Ícone da cultura, venda do Palácio Capanema gera indignação no país

Painel de ladrilhos de Cândido Portinari

O ex-presidente da JS e da Fundação Pasqualini Rio, Everton Gomes, indignado com a decisão de Paulo Guedes de incluir o Palácio da Cultura, antiga sede do Ministério da Educação, na lista de prédios da União a serem vendidos na bacia das almas, questionou nas redes sociais: “Porque vender um dos símbolos do Brasil que pensava grande?”.

Segundo Everton, o prédio “reuniu as características fundadoras da arquitetura moderna com o uso de pilotis, planta livre, terraço-jardim, fachada livre e janelas em fita”. O entreguismo explícito de Guedes “é mais um ataque a memória trabalhista e nacional”.

O Edifício Capanema foi construído e inaugurado durante a gestão do Presidente trabalhista Getúlio Vargas, e foi sede do Ministério da Educação e Saúde, instalado na mesma gestão. O projeto tem as assinaturas dos mais importantes arquitetos brasileiros de todos os tempos. Entre eles, Oscar Niemeyer, Lúcio Costa, Carlos Leão, Jorge Machado Moreira, Afonso Eduardo Reidy e Ernani Vasconcelos. Conta também com uma fachada revestida por azulejos de Cândido Portinari, e jardim do icónico Burle Marx.

Por se tratar de um bem tombado de posse da União, sua venda é ilegal, como prevê o art. 11 do Decreto-Lei 25/1937:

Drummond, nos pilotis.

“As coisas tombadas, que pertençam à União, aos Estados ou aos Municípios, inalienáveis por natureza, só poderão ser transferidas de uma à outra das referidas entidades.”

Com mais uma canetada CRIMINOSA, o Governo Federal pretende entregar o Palácio Capanema à iniciativa privada. “Nossa Constituição Federal de 1988 define em seu art. 216 que é dever do poder público promover e proteger o patrimônio cultural brasileiro, mas o único compromisso de Bolsonaro é sucatear a cultura e nosso patrimônio, não podemos permitir que esse atentado à nossa memória se concretize”, afirmaram defensores do patrimônio artístico e cultural, indignados com a iniciativa do desgoverno Bolsonaro.

Carlos Drummond de Andrade, que foi chefe de gabinete do ministro Gustavo Capanema, da Educação,  assim descreveu, em seu diário, a chegada ao novo endereço de trabalho no prédio que esse governo entreguista quer vender:

“Dias de adaptação à luz intensa, natural, que substitui as lâmpadas acesas durante o dia; às divisões baixas de madeira, em lugar de paredes; aos móveis padronizados (antes, obedeciam à fantasia dos diretores ou ao acaso dos fornecimentos). Novos hábitos são ensaiados. Da falta de conforto durante anos devemos passar a condições ideais de trabalho. Abgar Renault resmunga discretamente: ‘Prefiro o antigo’. (…) Das amplas vidraças do 10º andar descortina-se a baía vencendo a massa cinzenta dos edifícios. Lá embaixo, no jardim suspenso do Ministério, a estátua de mulher nua de Celso Antônio, reclinada, conserva entre o ventre e as coxas um pouco da água da última chuva, que os passarinhos vêm beber, e é uma graça a conversão do sexo de granito em fonte natural. Utilidade imprevista das obras de Arte”

O Palácio Gustavo Capanema, um ícone da arquitetura moderna brasileira e mundial, será leiloado junto com outros 2.236 imóveis da União na capital fluminense que serão divulgados a potenciais compradores no dia 27 de agosto.

A antiga sede do Ministério da Educação e Saúde Pública (MES) foi projetada pelo arquiteto urbanista Lúcio Costa e sua equipe, composta por Carlos Leão, Affonso Eduardo Reidy, Ernani Vasconcellos, Jorge Moreira, Oscar Niemeyer, em 1937.

A equipe teve como referência estudos feitos pelo arquiteto franco-suíço Le Corbusier, que esteve no Brasil em 1936, convidado pelo Ministro Gustavo Capanema. Sua construção terminou em 1945.

O edifício é uma obra de arte inovadora e genial, feita para se adaptar ao clima tropical e implantado de forma a agregar valor ao espaço urbano onde se situa.

Recentemente, o Palácio Capanema passou por extensa e minuciosa reforma, tendo como marcos os 80 anos do IPHAN e, posteriormente, a realização do Congresso Mundial de Arquitetos no Rio de Janeiro.

Daniel Sampaio, fundador do Instituto Rio Antigo, distribuiu na internet  o texto abaixo:

“A PERGUNTA É: COMO VENDER O QUE NÃO TEM PREÇO?

Além disso, é inimaginável vender um prédio que tem agregado a ele obras de arte de valor também inestimável. Quanto vale o afresco “Jogos Infantis”, obra de Cândido Portinari comumente comparada ao painel “Guernica” de Picasso? No prédio há outros 14 painéis em afrescos e 5 painéis de azulejos, todos de Portinari.

Alguém sabe quanto custam os jardins-terraços projetados por Burle Marx?

Como precificar as esculturas de Adriana Janacópulos, Celso Antônio, Lipchitz e Bruno Giorgi — todas feitas especialmente para o prédio, que foi projetado para ser um símbolo da Cultura Nacional? Vai vender para quem? Vai ocupar com o quê? O tombamento será respeitado? Sua função social, mantida?

A França venderia o Louvre? Os EUA venderiam o Capitólio? Só quem não sabe o valor da Cultura para um país pode pensar em algo assim”.

 

(por OM e redes sociais)