Bonifácio, prefeito eleito de Cabo Frio, fala sobre seus primeiros passos: “Ideia é começar com corte em tudo”

Vice-presidente do PDT-RJ, eleito em Cabo Frio, dá longa entrevista para “Folha dos Lagos”

Nem parecia que, 48 horas antes, José Bonifácio Ferreira Novellino (PDT) conquistara o direito de governar Cabo Frio pela terceira vez, com uma consagradora diferença de mais de 11 mil votos para o segundo colocado nas eleições municipais, Serginho Azevedo (Republicanos). O prefeito eleito chegou sozinho à sede da Folha para esta entrevista sem assessores nem correligionários, acompanhado apenas do inseparável chapéu panamá e, claro, da bicicleta com a qual percorreu a maior parte das ruas da cidade durante a campanha eleitoral. O acesso fácil e o despojamento, ele garante, continuarão ao longo do seu mandato, que começará em 1º de janeiro.

Ao longo do bate-papo de cerca de uma hora, com os jornalistas Rodrigo Branco e Rodrigo Cabral, regado a xícaras de café – para ele, sem açúcar, para sentir o “verdadeiro gosto” da bebida –, Zé confidenciou que, apesar de todo o assédio, cumprimentos e compromissos após sua vitória, já conseguiu dar uma esticada na rede para relaxar, na casa que alugou em Tamoios.

 

Folha dos Lagos – Qual será o papel da vice Magdala Furtado no seu governo?

José Bonifácio – Quero que ela seja secretária de alguma coisa. Passei para ela a estrutura administrativa e disse:“quero você atuando, dá uma lida nisso, vê o que você se identifica e vamos conversar”. Quero, a partir dela, definir os outros. Eu só não quero que ela fique apenas em Tamoios. Eu a quero em todo o município de Cabo Frio, até porque ela é uma vice. Eu cometi um erro com Timinho muito grande. Ele ficou muito fora do dia a dia da administração. Ele era um secretário, assumiu, mas no prédio do Braga e as coisas acontecem no dia a dia do prefeito. É audiência, é telefone, é um deputado que chega, é um empresário, é um ambulante, é uma associação de moradores, é um decreto que você vai assinar. O vice já estando ali, manda chamar e participar de tudo.

 

No primeiro escalão, tem algo definido?

– Não, definindo ela e com ela, vou começar a chamar os companheiros que estavam mais à frente. Aí, a gente vai trocar uma ideia. Quero ver sempre se eu anuncio um ‘casal’, para manter a paridade. O pessoal só está me indicando homem até agora (risos). Pelo WhatsApp, pedi para indicarem, mas só homem. Eu falei: “Quero mulher, me indica mulher nesse negócio”.

 

Você acredita que vá fazer esse anúncio de alguns nomes até quando?

– Penso em ir anunciando conforme a gente definir.

 

E qual a área te preocupa mais?

– Saúde e Fazenda. Eu não tenho a menor noção do que está acontecendo na Fazenda. Como está a receita, se comparado ao ano passado. Se bem que comparado ao ano passado tem que ser menor mesmo porque não havia pandemia. Mas ao longo do ano, de março pra cá, depois que começou a reabrir um pouco a atividade econômica, como é que se comportou o ISS, o IPTU, o próprio ICMS. Com os royalties eu nem estou preocupado, porque eu nunca administrei com royalties. Então, tudo o que tiver com royalties está bom. A ideia é começar com um percentual de corte em tudo. E aí não apenas no pessoal. Normalmente, quando quer reduzir despesa, vai só no pessoal. Não quero isso. Vamos admitir que temos que cortar 10%. Todos os contratos eu vou ter que renegociar e tirar 10% dos contratos de aluguel, de fornecimento. Sei que vai ser uma peleja, mas como todo mundo diz que sempre tem uma gordura, é possível que a gente consiga. Porque eu tenho que investir. Precisamos implantar 40  equipes de Saúde da Família para atender teoricamente a 160 mil moradores que não têm plano de saúde. Deve ser mais depois da pandemia. Para ter uma equipe para quatro mil moradores, preciso de 40 equipes de Saúde da Família. Vinte equipes já temos condições de botar para trabalhar logo no dia 4 de janeiro porque já preparamos. Mas é preciso estar com tudo montado na fase de transição. Porque você tem mais de 20 prédios próprios de posto de saúde. Então é só remodelar e chamar. Médico, por exemplo, vai ter que trabalhar 40 horas semanais, de segunda a sexta. Topa? Qual o salário? R$ 17 mil, que é o que paga Foz do Iguaçu.

 

Então você vai fazer uma revisão de contratos?

– Vamos fazer revisão de contratos.

 

Você já montou sua equipe de transição?

– Eu não montei porque ninguém da Prefeitura fez sinalização. Vou esperar até amanhã (última quarta). Se não tiver contato de ninguém, não precisa ser ele, pode ser o chefe de gabinete, eu vou ligar para uma amiga minha, que também é amiga dele, para pedir que interfira. Porque senão vai ser difícil. (NOTA DA REDAÇÃO: Nesta segunda-feira (23), o prefeito Adriano Moreno sinalizou que pretende começar a transição com Bonifácio na terça (24), contudo até a publicação desta entrevista, o governo ainda não havia publicado o decreto que nomeia os integrantes governistas que participarão do processo transitório).

 

A estrutura da prefeitura continua a mesma ou você pretende mudar?

