Brizola no Jornal Nacional em 1994: mais do que direito de resposta, direito à verdade

“Reagi contra a Globo em defesa do Estado do Rio de Janeiro”, garantiu o fundador do PDT

*Por Bruno Ribeiro / OM / PDT-RJ

 O 15 de março de 1994 ficou marcado não só na história da comunicação, mas também na memória do povo brasileiro. Lido ao vivo pelo apresentador Cid Moreira, o direito de resposta do então governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, ao poderoso empresário Roberto Marinho, dono das Organizações Globo, foi uma vitória trabalhista, também na Justiça, em prol da verdade e contra ataques infundados promovidos pela Rede Globo de Televisão na época – quando Brizola exercia pela 2a. vez o governo do Estado do Rio, eleito pelo povo fluminense.

Ao citar conquistas que transformaram a realidade do povo, o fundador do PDT valorizou o apoio da ampla maioria nas urnas, o que, segundo ele, representava a valorização de gestões voltadas para o interesse popular.

“Em 83, quando construí a passarela, a Globo sabotou, boicotou, não quis transmitir e tentou inviabilizar de todas as formas o ponto alto do Carnaval carioca. Também aí não tem autoridade moral para questionar. E mais, reagi contra a Globo em defesa do Estado do Rio de Janeiro que por duas vezes, contra a vontade da Globo, elegeu-me como seu representante maior”, criticou.

“Quando me insulta por nossas relações de cooperação administrativa com o governo federal, a Globo remorde-se de inveja e rancor e só vê nisso bajulação e servilismo. É compreensível: quem sempre viveu de concessões e favores do Poder Público não é capaz de ver nos outros senão os vícios que carrega em si mesma”, completou.

Diante do vínculo com o regime ditatorial desde a década de 60, o pedetista desqualificou a confiabilidade de uma instituição formada nas entrelinhas de conceitos militares sustentados na repressão antidemocrática.

“Não reconheço à Globo autoridade em matéria de liberdade de imprensa, e basta para isso olhar a sua longa e cordial convivência com os regimes autoritários e com a ditadura de 20 anos, que dominou o nosso país”, relembrou, no texto.

No encerramento, Brizola ratificou sua confiança no discernimento do cidadão para assegurar, a partir de informações confiáveis, a correta consolidação da opinião pública.

“Que o povo brasileiro faça o seu julgamento e, na sua consciência lúcida e honrada, separe os que são dignos e coerentes daqueles que sempre foram servis, gananciosos e interesseiros”, concluiu.

Para assistir na íntegra, clique aqui.

Abaixo, o texto lido pelo apresentador Cid Moreira:

“Todos sabem que eu, Leonel Brizola, só posso ocupar espaço na Globo quando amparado pela Justiça. Aqui citam o meu nome para ser intrigado, desmerecido e achincalhado perante o povo brasileiro.

Quinta-feira, neste mesmo Jornal Nacional, a pretexto de citar editorial de ‘O Globo’, fui acusado na minha honra e, pior, apontado como alguém de mente senil.

Ora, tenho 70 anos, 16 a menos que o meu difamador Roberto Marinho, que tem 86 anos. Se é esse o conceito que tem sobre os homens de cabelos brancos, que o use para si.

Não reconheço à Globo autoridade em matéria de liberdade de imprensa, e basta para isso olhar a sua longa e cordial convivência com os regimes autoritários e com a ditadura de 20 anos, que dominou o nosso país.

Todos sabem que critico há muito tempo a TV Globo, seu poder imperial e suas manipulações. Mas a ira da Globo, que se manifestou na quinta-feira, não tem nenhuma relação com posições éticas ou de princípios. É apenas o temor de perder o negócio bilionário, que para ela representa a transmissão do Carnaval.

Dinheiro, acima de tudo.

Em 83, quando construí a passarela, a Globo sabotou, boicotou, não quis transmitir e tentou inviabilizar de todas as formas o ponto alto do Carnaval carioca. Também aí não tem autoridade moral para questionar. E mais, reagi contra a Globo em defesa do Estado do Rio de Janeiro que por duas vezes, contra a vontade da Globo, elegeu-me como seu representante maior.

E isso é que não perdoarão nunca.

Até mesmo a pesquisa mostrada na quinta-feira revela como tudo na Globo é tendencioso e manipulado. Ninguém questiona o direito da Globo mostrar os problemas da cidade. Seria antes um dever para qualquer órgão de imprensa, dever que a Globo jamais cumpriu quando se encontravam no Palácio Guanabara governantes de sua predileção.

Quando ela diz que denuncia os maus administradores deveria dizer, sim, que ataca e tenta desmoralizar os homens públicos que não se vergam diante do seu poder.

Se eu tivesse as pretensões eleitoreiras, de que tentam me acusar, não estaria aqui lutando contra um gigante como a Rede Globo.

Faço-o porque não cheguei aos 70 anos de idade para ser um acomodado.

Quando me insulta por nossas relações de cooperação administrativa com o governo federal, a Globo remorde-se de inveja e rancor e só vê nisso bajulação e servilismo. É compreensível: quem sempre viveu de concessões e favores do Poder Público não é capaz de ver nos outros senão os vícios que carrega em si mesma.

Que o povo brasileiro faça o seu julgamento e na sua consciência lúcida e honrada separe os que são dignos e coerentes daqueles que sempre foram servis, gananciosos e interesseiros.

Leonel Brizola”

Veja também o documentário “Muito Além do Cidadão Kane”, do jornalista inglês Simon Hartog, da BBC