Em pajelança, PDT escolhe Niterói como referência para o país

Por Luiz Augusto Erthal e Mehane Albuquerque

Na cultura indígena, pajelança é um ritual místico que mobiliza toda a tribo em busca de um objetivo. O termo foi incorporado ao universo político pelo antropólogo Darcy Ribeiro, um dos nomes históricos do Trabalhismo, durante a sua campanha para governador do Estado do Rio em 1986. Darcy, que dedicou boa parte da sua vida à causa indígena, vivendo por anos entre os povos amazônicos, batizou de pajelança um grande encontro de líderes e militantes no Maracanãnzinho, com o objetivo de buscar forças para a disputa eleitoral daquele ano.

Indicado por Leonel Brizola para sucedê-lo ao final do seu primeiro governo no Rio de Janeiro, Darcy perdeu a eleição para Moreira Franco, mas o PDT realizou uma de suas mais aguerridas campanhas. Passados 35 anos, um clima de pajelança tomou conta segunda-feira (12/07) da Câmara de Vereadores de Niterói. Lá estavam os virtuais candidatos do partido a presidente da República, Ciro Gomes, e a governador do estado, Rodrigo Neves, entre centenas de lideranças e militantes do partido.

Pajelança: Darcy e o índio Urubu-Kaapor / Fundação Darcy Ribeiro
O evento, organizado pelo vereador Binho Guimarães para homenagear Ciro com a medalha José Clemente, maior honraria da cidade, e o presidente nacional do partido, Carlos Lupi, com o título de cidadão niteroiense, deu uma clara dimensão da importância política assumida por Niterói para as ambições trabalhistas de hoje. Governada desde a redemocratização por prefeitos pedetistas ou apoiados pelo PDT, Niterói, que ostenta alguns dos melhores índices de desenvolvimento social e econômico do país, virou uma vitrine do Trabalhismo.

“Eu digo por onde ando para os prefeitos que encontro que eles devem se inspirar em Niterói, que é hoje o melhor exemplo de cidade do Brasil”, afirmou Ciro Gomes durante o evento.

A retomada do desenvolvimento socioeconômico na terra arrasada que se tornaram o Brasil e o estado do Rio de Janeiro foi a tônica dos discursos na noite. Além de Ciro, Rodrigo e Lupi, estiveram presentes na sede do legislativo municipal o prefeito Axel Grael, sucessor de Rodrigo Neves em Niterói, o prefeito de Cabo Frio, José Bonifácio, os deputados federais Paulo Ramos e Chico D’Ângelo, a deputada estadual Martha Rocha e vários vereadores do PDT e de outros partidos que formam a base de apoio do governo local.

História de amor

Apesar de ser uma sessão solene, o clima foi de descontração. A pedido do vereador Binho Guimarães (PDT), de quem partiu a iniciativa da homenagem, Carlos Lupi contou a história de sua ligação com o município, que data da juventude, quando cursou administração no Centro Educacional e ajudou a fundar o primeiro grêmio estudantil da cidade. Na época, ainda não havia a ponte Rio-Niterói. E quando ele perdia a última barca, dormia no banco ou voltava para o Rio — ele morava no bairro de Santa Tereza — fazendo um longo trajeto terrestre via Magé.

Sentindo-se muito à vontade, Lupi falou da vida dura que enfrentou, trabalhando em uma banca de jornal em Ipanema de manhã cedo, e estudando à tarde em Niterói. Falou do cansaço, das poucas horas de sono. Mas afirmou que manteve com determinação a promessa que fez à mãe de completar os estudos.

“O maior prazer que eu tinha era a viagem naquela barca enorme, com a brisa no rosto. Era ali que eu dormia. Niterói não está na minha vida por acaso. Aqui eu estudei, forjei meu caráter, minha existência”, lembrou emocionado.

“Como Deus foi generoso comigo. Convivi com Brizola, com Darcy, Doutel, Abdias, Caó… Esse ‘mulambo velho’ conviveu com tanta gente importante. Senti a frustração de não ver o Brizola presidente da república. E nunca mais vi alguém no Rio de Janeiro que chegasse a seus pés. O pedido que faço agora ao Cristo-Rei é que faça o Ciro presidente e o Rodrigo governador. Para o Rodrigo fazer do Rio uma grande Niterói. Para o Ciro resgatar os sonhos de Leonel de Moura Brizola para o Brasil”, disse.

Lupi encerrou o discurso com versos do samba “Alguém me avisou”, de Dona Ivone Lara: “Eu vim de lá pequenininho, alguém me avisou para pisar esse chão devagarinho”.

“Vim, pisei, fiquei e sou cidadão de Niterói”, comemorou ele.

