Everton Gomes: Trabalhadores e um Projeto Nacional de Desenvolvimento

*Por Everton Gomes

Em meio ao Dia do Trabalhador, enlutado por mais de 400 mil brasileiros vítimas da Covid-19 e impactado pela urgência na redução de CO2 atmosférico, chega-se hoje ao recorde: mais de 14 milhões de desempregados. Não há muito para celebrarmos.

O cenário geral é ruim, e se torna dantesco ao lembrarmos que o Brasil é dirigido por negacionistas reacionários que flertam desavergonhadamente com o autoritarismo. Bolsonaro é o símbolo-síntese disto! No entanto, ouso pedir licença para falarmos de alternativas e esperança.

A emergência do clima impõe a sociedade mundial a obrigatoriedade de reduzir emissão de gazes do efeito estufa. E, aqui, reside um problema, mas também uma oportunidade. Para atingir as metas estipuladas pelas agências do clima poderíamos atuar de 2 formas distintas.

A primeira seria redução drástica dos níveis de crescimento. Segundo dizem seria a forma mais robusta para equilibrarmos a vida humana e meio ambiente. Embora bem intencionado, penso ser esta opção utópica, afinal não agradaria a muitos o modo “homo sapiens” de vida nas cavernas. A outra opção, na qual me filio juntamente com pensadores do quilate de Noam Chomsky, seria promover a transição da matriz energética atual para novas energias limpas.

Para tal corrente, a conjugação de novíssimos investimentos públicos e privados deve garantir crescimento em harmonia com o meio ambiente. Para tanto, tudo deve ser subordinado a uma nova matriz energética descarbonizada. A isto deram o nome de “Green New Deal”.

A transição energética, segundo estudos, nos proporcionaria a oportunidade de criar empregos e gerar riqueza, a partir da nova infraestrutura verde exigível para a moderna economia de baixo carbono. Vale dizer, que tal modelo está ancorado no desenvolvimento sustentável que pressupõe a inter-relação do tripé social, econômico e ambiental.

O êxito brasileiro estaria na adoção de um Projeto Nacional de Desenvolvimento Sustentável que leve em consideração as dimensões conjuntural e estrutural. Conjunturalmente precisamos avançar em meio a forçosa estagnação do Covid-19, e também é preciso pensar pra além deste momento.

Já no plano estrutural a compreensão dos desafios de uma economia globalizada em meio a transformação do trabalho fruto da era digital também deve chamar atenção. Este plano deverá nos conectar a um futuro próximo, no qual os empregos verdes e decentes sejam a tônica da nova realidade que desejamos estabelecer.

Estudiosos avaliam, que apenas no Brasil, há um potencial de criação de cerca de 2 milhões de novos empregos verdes. A conquista do resultado almejado requer investimentos em educação, com foco em C&T e inovação.  O novo normal, ambientalmente sustentável que desejamos, exigirá mão-de-obra capaz de qualificação permanente e disposta aos desafios da nova infraestrutura verde.

Na mesma batida, é mister que defendamos o estabelecimento de relações trabalhistas justas e decentes. É fundamental romper com a lógica vigente que só aponta para ampliação de lucros de patrões fruto da aceleração da exploração do trabalho pela precarização acelerada.

Creio, com muito vigor, que seja sim possível conjugar criação de riquezas, equilíbrio ambiental e redução de desigualdade social. Este deverá ser nosso ponto zero de partida. Para consolidar esse plano, e ter como consequência a criação de novos empregos verdes não podemos perder oportunidades. Sem dúvida a nova abordagem econômica de Joe Biden, presidente americano, nos permite sonhar com melhores dias, desde que consigamos sair do estado de inércia.

Isto significa que é preciso aproveitar a compreensão sobre desenvolvimento sustentável em coordenação com aumento de investimentos públicos que vem do norte para construir novos cenários e atrair recursos. Afinal, até pouco tempo o Brasil era líder global no assunto.

Não percamos as oportunidades e iniciemos, já, uma nova era de prosperidade. Tenhamos no trabalho verde e decente, bem como na nova economia sustentável, a base para celebrarmos num futuro próximo o dia do trabalhador que espero, com dignidade, bem-estar e qualidade de vida. Mas se não considerar o que eu disse, fique à vontade!

Apenas perceba que celebrar o passado glorioso, ou lamentar o presente de incertezas, não construirá a alternativa necessária para um melhor 1° de maio no futuro. Pense nisso!

 

*Everton Gomes é cientista político.