algo há.

“O Trabalhismo precisa ter definições a esse respeito.

“Há, no Brasil, uma discriminação. A população negra é uma imensidão, uma porcentagem imensa. E se falamos de população com contribuição de sangue negro, nós somos a maioria esmagadora do povo brasileiro. Este é um dos maiores quadros de injustiça da vida brasileira. É anterior a nós. O caso das populações discriminadas, negra essencialmente, é algo que o Trabalhismo não pode deixar de encarar como uma das grandes questões.

“Nós aqui temos definições a esse respeito e o partido precisa debater esse problema, junto com nossos irmãos de cor negra por toda parte. Que coincidência é esta que os maiores contingentes das populações marginais são negras? Que coincidência é esta que os cárceres estão povoados de uma maioria de brasileiros negros? Que coincidência é esta que todo mundo até aceita pacificamente que se cometa os maiores desrespeitos em matéria de direitos individuais, da família e coletivos, dentro de um ambiente quase de naturalidade?

“Esta é uma das grandes causas do (antigo) Partido Trabalhista Brasileiro e não vai ter nenhum conteúdo de luta de minorias, de raças, de uma corrente contra outra. Não! Vai ser dentro da nossa visão fraterna da sociedade brasileira. Mas nós queremos atuar esse campo com uma energia que está ligada aos grandes compromissos que o nosso partido tem (…)”, afirmou Brizola em parte de seu discurso no Encontro de Lisboa que, em 1979, reuniu trabalhistas que viviam no exílio com os trabalhistas que combatiam a ditadura no Brasil, para refundação do PTB – sigla que por manobras da ditadura e do general Golbery, com apoio de ministros do TSE, acabou caindo nas mãos de Yvette Vargas, obrigando Brizola a fundar um novo partido quando perdeu a sigla histórica dos trabalhistas: o Partido Democrático Trabalhista (PDT).

Vitorioso nas eleições para governador em 1982, Brizola fez questão de incluir negros no primeiro escalão de seu governo, nomeando entre outras personalidades para seu secretariado o jornalista Carlos Alberto Oliveira, como secretário de Habitação – que na Constituinte de 88 tornou racismo crime; e a médica Edialeda do Nascimento, para a Secretaria do Bem Estar Social. Na explosão brizolista da eleição de 1982, o PDT também elegeu no Rio de Janeiro, onde Brizola disputou o governo e venceu após denunciar a tentativa de fraude eleitoral da Proconsult, o deputado estadual José Miguel – da Zona Oeste, um dos pioneiros da fundação do Movimento Negro, no Rio de Janeiro.

(OM, com PDT Nacional)

Veja o programa completo “Café com Lupi”, no vídeo abaixo.