Carlos Bastos: “Brizola foi o único civil a barrar um golpe militar”

“Quando Jango comunicou ao Brizola que aceitaria o parlamentarismo, Brizola discordou, mas não se rebelou”

Há 60 anos, o jornalista Carlos Bastos presenciou o ex-governador do Rio Grande do Sul Leonel Brizola fazer história com o Movimento da Legalidade. Ao garantir a posse do vice-presidente João Goulart em 1961, Brizola se tornou o único civil a barrar um golpe militar na América Latina. Para Bastos, ele sintetiza a política gaúcha e, hoje, lamenta que o Brasil não tenha uma figura política da mesma estatura.

Depois da renúncia do presidente Jânio Quadros, em 25 agosto de 1961, Bastos cobriu a tentativa de golpe que setores do Exército brasileiro tentaram executar, ao impedir que Jango assumisse a presidência do Brasil, como previa a Constituição da época.

De 25 de agosto até 7 de setembro, quando João Goulart tomou posse, Carlos Bastos praticamente morou no Palácio Piratini, dormindo nas poltronas e sofás que ficavam no porão da sede do governo gaúcho.

Dali, ele viu Brizola requisitar a Rádio Guaíba para transmitir os seus discursos e de outras lideranças que defendiam a posse de Jango. Emissoras de rádio de vários estados brasileiros começaram a retransmitir os pronunciamentos – formando a Rede da Legalidade.

Nos momentos de maior tensão, quando o comando do Exército brasileiro deu ordem para bombardear o Palácio Piratini, Bastos chegou a receber um revólver para resistir ao ataque. Assim como milhares de civis que aderiram ao movimento, devolveu a arma depois da posse de João Goulart.

Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Carlos Bastos relembra os dias de tensão que passou dentro do Piratini. Também relata como o Terceiro Exército decidiu apoiar o Movimento da Legalidade, em vez de bombardear a sede do governo gaúcho. E ainda recorda o que considera o maior discurso de toda a carreira de Brizola – que atraiu cerca de 50 mil pessoas à Praça da Matriz, para apoiar a Campanha da Legalidade.

Jornal do Comércio – Como era o clima antes da renúncia de Jânio Quadros? Havia algum indício de que os militares pretendiam tentar um golpe de Estado?

Carlos Bastos – Não havia nenhum indício, porque o Jânio tinha sido eleito (à presidência da República em 1960) por uma boa maioria sobre o marechal Henrique Lott (Jânio fez mais de 5,6 milhões de votos, a maior votação até então; dois milhões a mais que Lott). O Movimento da Legalidade foi provocado pela renúncia do Jânio, que foi inesperada.

Ele renunciou em uma sexta-feira, 25 de agosto. Naquele final de semana, estava prevista uma vinda dele ao Rio Grande do Sul. Antes de exigir a posse do vice-presidente João Goulart, o então governador Leonel Brizola fez um apelo ao Jânio, pedindo que não renunciasse, pois estava sendo vítima de uma trama. A resposta do Jânio veio através do seu assessor de imprensa, Carlos Castelo Branco, de que a sua renúncia era definitiva, não tinha como recuar.

JC – Foi depois da renúncia de Jânio que surgiu o clima golpista…

Bastos – Esse clima foi criado logo após a renúncia, quando os ministros militares imediatamente vetaram a posse do vice-presidente João Goulart, que se encontrava em viagem pela China. Só que não é apenas nesse momento que o movimento golpista se revelou.

Na verdade, as tentativas de golpe vêm desde a posse do presidente Getúlio Vargas em 1950, quando a UDN e o (jornalista Carlos) Lacerda fizeram aquela campanha de que era necessário ter maioria absoluta (dos votos para se eleger), quando não havia essa exigência na lei eleitoral. Em 1954, Getúlio evitou um golpe ao se suicidar. Havia uma campanha golpista tremenda da UDN.

Depois, com Juscelino Kubistchek (em 1955), houve uma nova tentativa de golpe desses setores udenistas. Entretanto, o marechal Lott, legalista, liderou o contragolpe que garantiu a posse do Juscelino em novembro de 1955. Então, existia um histórico de tentativas de golpe no Brasil, da qual a negativa em dar posse ao João Goulart foi mais uma passagem.

JC – As forças obscuras mencionadas na carta de renúncia do Jânio se referiam a essas articulações golpistas?

Bastos – Eu não poderia sustentar isso, porque o próprio Jânio tornou público mais tarde que ele, com a renúncia, tentou fechar o Congresso Nacional (onde não conseguiu o apoio da maioria dos parlamentares). Ele achou que o povo sairia às ruas para impedir a renúncia dele, o que não aconteceu. Foi aí que cresceu o sentimento golpista entre os ministros militares.

