Jornalista Leite Filho relança a biografia ‘El Caudillo Leonel Brizola’ em versão digital com 580 páginas

Livro “El Caudillo Leonel Brizola”, de Leite Filho, é relançado em versão digital

Por Helena Iono (do 247)

O jornalista e escritor  Francisco das Chagas Leite Filho acaba de reeditar o seu livro já publicado em 2008, de quase 580 páginas, “El Caudillo Leonel Brizola” (Editora Ágora), muito oportuno no momento político que se vive no país, retomando um dos fios importantes da história brasileira desde o golpe de 64 até o falecimento do personagem histórico, com alguns novos capítulos para os dias atuais.

Com uma narrativa detalhada de episódios, incluindo sua adesão às ideias e sua relação pessoal com Brizola, com esta produção literária, o autor nos causa oportunas reflexões sobre os legados do nacionalismo no Brasil, enraizados nas conquistas sociais e trabalhistas de Vargas, combatidas em governos posteriores e retomadas somente nos governos populares de Lula/Dilma com avanços e contramarchas, até chegarmos ao cenário trágico do fatal golpe neoliberal fascista de Bolsonaro, sustentado no lawfare continental; agora, nos compete pensar no quê fazer.

Esta publicação necessária, nos ajuda a emergir no passado histórico, rememorar as melhores ideias e ações nacionalistas e revolucionárias, e reavivá-las no presente, com novos agentes político-sociais, novas relações de forças conjunturais, para assegurar urgentemente um futuro promissor para a maioria do povo brasileiro.

Educação

Um povo sem memória não tem futuro. É o que se aprende nesta Argentina, onde Juan Perón, contemporâneo do nacionalista Getúlio Vargas, proporcionou entre tantas conquistas trabalhistas e estatizações, um nível de escolarização e educação que tornou o país detentor de um dos menores níveis de analfabetismo; o segundo, depois da Venezuela na América do Sul. Infelizmente, o índice de analfabetos no Brasil, segundo a Unesco, é proporcionalmente 10 vezes superior ao da Argentina.

A valorização de Brizola à educação esteve em sintonia com o cubano, José Marti, para quem “só um povo culto, será um povo livre!”. As obras dos CIEPs do ex-governador Brizola no Rio (83/87 e 91/94) e, das Universidades para todos nos governos do PT, foram lamentavelmente interrompidas. Quando as esquerdas e as forças progressistas recuperarem unidos o poder político, a democracia (aquela verdadeira, a da educação e saúde para todos); quando a terra voltar a ser redonda; Galileu, Giordano Bruno e Paulo Freire descerem vivos da guilhotina do bolsonarismo; e os ministros de educação e da saúde forem educadores e cientistas de verdade, deverá ser tarefa urgente reconstruir e disseminar milhares de CIEPs, as famosas escolas integrais para a inclusão das crianças pobres à cultura, ao esporte e à alimentação; oxalá quando a exclusão social for banida, os projetos educacionais possam integrar nos seus currículos livros de história como este, sobre “El Caudillo Leonel Brizola” (FC Leite Filho), e da “Era Vargas” (José Augusto Ribeiro). Personagens históricos como estes não podem ser conhecidos por apenas uma página dos livros escolares e algumas linhas do Wikepedia.

Porque será que na Argentina, há centenas de livros sobre Peron e Evita? Por que será que o povo argentino é culto e politizado? Por que quatro anos de macrismo foram suficientes para que ele desse um “Basta Macri!” e votasse pelo retorno de Cristina Kirchner e Alberto Fernandez? Porque entre todos os fatores políticos, onde o lawfare da Lava Jato fez o seu jogo, sustentado nas fakenews e na Globo venenosa, o despreparo político e cultural do povo brasileiro, regado por corporações conservadoras, também contribuiu para a falta de juízo crítico, para a paralisia de boa parte dos “letrados” frente ao golpe ao PT, dando o voto a Bolsonaro (menos disfarçado que Macri em campanha eleitoral, e declaradamente comprometido com a ditadura e a repressão). A educação subentendida como cultura massiva, popular e nacional, é uma tarefa essencial pendente no Brasil.

