João Boechat: “Lula, um vulcão exaurido na linha de frente?”

Por João P.  Boechat (*)

Em 8 de novembro de 2019, tão logo soube da notícia da liberdade de Lula, interrompi meus estudos para o exame da Ordem dos Advogados do Brasil e decidi com os meus amigos pegar um ônibus de Niterói-RJ a São Bernardo do Campo-SP, para ver seu discurso no Sindicato dos Metalúrgicos.

Fui acreditando ser o primeiro capítulo em uma nova fase da história brasileira; esperando que o maior líder brasileiro da terceira república incendiasse o país, mobilizando a nação contra a ameaça à democracia representada pela união profana entre o fascismo bolsonarista, o lavajatismo e o neoliberalismo. Eu era apaixonado pela figura do Lula, por o que ele representava, mas me decepcionei.

Me decepcionei, porque acreditava piamente que veria a convergência da esquerda em torno de uma frente popular para barrar os retrocessos daquele governo. As construções entre os partidos de esquerda, em torno de uma frente ampla, sinalizavam para o crescimento dessa articulação quando Lula voltasse desse embargo forçado e criminoso.

“Infelizmente, o reconhecimento da mudança de direção e dos erros estratégicos cometidos nos governos PT nunca veio”

Infelizmente, o reconhecimento da mudança de direção e dos erros estratégicos cometidos nos governos PT nunca veio. Esse governo, que fora o último governo popular, de grandes avanços sociais, também cometeu graves equívocos que nos levaram para a crise política de 2014-2016 e à ascensão do governo neoliberal de Temer, naquele golpe institucionalizado em Dilma, valorosa companheira engolida pela sua própria base aliada fisiológica.

Isso tudo não faz muito tempo, mas em 2019 eu estava no auge dos meus 22 anos, e durante toda a prisão de Lula, eu e meus colegas de curso, alguns militantes de vários partidos de esquerda e centro-esquerda, outros como eu não filiados a nenhum partido, mobilizamos os estudantes da Faculdade de Direito de Niterói para denunciar todo o absurdo daquele julgamento sem provas e sem lisura.

Estendemos a bandeira do Direito UFF Antifascista em conjunto com uma faixa escrito “Moro envergonha o Direito”, quando do escândalo ‘Vaza-Jato’; mobilizamos os alunos para comparecer ao evento ‘Moro Mente’ organizado por professores da casa, que sofrera uma ilegal e mal-sucedida tentativa de censura. Em todos esses momentos, nossa liberdade política prevalesceu, e passamos a aguardar ansiosamente o dia em que Lula, livre, rodasse o país trazendo ao povo as soluções pros problemas que não paravam e não param até hoje de se agravar.

O que vimos foi o contrário. Lula não só não mobilizou as massas, como não contribuiu para a convergência da esquerda. Ele submergiu Vimos o partido tomar a decisão de se isolar, anunciar que concorreria com cabeça de chapa em todas as capitais, e fugir do diálogo com grandes lideranças de outros partidos do campo popular.

“O PT se colocou na oposição nos principais colégios eleitorais dos maiores partidos de centro-esquerda, em uma clara disputa pela hegemonia, que terminou fracassada, perdendo absolutamente todas as capitais.”

Como construir união rompendo alianças históricas e essenciais como a com o PSB em Pernambuco e a com o PDT no Ceará? O PT se colocou na oposição nos principais colégios eleitorais dos maiores partidos de centro-esquerda, em uma clara disputa pela hegemonia, que terminou fracassada, perdendo absolutamente todas as capitais.

Falo tudo isso, pois tenho a tranquilidade de dizer que Lula é o maior gênio político vivo, e seu governo  foi o melhor governo que eu vi na minha jovem vida. Eu e muitos outros temos enorme gratidão por toda a contribuição que o PT fez, faz e fará pelo Brasil. Mas eu e tantos outros também nos decepcionamos com a estratégia e falta de projeto no discurso público do partido.

O que eu sinto, e tenho a certeza de que represento muitos quando digo isso, é que Lula não tem mais, em seu entorno, companheiros e amigos que saibam dizer não, que consigam contrariá-lo. Digo isso, pois sempre que as desavenças internas do PT vêm à tona, o que é falado inclusive por lideranças do partido é que essa estratégia de isolamento parte da visão de Lula.

A luta política do Brasil não é a luta pela reconstituição moral da imagem de Lula, covardemente vilipendiada pela lava-jato e pela grande mídia. A história será generosa com ele. Todos temos enorme gratidão por tudo o que ele fez; seus detratores, se a justiça for feita, passarão mais tempo na cadeia do que o tempo que ele injustamente passou.

Outros grandes líderes de esquerda, que inclusive sofreram perseguições ainda maiores pelo crime de defender o povo brasileiro, não precisaram colocar os interesses hegemônicos pessoais acima do país. Entre a morte de Vargas e o exílio de Brizola e João Goulart – no caso desse, sem volta – sua redenção nunca foi acompanhada com a recuperação do governo. Outros, como Luís Carlos Prestes, ou todos os comunistas perseguidos na ditadura militar, jamais chegaram ao poder.

Não faço coro ao antipetismo, e acredito que a inocência e reconstituição dos direitos políticos de Lula são uma questão de Estado Democratico de Direito. O PT não está errado em contestar o pleito de 2018 pelo absurdo embargo feito ao Lula. Não obstante, deve-se frisar que o fracasso nas eleições de 2020 não veio apenas desse fenômeno, alimentado pelo lavajatismo e pela grande mídia conivente. Ele veio também pela estratégia de isolamento e falta de projeto coerente.