Creio que não havia um esquema golpista contra o Jânio. E a carta de renúncia foi uma peça de um jogo de xadrez, porque ele não estava conseguindo aprovar as ações que julgava melhores para o País, por isso queria fechar o Congresso. Ele deixou isso claro em uma manifestação para o seu neto, que, muitos anos mais tarde, tornou pública essa declaração.

 

JC – Mas ele nunca expressou a vontade de fechar o Congresso durante o seu governo…

Bastos – Claro que não. Ele usou a renúncia para tentar isso. Junto com isso, já tinha preparado a viagem do Jango para a China, com o objetivo de acirrar os ânimos dos militares contra o Jango. Com isso, pensou que haveria manifestações impressionantes da sociedade brasileira, para que ele ficasse no poder. Isso não aconteceu.

JC – Depois da renúncia definitiva do Jânio, Brizola já começou a organizar imediatamente o movimento pela posse de João Goulart?

Bastos – Depois que o Brizola recebeu a manifestação do Jânio, de que a renúncia era definitiva, ele passou a defender a tese da posse do Jango. Os ministros militares estavam dizendo que impediriam a posse do vice-presidente, não cumprindo a Constituição brasileira. Aí, Brizola começou a se movimentar, manter contatos com lideranças políticas em Brasília, deputados federais, senadores, líderes militares.

JC – Ele buscou o apoio do Terceiro Exército, para garantir a posse de João Goulart…

Bastos – O Brizola ligou na noite de sexta-feira (a mesma que Jânio renunciou) para o comandante do Terceiro Exército, general Machado Lopes, para dizer que o Rio Grande do Sul defenderia a tese do comprimento da Constituição e a posse do vice-presidente. Qual foi a resposta do comandante Machado Lopes? “Eu sou militar, governador, e estarei com o Exército”. Essa foi a reação do Machado Lopes no primeiro momento.

JC – Foi nesse momento que começou a campanha nas rádios…

Bastos – No sábado, o Brizola começou a fazer os contatos dele: falou com líderes militares de todas as regiões do País, falou com as lideranças políticas, e fez um apelo ao marechal Lott para que fizesse um manifesto em defesa da legalidade. O marechal fez e, na noite de sábado, dia 26 de agosto, esse manifesto foi divulgado como matéria paga nas rádios de Porto Alegre (RS).

Só que, à medida que as rádios iam divulgando o manifesto, o pessoal do Terceiro Exército tirava as emissoras do ar. A única rádio que não divulgou o pronunciamento foi a Rádio Guaíba, porque o doutor Breno Carlos, seu proprietário, simplesmente recusou a divulgação do manifesto.

JC – Por isso, foi a única rádio que continuou no ar…

Bastos – Esse fato foi comunicado ao governador Brizola no domingo pela manhã, pelo seu assessor de imprensa, Hamilton Chaves. “Governador, as rádios colocaram no ar o manifesto do Marechal Lott e, à medida que isso aconteceu, elas foram tiradas do ar; a única rádio que continua transmitindo é a rádio Guaíba”.

Então, o Brizola teve a grande sacada: “vamos requisitar a Guaíba e criar a Rede da Legalidade”. Domingo à tarde, a rede já estava funcionando nos porões do Palácio Piratini. Mas, sábado à noite, teve um episódio interessante…

 

JC – Qual?

Bastos – Os tanques do quartel da Serraria se deslocaram da Zona Sul para o centro da cidade. Foi aquele clima de tensão no Palácio Piratini no sábado à noite, porque os tanques estavam indo cercar a sede do governo. Aí teve uma cena inusitada. Os estudantes e os trabalhadores que estavam permanentemente na frente do palácio durante o período da Legalidade arrancaram os bancos da Praça da Matriz e do Auditório Araújo Viana, que, naquela época, ficava onde hoje é o prédio da Assembleia Legislativa.

Eles usaram esse material para trancar as ruas de acesso ao palácio, apesar de que aquele material não conteria os tanques. De qualquer forma, eles ficaram parados atrás do quartel-general do Terceiro Exército, na Avenida Mauá. No final, eles não se dirigiram ao Palácio Piratini.

JC – Onde o senhor estava nessa noite?

Bastos – No Palácio Piratini. De sábado até três dias depois da chegada do João Goulart ao Rio Grande do Sul, eu permaneci dia e noite no palácio. Dormia nas poltronas da assessoria de imprensa, no porão, onde ainda hoje funciona a Secretaria de Comunicação. Só ia para casa para trocar de roupa e tomar banho.

JC – Nos momentos mais tensos, quando o Piratini corria o risco de ser bombardeado, foram distribuídas armas para a resistência ao golpe. O próprio governador Brizola foi fotografado com uma metralhadora a tiracolo. O senhor recebeu uma arma também?

Bastos – Recebi um revólver, que devolvi depois que terminou o Movimento da Legalidade.