Rodrigo Neves (com Axel) foi aclamado como candidato do partido ao governo do estado

Experiência aprovada

Na mesma noite, as homenagens também se estenderam ao ex-prefeito Rodrigo Neves. Mas de outra forma, com o apoio acalorado dos presentes à sua candidatura ao governo do Rio. Bastante aplaudido e saudado com um ‘canto de guerra’ puxado pelo vereador Binho — “ôôôô, Rodrigo vai ser governador” — o pré-candidato foi interrompido algumas vezes em sua fala pelas palmas do público.

Rodrigo elogiou a atual gestão de Axel Grael. Lembrou dos tempos de legislatura, quando foi o vereador mais jovem eleito na cidade. E citou os avanços conquistados em seus dois mandatos como prefeito. O pré-candidato, que é o nome mais forte cogitado para representar o PDT nas próximas eleições para o governo do estado, pretende replicar as experiências bem sucedidas em Niterói no plano de recuperação fluminense, com foco no desenvolvimento econômico social; na educação, ciência e tecnologia; na saúde; na geração de empregos e na melhoria da qualidade de vida do cidadão e do trabalhador.

“Perdemos 700 mil empregos formais entre 2015 e 2020. O estado perdeu quase 40% de presença no PIB brasileiro, perdeu sua densidade industrial. Foi a maior desindustrialização desde a década de 80”, pontuou.

O pré-candidato falou em retomar o desenvolvimento industrial em São Gonçalo, que já foi considerada a “Manchester fluminense” (em alusão à cidade inglesa que desempenhou relevante papel na revolução industrial) e teve sua atividade pesqueira trasnferida para Santa Catarina. Falou sobre a necessidade de acabar com a dominação dos territórios pelo tráfico e pela milícia. Em levar saneamento para a Baixada Fluminense.

“Os moradores da Baixada não têm direito à cidade. Em alguns locais precisaremos implantar cidades, restituir cidadania”, enfatizou.

Seguindo uma rotina de incessantes reuniões com setores da sociedade desde que chegou de Coimbra, Portugal, onde cursa doutorado, Rodrigo Neves contou que esteve na semana passada com 15 reitores de universidades federais e estaduais para debater com eles o papel das universidades na reconstrução do Rio de Janeiro. Falou ainda sobre a estruturação de um complexo industrial de saúde, capaz de dotar o estado de insumos e medicamentos para fazer frente às possíveis emergência sanitárias que poderão surgir no futuro. E também ressaltou o papel da indústria de petróleo no estado, que representa 80% da produção do país, com ênfase na cadeia produtiva.

“O plano ‘O Rio que queremos’ será o new deal ecológico para levantar o estado, criar frentes de trabalho para levar saneamento aos municípios. Niterói tem 100% de água e esgoto tratados. Mas em São Gonçalo, 80% da população vive sem saneamento. Diante do cenário do Rio, de alternats tão frágeis, podemos estabelecer um amplo diálogo para construir alianças sólidas. Temos o fundamental: a experiência testada e aprovada na governança. Não podemos entregar o orçamento de 70 bilhões do Rio nas mãos de quem não tem experiência para gerir o estado”, sentencia.

Construir as bases

O pré-candidato à presidência pelo PDT, Ciro Gomes, que já recebera anos antes o título de cidadão da cidade, brincou ao chamar Carlos Lupi, agora também agraciado com a honraria, de ‘irmão niteroiense’. Bastante aplaudido, ele fez um breve resumo sobre a situação atual do país e falou sobre seu projeto de desenvolvimento para o Brasil. Ciro citou números para embasar argumentos e para conduzir a uma compreensão isenta do “coração e do fígado”.

O ex-ministro da fazenda e ex-governador do Ceará ressaltou que, em 120 anos, a última década foi a pior de todas em termos de crescimento, segundo o IBGE. E destacou o fato de que em meio século, entre 1930 e 1980, o Brasil cresceu a uma taxa anual de 7%, mas teve uma queda e apresentou os piores números nos últimos 10 anos.

“Crescimento tem a ver com concetração de renda. Não há precedente na história de promoção de distribuição de renda em ambiente de estagnação econômica. Políticas compensatórias nunca fizeram o progresso de uma nação. O que promove o crescimento é o trabalho decente e bem remunerado. A política compensatória não pode ser política em si mesma. Isso é subornar os pobres com migalhas de um banquete”, defende.

Ciro criticou a ‘lógica neoliberal’, a tomada de decisões sem planejamento. Elencou os problemas que o Brasil precisa enfrentar com celeridade e afirmou que não basta “trocar Chico por José”.

“É preciso construir as bases para um novo projeto de desenvolvimento nacional que enfrente, em prazo objetivo, a pobreza e a miséria. Desenvolvimento, companheirada, não é tarefa do acaso nem consequência de voluntarismo. É consequencia de arranjos institucionais rebeldes que a política faz ou deixa de fazer. E o trabalhismo tem a resposta”, concluiu sob aplausos.

Veja a íntegra da fala de Ciro Gomes em Niterói: