Emanuel Cancella sobre o desfile da Mangueira no sambódromo: “O Rio continua lindo e irreverente!”

Por Emanuel Cancella *

Apesar de o Rio de Janeiro eleger três malas, sem alças e sem rodinhas, Bolsonaro, Witzel e Crivela, o Rio sempre foi palco da irreverência.

Tal como o reconhecimento a Darcy Ribeiro, um dos maiores educadores e indianistas que este país conheceu. Ele dizia:

“Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil  desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”.

Isto não é verdade, pois Darcy foi um vencedor, já que criou junto com o Marechal Rondom, e com apoio de Getúlio Vargas, o Parque Nacional do Xingu, cujo lema era “Morrer, talvez, matar nunca”.

E mais, juntou-se a outro luminar da cultura brasileira, morto pela ditadura militar, Anísio Teixeira, para criar a Universidade de Brasília.

Apesar de o golpe militar de 64 tê-lo obrigado a se exilar no Uruguai (2), os anos de exílio de Darcy Ribeiro foram inacreditavelmente  produtivos. Fundou e reformou universidades por toda a América Latina e chegou à assessora o presidente Allende, no Chile, e Alvarado,  no Peru (1).

Darcy Ribeiro era mineiro, assim como seu principal aliado, o ex duas vezes, o saudoso governador do Rio, Leonel Brizola, que era gaúcho.

Tem brasileiro que aposta que Darcy e Brizola são cariocas. Mas foi o Rio que os reconheceu e consagrou!

Entretanto o Rio de Janeiro também elege tiranos, como Bolsonaro, Witzel e Crivela age como aquele amante que gosta de ser enganado, e depois se vinga!

As favelas no Rio abrigam quase um milhão de moradores. Apesar de  carioca ser quem nasce no Rio, mas há os adotados, que aliás se acham mais carioca que todos.

E é das favelas do Rio que saem os grandes compositores, craques de futebol, e as escolas de samba, com seus enredos e músicas que abalam os governantes.

O golpista Michel Temer decretou, em 2018, a intervenção militar no Rio de Janeiro. Mas também recebeu o troco em 2018: Temer é retratado pela Paraíso de Tuiuti como “vampiro” neoliberal na Sapucaí; imagem constrange apresentadores da Globo,  (5).

Esse ano 2020 não foi diferente, a Acadêmicos de Vigário Geral saiu com um palhaço gigante, com faixa presidencial, batendo continência e fazendo arminha (4).

A Mangueira fez uma versão moderna da vida de Jesus Cristo, representado como índio, mulher e morador de rua. Na comissão de frente, ele apareceu em sua representação clássica, um homem branco de cabelos longos e barba, sofrendo repressão policial. Um dos trechos do samba-enredo intitulado “A Verdade vos Fará Livre” diz: “Favela, pega a visão / Não tem futuro sem partilha / Nem Messias de arma na mão” (3).

E quanto a Witzel e Crivela, ambos se elegeram na aba de Bolsonaro, o carnaval mandou seu recado, que atinge a todos Bolsominions:

“Bolsominion, não se preocupe se o Bozo não for homenageado em nenhuma escola de samba. Logo teremos a “malhação do Judas”

 

(*) Emanuel Cancella é petroleiro,  ex-presidente do Sindipetro-RJ, além de ex-integrante do Comando Nacional dos Petroleiros, da Federação Única dos Petroleiros (FUP) e fundador da Frente Nacional dos Petroleiros (FNP) .  Advogado, também é autor do livro “A Outra Face de Sérgio Moro”.

 

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