Vi um homem chorar porque lhe negam o direito de usar três letras.

Carlos Drummond de Andrade

Vi um homem chorar porque lhe negam o direito de usar três letras do alfabeto para fins políticos. Vi uma mulher beber champanha porque lhe deram esse direito negado ao outro.

Vi um homem rasgar o papel em que estavam escritas as três letras, que ele tanto amava. Como já vi amantes rasgarem retratos de suas amadas, na impossibilidade de rasgarem as próprias amadas.

Vi homicídios que não se praticaram, mas que foram autênticos homicídios: o gesto no ar, sem consequência, testemunhava a intenção.

Vi o poder dos dedos. Mesmo sem puxar o gatilho, mesmo sem gatilho a puxar, eles consumaram a morte em pensamento.

Vi a paixão em todas as suas cores. Envolta em diferentes vestes, adornada de complementos distintos, era o mesmo núcleo desesperado, a carne viva.

E vi danças festejando a derrota do adversário, e cantos e fogos. Vi o sentido ambíguo de toda festa. Há sempre uma antifesta ao lado, que não se faz sentir, e dói para dentro.

A política, vi as impurezas da política recobrindo sua pureza teórica. Ou o contrário… Se ela é jogo, como pode ser pura… Se ela visa o bem geral, por que se nutre de combinações e até de fraudes.

Vi os discursos…

(Publicado no Jornal do Brasil, 15/5/80 – Caderno B – Pág. 1)

 

Este poema de Drummond é a legenda da foto de Leonel Brizola rasgando, simbolicamente, a sigla do PTB.

Em 1945, com o término da Segunda Guerra Mundial, o Estado Novo, instituído por Getúlio Vargas, chegava ao seu final. Com isto, os grupos políticos brasileiros afins deram início às providências formais para a obtenção de registro junto à Justiça Eleitoral, capacitando-se assim a concorrer como partidos às eleições.

Surgiram, então, três partidos de âmbito nacional: o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), o Partido Social Democrático (PSD) e a União Democrática Nacional (UDN), fundada por opositores ao governo de Getúlio Vargas. Durante o período democrático, até 1964, mais dez partidos foram criados, quase todos de expressão regional.

O PSD foi criado, basicamente, pelos interventores, no Estado Novo. Interventores eram os governadores de estado, designados por Getúlio Vargas durante sua gestão; já que não havia eleições para estes cargos.

Por isto, era um partido de proximidade política com o grupo de Vargas. Nesta condição, na primeira eleição depois da redemocratização, em 1945, seu candidato à Presidência da República, Eurico Gaspar Dutra, foi apoiado por Getúlio Vargas. Em 1955, a chapa vitoriosa foi constituída por Juscelino Kubitschek (PSD) e João Goulart (PTB).

Partido Trabalhista Brasileiro

Desde o início, os grupos mais ligados a Getúlio Vargas entendiam que seria necessário a formação de um partido umbilicalmente ligado a Vargas, com o objetivo de garantir todas as conquistas dos trabalhadores durante a Era Vargas, entre 1930 e 1945: Consolidação das Leis do Trabalho, escola pública de alta qualidade, voto feminino (13 anos antes da França, reconhecida como berço do feminismo e da luta pela universalização dos direitos civis) etc.

Entre 1945 e 1964 foi o PTB o partido que mais cresceu, tanto em número de votos, quanto em número de filiados: em 1946 o PTB tinha 22 deputados federais; elevando-se a bancada para 66, em 1958; em 1962, já tinha 116. Isto refletiu a crescente urbanização e industrialização que o Brasil experimentou naqueles anos.

Além de Getúlio Vargas, o PTB elegeu João Goulart duas vezes Vice-Presidente, em uma época em que o eleitor votava no Presidente e no Vice separadamente. Com a renúncia de Jânio Quadros, em 1961, João Goulart assumiu a Presidência; sendo derrubado por um golpe militar.