JC – Quando o Terceiro Exército resolveu apoiar o movimento? Foi logo depois da Rede da Legalidade…

Bastos – No primeiro dia (de transmissões para a Rede da Legalidade), Brizola falou várias vezes ao microfone. O locutor Mauro Freitas, falecido já, ficou no ar durante as primeiras 24 horas. A adesão do Terceiro Exército foi na segunda-feira, após uma forte manifestação do Brizola, no dia 28 de agosto, às 11 horas da manhã, de dentro do Palácio Piratini.

Para mim, aquele foi o mais impressionante discurso de toda a carreira política dele. Foi quando ele denunciou que veio uma ordem do Ministério da Guerra, em Brasília, para que fosse bombardeado o palácio. No momento que o Brizola começou a falar na rádio, tinha 5 mil pessoas na Praça da Matriz, em frente ao palácio, que era um número que sempre estava ali se manifestando. Quando terminou o seu pronunciamento, uma hora depois, tinha 50 mil pessoas na praça. As pessoas foram lá para se solidarizar com o seu governador, no momento que ele defendia a legalidade. Isso me impressionou muito.

JC – Esse episódio mudou a posição do Terceiro Exército?

Bastos – Creio que o Terceiro Exército já estava avançando para essa posição, porque quase todos os comandantes do Interior – de Osório, Santiago, Santa Maria, Santa Rosa, além do general Galhardo, de Curitiba – eram seguidores do Marechal Lott. Ou seja, eram legalistas. Quem ficou contra a posse do presidente João Goulart foi só o General Paz, de Bagé.

Foi essa maioria esmagadora dos comandos militares do Terceiro Exército que levou o general Machado Lopes a aderir e apoiar o movimento liderado pelo governador Brizola. Aí, ele foi ao palácio e fez essa manifestação de solidariedade ao movimento.

JC – Isso foi crucial para garantir a posse de Jango…

Bastos – Sim, sem dúvida.

JC – Como foi a pressão para isso?

Bastos – O movimento que o Brizola publicizou por todo o País, através da Rede da Legalidade, teve uma receptividade muito grande. O Jango veio lentamente da China. O movimento começou no sábado, dia 26 de agosto, e o Jango só chegou ao Brasil no dia 2 de setembro. Ele dormiu em Montevideo, onde teve um encontro com Tancredo Neves.

Lá, eles acertaram a implantação do regime parlamentarista, que era uma exigência dos setores militares (golpistas) para darem posse ao vice-presidente. Jango aceitou para evitar o derramamento de sangue. Quando ele voltou ao Brasil, essa saída política já estava acertada.

Aliás, quando ele foi saudar a multidão que estava na Praça da Matriz, apenas acenou pela janela, não discursou. Esse era um compromisso que tinha assumido junto com o acordo. Por não falar ao povo, Jango foi vaiado. Foi a maior vaia que assisti na minha vida.

 

JC – Mas Brizola não queria que Jango aceitasse o parlamentarismo…

Bastos – Exato. Quando Jango comunicou ao Brizola que aceitaria o parlamentarismo, Brizola discordou, mas não se rebelou. Ele simplesmente deixou de fazer manifestações na Rede da Legalidade. E, quando Jango foi a Brasília para tomar posse, Brizola não foi prestigiá-lo.

JC – E o que o senhor acha? Deveria ter aceitado ou não?

Bastos – Na época, eu era contra a aceitação do parlamentarismo. Anos depois, quando soube da interferência norte-americana no episódio da Legalidade, passei a achar que Jango agiu certo naquela ocasião. Até porque dois anos depois ele derrubou o parlamentarismo através de um plebiscito.

 Perfil

Filho de pai brasileiro e mãe argentina, o jornalista Carlos Henrique Esquivel Bastos nasceu em Passo Fundo (RS), em 25 de julho de 1934. Na cidade interiorana, estudou no Instituto Educacional Metodista. Nessa época, passou a ler os jornais que o pai assinava na cidade interiorana, o que seria decisivo na sua vida profissional posteriormente.

Em 1950, aos 16 anos, mudou-se com a família para Porto Alegre. Na Capital, estudou no Colégio Júlio de Castilhos e no Colégio Protásio Alves. Em 1955, iniciou a carreira jornalística no jornal Clarim, fundado por Leonel Brizola – figura que marcaria sua atuação política.

Como o periódico de Brizola teve mais ou menos um ano de vida, Bastos seguiu sua carreira no jornal A Hora. Também passaria pela Última Hora, O Dia, Zero Hora, Rádio e TV Gaúcha, Rádio e TV Difusora, Jornal do Comércio, entre outros.

Em 1961, cobriu o Movimento da Legalidade, liderado pelo então governador Leonel Brizola. A experiência foi crucial para que, depois da ditadura militar (1964-1985), se filiasse ao PDT, partido então fundado pelo ex-governador. Considera-se brizolista.

 

(fonte: Jornal do Comércio, de Porto Alegre (RS))