O que é o PDT?

Quem quiser saber e compreender o que somos (PDT – Trabalhismo e Socialismo Democrático) e o que seremos, pode elucidar-se fazendo uma analogia entre estes tempos em que vivemos e os últimos tempos da Monarquia. Somos um movimento político-social que, ao definir sua doutrina, seu programa e questionar o futuro, assume, antes de tudo, uma consciência em relação à História e à formação de nosso povo e de nosso País.

Como os republicanos na década de 1880, nós – trabalhistas e socialistas –, um século depois, conscientes das realidades que nos envolvem, cultivamos uma visão estratégica e global sobre os destinos da Nação brasileira. Nossas raízes e fontes de inspiração se nutrem na própria história e formação de nosso povo, particularmente em suas lutas sociais e libertárias.

Somos hoje uma nova etapa, um novo patamar – mais lúcido e qualitativo – das mesmas lutas que vêm de longe. Somos a continuidade da História, como o foram os republicanos dos anos 80. O trabalhismo foi o movimento que unificou, pela primeira vez em nossa história, o povo trabalhador, que é a sua base social, e a imensa maioria da população brasileira: dos marginalizados às classes médias e aos profissionais e pequenos e médios empresários, do campo e das cidades. Evoluiu empiricamente, contando com quadros políticos que o período histórico lhe permitiu. Por ser o trabalhismo um movimento essencialmente social e de natureza democrática, é que afirmamos ser o trabalhismo a própria raiz brasileira do socialismo em liberdade.

O futuro próximo demonstrará que a causa da democracia socialista, como a da República no fim do século passado, representa o novo em nosso País e na América Latina, isto é, um regime democrático pluralista, sob a égide do Estado de Direito, com a hegemonia de um partido socialista, democrático, como instrumento da vontade nacional. Queremos ser, com o socialismo democrático, os construtores desta nova época, de justiça e oportunidades para nosso povo e de afirmação dos interesses nacionais.

Somos protagonistas, pois, de um processo dentro do qual – ombro a ombro com o nosso povo –, procedemos à construção e ao ajustamento de uma plataforma que venha expressar concretamente, neste período histórico, os anseios e direitos do povo brasileiro e, por conseguinte, os reais interesses da Nação. Os conservadores (PDS) nada mais têm a oferecer a este País, depois do desastre destes vinte anos. Pouco devemos esperar do chamado liberalismo brasileiro (PMDB e PFL*), que é liberal, politicamente, quando está na oposição; bastando, porém, chegar ao governo para tornar-se conservador, dado que tem esta natureza no econômico e no social. Esgota-se em função de suas contradições e irracionalidades. A esperança, o novo para o povo brasileiro, daqui para frente, será o socialismo em liberdade, que nada tem a ver com estatismo autoritário, de esquerda ou de direita, como o que nos legou aqui uma ditadura capitalista.

Também no fim da monarquia estava o Brasil submetido a um modelo econômico exportador, controlado por uma minoria em cumplicidade com as finanças e interesses internacionais; grandes empréstimos de bancos estrangeiros, tudo funcionando com base na exploração humana, através da escravatura. Uma estrutura de força, poder e privilégios sustentava esse modelo: o chamado autoritarismo monárquico. Perifericamente, funcionava a ordem política e parlamentar de suas elites, manejando com requintes de inteligência uma retórica democrática. Dois grandes partidos dominavam a cena política: o Partido Conservador, majoritário, apoiando o governo; e o Partido Liberal, na oposição, porém sem ultrapassar as instituições fundamentais do regime. Os dois partidos sustentavam, ostensiva ou sub-repticiamente, o modelo econômico, a escravatura e a monarquia. A situação era muito parecida com a de hoje. Dívida externa e dependência. As exigências vinham de fora, como hoje do FMI. A escravidão era insustentável, como o é hoje a situação de miséria que se abate sobre a maioria do povo brasileiro.

Os grandes políticos da época discutiam a crise à luz das últimas teorias que vinham das nações poderosas. O Partido Conservador, desgastado, com muitos dissidentes, passando para a oposição. O Partido Liberal, fortalecido, em marcha para o poder, propondo mudanças: as chamadas reformas democráticas. Os republicanos – reunidos em um pequeno partido, apenas organizado nos principais centros – praticamente não conseguiam espaços, tal a retórica dos liberais na oposição, que muitas vezes parecia mais republicana que a dos próprios republicanos. Estes denunciavam, com lógica, o empirismo e a irracionalidade das propostas liberais, demonstrando que não era possível democratizar mantendo-se a escravidão, a monarquia e o seu modelo econômico. Só a ascensão dos liberais ao governo é que veio esclarecer o cidadão comum, agora diante da lógica dos fatos. Mantida a monarquia e a escravatura, os liberais e dissidentes conservadores fizeram no governo exatamente o que antes condenaram na oposição.

A partir da ascensão dos liberais ao governo é que tomou corpo, pelo Brasil inteiro, a causa da República e da Abolição. E a Nação foi se inundando de consciências esclarecidas.

Como os propagandistas e precursores da República, afirmamos que os nossos caminhos são pacíficos e os nossos métodos os democráticos; que não nos deteremos, porém, frente a circunstância alguma, a não ser ante o sacrifício inútil. O povo brasileiro não quer saber de aventuras. Se quisermos ser dignos dele, devemos nos dedicar, já e agora, às tarefas de ampla organização e desenvolvimento do partido em todo o território nacional. Tudo o mais é imediatismo. Em nossa caminhada, poderemos fazer alianças e entendimentos à nossa esquerda e à nossa direita, desde que não representem contradições fundamentais ou atinjam nossos princípios.

Agora mesmo, frente ao governo liberal e conservador que se instaura no País – como consequência da saída das multidões às ruas reclamando eleições diretas para o governo do País –, a nossa posição não pode ser outra senão a da independência crítica.

Sem pactuarmos com acomodações, muito menos com qualquer gênero de apoio servil, não deixaremos de colaborar – com a mais nobre das intenções –, sempre que estiver em causa o interesse público.

Questionar o futuro, tendo em vista os surpreendentes planos da Nova Situação de afastar o povo brasileiro das decisões, é o nosso dever mais imediato.

Em 8 de novembro de 1985.

*O PFL passou a se denominar DEM.