Quando um partido não coloca em pauta um projeto estruturante de governo e país, o que sobra para a massa eleitoral é apenas o projeto de poder. Nesse ponto, o conhecido hegemonismo do PT se coloca como um entrave para a construção de uma frente popular, já que só o Lula teria legitimidade para escolher seu sucessor; o projeto de governo, que é o que realmente importa, seria secundário. A partir daí, vemos aberrações como a proposta de autonomia do Banco Central, ou a da nova Assembleia Constituinte – a primeira, para agradar o “mercado”; a segunda, para desagradar o país inteiro.

Ao longo do ano de 2020, uma das grandes lideranças de projeção nacional da esquerda, que pautou com prioridade a discussão em torno de um projeto, foi Ciro Gomes. Não penso que ele é a única opção; para vencer Bolsonaro, todos teremos que abrir mão de parte das nossas pautas e trabalhar em conjunto. Além dele, outros quadros do campo popular como Flávio Dino, Guilherme Boulos, Marcelo Freixo e outros não se furtaram de discutir os problemas nacionais com foco em 2022. Os últimos, inclusive, defendem o melhor projeto nas questões de moradia e segurança pública.

Em 2022, o que está em jogo é algo muito maior. Temos o risco de não ver apenas o Partido dos Trabalhadores afundar ainda mais, mas também de ver a esquerda inteira indo pro saco junto, e um segundo turno entre Dória e Bolsonaro: os neoliberais limpinhos contra os neoliberais fascistas. Pela primeira vez na história, veríamos um segundo turno sem a esquerda. Se esse cenário catastrófico se concretizar, será a pá de cal na influência política de Lula, pois toda a articulação do campo da esquerda têm sido determinada diretamente pela sua vontade.

Se as lideranças de esquerda quiserem, de verdade, trazer soluções para o povo, primeiro elas precisam obstruir qualquer pauta até a volta do auxílio emergencial. Essa é a pauta nº0 do momento, não dá pra falar de mais nada se nosso povo estiver morrendo de fome. Depois, os líderes dos partidos do campo popular, quais sejam o PT, o PDT, o PCdoB, o PSOL, o PSB, e outros menores, precisam alinhar o projeto de governo para os próximos anos.

Só em um segundo momento, eles devem traçar uma estratégia eleitoral. Uma composição que garanta a sobrevivência desses partidos para superar a cláusula de barreira, e o fortalecimento das candidaturas estaduais, mesmo que isso envolva, no plano nacional, candidaturas avulsas dos partidos menores. Eles também cumprem importante papel na campanha e nos debates, não só para puxar voto, mas para equilibrar o debate entre esquerda x direita. O que não pode acontecer de jeito nenhum, sob o risco de segundo turno entre duas direitas, é a divisão de votos entre os grandes partidos de esquerda ainda no primeiro turno. Por isso, o quadro presidenciável deve ser escolhido, dentro do campo popular, com base em sua capacidade de vencer Bolsonaro nas urnas.

Essa estratégia precisa ser de longo prazo e prezar pela repartição do poder, o que foi descartado pelo próprio Lula quando colocou a Dilma para concorrer em 2010 – honrada guerreira do campo popular, sim, mas fabricação única da vontade soberana de seu antecessor. Em 2014, Lula queria concorrer e não pôde, em respeito à vontade de Dilma. Em 2018, foi embargado pelos golpistas, e colocou Haddad para concorrer, sabendo que este não era o quadro mais carismático e com maior base de eleitores para freiar o crescimento de Bolsonaro.

“Em 2022, como será? Vimos, nessa semana, Lula indicar Haddad como pré-candidato para o próximo pleito. Na primeira entrevista em rede nacional, na CNN, após sua decisão, Haddad destacou o PDT como partido do campo bolsonarista”

Em 2022, como será? Vimos, nessa semana, Lula indicar Haddad como pré-candidato para o próximo pleito. Na primeira entrevista em rede nacional, na CNN, após sua decisão, Haddad destacou o PDT como partido do campo bolsonarista. A despeito de sua visão neoliberal da economia, já havia feito o mesmo na entrevista ao progama Roda Viva, quando disse que Ciro e seu partido já estavam no campo da direita. O que é ser de direita para Fernando Haddad? Defender a pauta dos rentistas e exploradores do trabalhador brasileiro, ou não defender acriticamente todos os erros do PT? Pela entrevista mencionada, Haddad deu a entender que só o PT presta e todos os outros partidos apoiam Bolsonaro. Como formar uma frente popular assim?

Torço para que Lula tenha seus direitos políticos restabelecidos, e torço pela justa prisão de Moro e Dallagnol, sabotadores da democracia, criminosos de lésa-pátria. Ao mesmo tempo, torço para que Lula decida não concorrer, pois sua derrota pode fazê-lo se tornar aquilo que Churchill mais temia, tal como Benjamin Disraeli provocara William Gladstone, em 1874, no parlamento britânico: “um vulcão exaurido no banco da frente”; um grande líder nacional do passado cujo poder e influência política terá se deteriorado na frente de seus próprios olhos.

 

(*)  João Boechat, 23, estudante da UFF, é militante da JS-PDT de Niterói