Em vez de ser pária ambiental, Brasil poderia ser exemplo

Por Ciro Gomes 

Acontece em Glasgow, na Escócia, a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, a COP26. Cerca de 200 países debatem o que pode ser feito para acelerar as metas do Acordo de Paris e diminuir o ritmo do aquecimento global. O Brasil está representado pelo ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, de quem você provavelmente nunca ouviu falar e não é por acaso. Nestes três anos de governo Bolsonaro, o País não foi capaz de produzir um só exemplo de boas práticas ambientais.

Mais uma vez avisei com antecedência que o ministro iria jogar palavras ao vento em Glasgow. Dito e feito. Na manhã de segunda-feira 1°, ridicularizou novamente o Brasil ao anunciar de forma pomposa e vazia uma nova meta climática de reduzir em 50% a emissão de gases poluentes até 2030 e neutralizar a emissão de carbono até 2050.

A pompa vem do fato de que o País tinha, antes da COP, a meta de reduzir 43% das emissões nacionais até 2030. O vazio da promessa vem de três fatos. Um técnico: o ministro não anunciou qual seria a linha-base de dados para o corte. Se for a última de dezembro de 2020, o País ainda emitiria mais gases do que o prometido no Acordo de Paris, de 2015. Se for a mais atualizada, a redução ficaria igual àquela prometida em 2015. Ou seja, ele prometeu retrocesso.

Como se não bastasse prometer retrocesso nos acordos, não explicou como vai diminuir a emissão. Talvez planeje fazer isso com a elevação da gasolina e do óleo diesel a mais de 20 reais o litro. Por fim, o vazio vem de que ninguém fora do Brasil ainda acredita em qualquer dado ou promessa do governo Bolsonaro. O mundo todo sabe o que se passa por aqui. Não por outra razão, o Fundo Amazônia, criado para preservar e desenvolver de forma sustentável a região, deixou de receber recursos da Alemanha e da Noruega. Das Américas à Ásia, dos conservadores aos progressistas, da direita à esquerda, todos desprezam o nosso governo.

Como disse certa vez Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente respeitada no mundo todo, “o grande inimigo do meio ambiente são os governos que negam o grave problema das mudanças climáticas, desmontam a governança ambiental, incentivam formas predatórias de uso das florestas e sem nenhum escrúpulo culpam as vítimas da devastação, os pobres”. Parece uma descrição literal da política ambiental do governo Bolsonaro.

Um governo negacionista científico, que não desenvolve o País, não investe na renovação de nossa matriz energética, que desmantelou os nossos órgãos de proteção e fiscalização ambientais, bate recorde atrás de recorde de desmatamento da Amazônia, permitindo a disseminação de garimpos e madeireiras ilegais, sem falar na omissão em relação ao aumento da violência contra as populações indígenas. O símbolo máximo dessa política foi o então ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, investigado por envolvimento com o contrabando de madeira.

Tudo isso é muito triste e lamentável. Em vez de ser um pária ambiental, o Brasil poderia ser exemplo para o mundo. Agora mesmo enfrentamos uma crise energética, que ainda pode piorar muito, acionando termoelétricas caras e poluentes, ao passo que temos um potencial inigualável de fontes de energia renovável, como a solar e a eólica. Uma crise que em grande parte poderia ter sido dirimida com uma gestão responsável de nossos reservatórios ou com a mera adoção do horário de verão, agora e no ano passado.

Não podemos separar a questão ecológica do desafio do desenvolvimento. O Brasil onde a indústria e os serviços mínguam empurra a nossa fronteira agrícola Amazônia a dentro, não deixando ao povo amazônico outro caminho que não usar a floresta como der. A estagnação econômica definitivamente é a mais cruel e ineficiente das formas de tentar preservar o meio ambiente.

Todas essas tragédias do governo Bolsonaro cobram um preço alto dos brasileiros. A degradação do clima aprofunda a desigualdade social, entre outros motivos porque afeta o regime de águas, causando a escassez de alimentos, água e energia. Também atrapalha acordos comerciais que poderiam gerar emprego e renda para muita gente. E vai tornando as bases da nossa economia cada vez mais ultrapassadas.

Dá tempo de reverter essa tragédia, mas esse tempo está ficando curto. É, de novo, a grande Marina que cito: “A natureza não sabe se defender, mas sabe se vingar como ninguém”. Pense nisso e diga não a Bolsonaro. Ele está exterminando o nosso presente, mas não pode exterminar o nosso futuro e o futuro dos nossos filhos.

*Ciro Gomes é vice-presidente nacional do PDT, ex-governador do Ceará e ex-prefeito de Fortaleza.