O pensamento nacionalista, razão de ser do PTB, tomaria maior vulto no decorrer dos anos 1950; prosseguindo na década de 1960, com as Reformas de Base, proposta por João Goulart.

Uma série de reformas estruturais atingiu áreas como a agrária, universitária, bancária, tributária, urbana, entre outros setores. E os movimentos sociais tomariam vulto na construção de uma agenda progressista, centrada na soberania nacional e em uma série de reformas que, se implantada, fomentaria maior justiça social.

As Reformas de Base foram apresentadas à população no Comício da Central do Brasil, em 13 de março de 1961. O Presidente João Goulart não apenas normatizou as medidas para a Reforma Agrária, como também tabelou os aluguéis e encampou como propriedade da União todas as refinarias privadas existentes no Brasil.

Em primeiro de abril – 19 dias após o comício – os militares derrubaram um Presidente eleito pelo povo. Os militares deram um tiro em alvo estudado, determinado: o PTB. Para se ter uma ideia, na primeira lista de 41 deputados cassados, 21 eram petebistas; sendo que os restantes pertenciam a outros seis partidos. Foi a primeira tentativa de se acabar com o Trabalhismo.

27 de outubro de 1965, o governo militar baixou um Ato Institucional que extinguiu todos os 13 partidos existentes, criando o bipartidarismo, cujos representantes era MDB e Arena.

Pluripartidarismo

Com o final da ditadura, nova lei restituiu o pluripartidarismo, no Brasil. Com isto, os diversos grupos que participavam da vida política, aqui e no exterior (muitos deles exilados), passaram a se articular para esta nova realidade.

Diversos políticos ligados a Getúlio Vargas e João Goulart (já falecidos) começaram a discutir a volta ao Brasil. Um núcleo que morava no México tomou a iniciativa, junto com Leonel Brizola, de reunir, em um grande encontro, todos os companheiros – antigos e jovens, estes forjados na luta contra a ditadura – para um retorno organizado ao Brasil.

Este período foi assim definido por Neiva Moreira:

No exílio, se encerrava – ou estava em processo de finalização – os duros embates da resistência armada, voltando os patriotas vítimas do terror e da repressão. O debate – em que se empenhavam as diferentes correntes ideológicas e políticas daquele imenso êxodo de milhares de brasileiros – se orientava para a busca de novos destinos da nossa pátria, e da reinserção dos proscritos da vida pública nacional.

O exílio do México era o centro das inquietações políticas e sociais…

Um dos momentos decisivos das atividades políticas ali desenvolvidas foi o encontro de Cuernavaca. Ali estavam vários lideres da resistência, exilados no México. Reuniu-se em um hotel que, através de Francisco Julião, o Partido Revolucionário Institucional (PRI), do México, nos conseguira.

Entre os debatedores se encontravam dirigentes revolucionários e intelectuais latino-americanos. Um deles: Garcia Márquez, que teve presença marcante nas discussões. Mário Benedeti, Eduardo Galeano – esta gente – era gente que estava permanentemente nas alianças do Brizola e do nosso comitê de Montevidéu.

Foi neste clima de retorno e preparação para o que eu chamo de “a batalha do futuro” – e sob inspiração de Brizola – que foi projetado o Encontro de Lisboa.

A maioria destas iniciativas – que devia juntar, na Capital portuguesa: brasileiros do país, que travaram, contra a ditadura, uma dura batalha interna; e os brasileiros da diáspora – optava por dois fatores (fatos relevantes e irrelevantes): a decisão do ressurgimento do Trabalhismo e o apoio do socialismo português.

Neste encontro desenhou-se uma diretriz fundamental: o Trabalhismo seria a nossa bandeira; e o nosso líder se chamava Leonel Brizola.

PTB a PDT

Ao pisar no solo brasileiro, a primeira tarefa de cada um dos que voltaram do exílio era ir ao encontro dos que aqui já se movimentavam pela criação de um partido que levaria as bandeiras trabalhistas.

Centrado em, principalmente, três polos organizados de resistência trabalhista – Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Maranhão – liderados por Leonel Brizola, os trabalhistas partiram para a recriação do PTB.

