José Augusto Ribeiro escreve sobre protagonismo do PDT entre os partidos de esquerda: “Reforma urbana já!”

 

“Sem precipitação, sem sofreguidão, mas refletidamente, o PDT saiu na frente e agiu rápido”

 

Por José Augusto Ribeiro

Com as vitórias que já teve na Justiça, a liminar de primeira instância contra os bancos e a liminar do Supremo contra Bolsonaro e em defesa da competência concorrente dos Estados e municípios para adotar medidas contra o coronavírus, e mais ainda com o pedido de impeachment formalizado na Câmara dos Deputados, o PDT assumiu, no quadro político que estamos vivendo, um papel mais importante, um protagonismo maior que os de qualquer outro partido de esquerda. Sem precipitação, sem sofreguidão, mas refletidamente, o PDT saiu na frente e agiu rápido.

No plano político, ele tem de aguardar agora a melhor oportunidade para que o pedido de impeachment seja aceito e comece a andar na Câmara – oportunidade que a demissão de Sérgio Moro pode acelerar. No plano econômico, vai ser preciso que os bancos afinal se curvem à decisão da Justiça, o que não parece estar acontecendo.

Mas no plano econômico o governo acaba de oferecer outra oportunidade, o plano de retomada de investimentos públicos coordenado pelo Chefe do Gabinete Civil, General Braga, passando por cima de Paulo Guedes e do neoliberalismo renitente da área econômica do governo.

O objetivo anunciado desse plano é criar 1 milhão de novos empregos, número sem dúvida substancial nas atuais circunstâncias. Acontece, porém, que na melhor das hipóteses esse plano deixará de fora 10 dos nossos 11 milhões de desempregados.

Por que o governo não pensou desde logo num plano de habitação popular que ataque diretamente a miséria de nossas favelas – hoje exposta cruamente pela televisão diante das ameaças e perigos do coronavirus? Talvez por que essa ideia óbvia pareça uma ideia de esquerda, capaz de levar o Brasil para o comunismo.

O coronavirus mostrou que a maior ameaça do coronavirus no Brasil seria ele chegar às favelas e delas se espalhar, contaminando a população inteira das cidades, inclusive as pessoas de mais alta renda. Acabar, portanto, com a miséria e com a existência das favelas tornou-se a prioridade das prioridades – e um desafio que nos oferece uma grande oportunidade.

A construção civil tem grande capacidade de gerar empregos, não depende de qualquer importação e sua cadeia produtiva envolve grande demanda de itens industriais, todos de fácil acesso ou de produção local –  desde o concreto para as fundações a tijolos, telhas, argamassa, madeira, ladrilhos, canos, torneiras, vidro etc.

Um grande plano habitacional, devidamente blindado para não ser capturado, como no passado, pelo financiamento de projetos para a classe média alta e até para construções de luxo, pode promover a retomada em ritmo acelerado da atividade econômica – depois é claro, de se verificar que não existe mais perigo nem de retomá-la, nem de uma recidiva.

Muito mais que o milhão de empregos contemplado pelo plano do governo, esse plano habitacional será o primeiro passo de uma verdadeira reforma urbana capaz de resgatar a vergonha e o atraso daquilo que o coronavirus mostrou ser atualmente nossa maior dívida social.

 

(*) José Augusto Ribeiro é jornalista e escritor.