A Rede da Legalidade organizada por Brizola, quando governador do Rio Grande do Sul (1959-63), convocando a resistência cívico-militar contra o golpe de 64 através das rádios centralizadas na casa de governo (Guaíba); bem como a resistência à guerra midiática da Globo no Rio; sinalizaram como a luta ao poder midiático hegemônico sempre foi fator relevante na defesa da soberania nacional. Veja a Argentina: na contracorrente das corporações midiáticas,  a rádio, tem sido um instrumento de comunicação popular, que nasce no bojo do peronismo e cresce ao largo dos anos. Até hoje, ouvir rádio é um bom costume argentino. Donas de casas, taxistas, motoristas de ônibus e caminhão, comerciantes mantêm a audiência em várias rádios tradicionais (Rádio Nacional, AM750, Rádio 10, e tantas outras independentes) contra-restando a desinformação da conservadora rádio Mitre.

Logicamente com o avanço da internet a guerra midiática é atroz. Conscientizar a juventude, grande consumidora de redes celulares e fakenews é um problema novo e grave. Depender dos patrões imperiais da Facebook, Google, Billy Gates, etc.. para colocar um freio nas fakenews do fascismo, não assegura nada. Impor controles jurídicos ou tecnológicos nas fakenews das redes, ou nas telas das TVs, depende do combate político-econômico aos que sustentam o poder midiático. O movimento social e popular não deve renunciar a ter seus meios independentes de rádios e blogs e TVs-online. Assaz importante que Lula esteja, de certa forma, restaurando a Rede da Legalidade de Brizola, rompendo o cerco midiático e pandêmico, falando em rádios, TV-online e não poupando tempo para dirigir-se diariamente ao povo. E uma vez que as forças progressistas reconquistem o governo democrático e popular, deve-se assegurar que uma TV estatal ou pública seja efetivamente um comunicador permanente das metas e ações de governo.

A união imprescindível da esquerda e dos movimentos populares

Um nacionalismo com bases populares fez falta na história do Brasil. O peronismo e o varguismo coincidiram em várias medidas estatizantes dos setores estratégicos da economia e conquistas sociais trabalhistas. Perón, porém, conseguiu ir mais longe, acompanhado pela liderança popular de Evita, construiu uma irreversível capacidade de mobilização de massas. Mais de 3 milhões o foram receber em Ezeiza em 1973 na volta do exílio. As atrocidades da ditadura militar com 30 mil desaparecidos deixaram marcas profundas na consciência do povo argentino. O peronismo se enrobusteceu com a Memória, graças à persistência das Mães e Avós da Praça de Maio. A sinfonia das massas com consciência e memória na Argentina é um patrimônio histórico. Mas, no Brasil, esta sinfonia ainda ficou na partitura. De Vargas, Brizola a Lula, há um nexo importante. Brizola deu um grande exemplo de rebelião que faltou ao povo para impedir o suicídio de Vargas em 1954. Isolado, ou tardiamente, Brizola teve a ideia de convocar o exército na defesa do povo e da legalidade em 1964. Um pensamento necessário que iluminou hoje até o juiz Gilmar Mendes (STF) ao reclamar a consciência dos militares na defesa da institucionalidade e da vida do povo frente à pandemia. Nesse percurso histórico, finalmente, em 1978, Lula trouxe ao cenário o movimento operário e sindical de massas tão necessário para que o nacionalismo pudesse trazer soberania com povo na rua, nas fábricas e nos sindicatos. Com ele surgiram Vila Euclides, as caravanas, e suas presidências da República e do PT que não fecharam os olhos aos camponeses sem terras e ao MST que vinham por outro lado. Houve muitas lacunas e pendências, mas é hora de concentrar todo esse patrimônio da história brasileira. É hora que a partitura torne-se sinfonia plena e a orquestra a ressoe.

Não há outra saída para superar o Pandemônio político no Brasil e a Pandemia somados aos graves efeitos destrutivos pós-pandêmicos na economia mundial, sem uma unidade das forças populares com um projeto de nação soberana. Se Lula diz a Alberto Fernandez ter saudades de Chávez, Nestor/Cristina, Evo, Correia, Lugo, Tabaré, e Mujica na América Latina, e insiste no papel do Estado como melhor antidoto à Pandemia, seguramente, Brizola também lhe estará fazendo falta, apesar de alguns desencontros no passado. Lula disse que aprendeu muito lendo livros na prisão, e que, se tivesse lido no passado tudo o que leu, não teria sido um socialdemocrata, mas um revolucionário. O mundo também já não é o mesmo como quando a visita de Goulart a Mao-Tsé-Tung pôs em alerta os golpistas. O discurso dos Bolsonaros contra a China é insustentável neste contexto econômico mundial que põe em risco até mesmo os acordos EUA-Europa. Portanto, é hora de jogar bem no campo, contar com as contradições e debilidades área do inimigo, mas manter bem unida a equipe com estratégia e ataque.