– Eu penso em mudar. Mudar para adaptar. Por exemplo, Tamoios é uma cidade. Não é possível que tenha apenas, de cada secretaria, apenas um representante. Tem que ter uma estrutura. Então, só aí, a gente já vê que precisa de uma estrutura melhor, de gente trabalhando, de pessoas com responsabilidade, resolvendo. Tamoios é três vezes Búzios. Olha a estrutura que Búzios tem. E aí, já decidi que para lá vou levar duas secretarias: Meio Ambiente e Obras e Serviços Públicos. Lógico que aqui não pode fechar, mas o núcleo central será Tamoios. O Meio Ambiente é a mesma coisa. Eu quero consolidar o Parque do Mico Leão Dourado. Aquilo é uma coisa maravilhosa, mas precisa ser todo delimitado. Lá tem ocupações antigas que a gente vai ter conviver e buscar recursos para, lá na frente, desalojar. Desalojar não, tem casas boas lá. Não é barato. É igual ao Parque Costa do Sol. A propriedade é privada, está definido que o cara não pode mais ocupar, mas ele precisa ser indenizado pela propriedade dele, porque a gente vive num país capitalista. Eu quero criar um fundo de indenização para a gente ter ao final de, sei lá, trinta anos, um parque totalmente isolado de qualquer presença permanente que não seja relacionada com a questão ambiental.

 

Foi criada recentemente a Codescaf (Companhia de Desenvolvimento de Cabo Frio). O que você acha disso?

– Não tenho a menor noção. Na realidade, está como lei. Não está gastando? Vamos lá. Não estou preocupado nem com implantá-la nem extingui-la. Não tenho nada pré-concebido em relação a isso porque não sei quais são as finalidades dela. Se ela se encaixar dentro do que eu penso, que são três zonas especiais de desenvolvimento, que são no aeroporto, no Grande Jardim Esperança e em Tamoios, se ela se servir para consolidar isso, a gente vai em frente, implanta. Se não, a gente vê.

 

A Comsercaf  também sempre foi um tema muito quente durante as últimas eleições. Você pensa em extingui-la?

– Eu pretendo mantê-la, fortalecer. Ela também tem que estar presente em Tamoios. Tamoios é um horror de coleta de lixo. Todas as ruas transversais que saem na Avenida da Independência, que é à paralela à estrada (Rodovia Amaral Peixoto) é um pequeno lixão.

 

E esse contrato de terceirização com Ecomix você pretende revisar?

– Tem que ver o que eles estão fazendo. Vejo muito a presença de pessoas uniformizadas, de cor verde, em pequenos locais definidos. Vou dar o exemplo do Manoel Corrêa que a gente sabe que é uma região complicada, dominada por uma facção do tráfico de drogas. Tudo abandonado, as praças. As crianças chegaram pra mim e disseram “Zé, conserta o nosso parquinho”. Os parques, as praças, a limpeza, as escolas. O CIEP de lá tem 53 alunos, num prédio daqueles. Ontem (segunda), liguei para Comte Bittencourt (secretário estadual de Educação), presidente do Cidadania, que ajudou na nossa vitória, pois ajudou a trazer o Coronel Ruy França. Liguei para agradecer, mas também para pedir, pois quero municipalizar o CIEP do bairro Manoel Corrêa, que só tem 53 alunos. A mínima expressão para dizer sobre isso é que é uma maldade com os jovens do bairro, que é uma comunidade pobre, dominada pelo tráfico de drogas, que não têm espaço para estudar. Estuda na escola da Prefeitura, que eu não sei em que situação quer está. Minha ideia é, à noite, dar cursos de qualificação. Durante o dia, se a gente tiver recursos, fazer uma escola de tempo integral, como foi a concepção original de Darcy Ribeiro e Brizola, e à noite, dar cursos.

 

Qual será o papel de Coronel Ruy França, Aquiles Barreto e Jefferson Vidal no seu governo?

– Os três e a Magdala foram importantes. Os outros também, mas esses quatro eram candidatos. Se todos fossem candidatos, nós estaríamos divididos. O que aconteceu em Cabo Frio foi o fenômeno inverso. Quem ficou dividido aqui foram os candidatos conservadores. Todo mundo na linha de Bolsonaro, querendo pegar carona com Bolsonaro. Serginho; Capitão Diogo, que não falou diretamente, mas é a figura do militar; Mauro Bernardo, que apoiou Capitão Diogo; Macleyves e Rodrigo Gurgel. E nós ficamos unidos. Será que, se eles se dispersam, o resultado seria o mesmo? Então eles vão ter papel fundamental, não tenha dúvida.

 

Eles vão atuar diretamente ou indicar nomes para o governo?

– Eu quero que sejam eles. Porque eles demonstraram muita capacidade de articulação.

 

Então é certo que eles terão um posto de primeiro escalão?

– É bem provável.

 

Rafael Peçanha também?

– Peçanha teve um outro papel. Tenho uma relação muito boa com ele. Fiz a coordenação de campanha dele (em 2018). Modestamente, mas fiz. Mas o papel dele não foi tão principal como o desses quatro.

 

Mas você conta com ele para o governo?

– Conto com ele. Não sei como está a questão da saúde dele, cada um sabe onde aperta o seu sapato. Mas ele lá início, quando o chamei para ser coordenador-geral, ele não respondeu, que acabou caindo no colo do Aquiles, que foi a coisa mais acertada que eu fiz, porque os problemas não chegavam a mim.

 

(*) A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA COM O PREFEITO ELEITO DE CABO FRIO, JOSÉ BONIFÁCIO, ESTÁ NA EDIÇÃO SEMANAL DA FOLHA DOS LAGOS QUE ESTÁ EM TODAS AS BANCAS.

 

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