Entretanto, em São Paulo, outro grupo – também de antigos petebistas –, liderado por Ivete Vargas, sobrinha de Getúlio, perseguia a mesma meta.

Cada um, de per si, preparou seu processo e protocolou na Justiça Eleitoral. Coube ao TSE definir que grupo político obteria a sigla do Partido Trabalhista Brasileiro. A escolha recaiu sobre o grupo de Ivete Vargas.

A tarefa seguinte do grupo liderado por Leonel Brizola seria escolher um nome que mais pudesse representar os ideais trabalhistas mais autênticos.

Segundo Cibilis Viana, Brizola, durante o período de julgamento, já dissera que “se nós perdermos, vamos ter de fundar outro partido. Fica aí o PTB e vamos embora”. Dizia isto com grande tristeza, mas estava certo da decisão.

Em seu relato sobre o ocorrido após a decisão do TSE, Cibilis lembra a frase dita por Brizola, após a caminhada de dois quarteirões, do Hotel Ambassador, onde estavam reunidos, até o busto do Getúlio, na Cinelândia: “Vamos fundar um novo partido”. E conclui:

– “O grupo que estava postulando a sigla do PTB, conosco, se manteve. Atas das reuniões que fizemos – duas reuniões e duas assembleias – foram com grande comparecimento”.

Todo este desgastante processo de luta contra o tempo, perda de sigla e fundação do PDT – percorrido sem nunca se perder, em qualquer momento, a convicção de que os ideais trabalhistas estariam preservados foi definido por Leonel Brizola, em 24 de maio de 2000, durante comemoração dos 20 anos do PDT:

“Nós comemoramos, nestes dias, datas importantes para o nosso Partido e para a nossa causa: o nosso movimento de ideia, a nossa luta pelo povo brasileiro, que os acontecimentos históricos, o processo social denominaram de Trabalhismo (nestes dias comemoramos seus 55 anos); e a retomada do Trabalhismo, depois da ditadura, com a organização do nosso Partido.

E como os companheiros sabem, nós começamos com a nossa velha sigla, como tínhamos direito; e logo a seguir, perdemos esta sigla, por uma manobra dos poderosos na época, dos mandões da ditadura. Porque aquilo não foi julgamento no tribunal. Aquilo foi uma manobra contra nós; foi uma violência contra o povo brasileiro. E nós tratamos de instituir a outra sigla.

Foi um problema que nos custou muito. Trouxe-nos grandes dificuldades, porque ainda estávamos sob um processo discricionário de governo. E até não podíamos falar como devíamos falar.

Então, nós saímos pelo Brasil afora para dizer assim: povo brasileiro, nós somos o João; mas este João de hoje é o Antonio de ontem. Nós somos o João, mas somos o Antonio criando uma dificuldade.

Eu me revoltei muito. Eu me senti profundamente magoado, em nome de todos os companheiros; em nome de grande parte do povo brasileiro que acompanhava aqueles fatos. Procurei até criar metáforas, histórias para que todos compreendessem:

– Olha, companheiro, nós estávamos realizando uma viagem; custou-nos muito juntar os pedaços do nosso caminhão que estava aí atirado. Conseguimos restabelecer o nosso caminhão e começamos a nossa viagem.

Com toda dificuldade.

De repente, nos assaltaram e levaram o nosso caminhão. O que fizemos nós?

Tratamos de comprar outro caminhão. Não era bem aquele que nós gostávamos tanto. Já estávamos acostumados com ele. E o que fizeram? Para que nos roubaram?

Ah!, roubaram para sair por aí… Para assaltar, para roubar galinha (quando dizia que era para roubar touro: lá no interior gostavam muito de ouvir…).

E nós?

Reiniciamos a nossa marcha com este caminhão. Nós vamos demonstrar que este caminhão vai cumprir esta viagem. O importante até não é o caminhão. O importante é a viagem.

Nós temos é que prosseguir e chegar ao nosso destino.