Eduardo Costa, sobre veto à Sputnik V: ‘Querem nos impor dependência total aos EUA’

O epidemiologista da Fiocruz alertou para manipulações que ocorrem na ANVISA e lembrou que “há uma luta explícita que se trava normalmente entre nosso país de um lado e todos aqueles que querem impor ao Brasil uma dependência total ao imperialismo americano”. Ao abordar a posição da Anvisa contrária à importação da vacina russa Sputnik V, denunciou que “querem impor ao Brasil uma dependência total”

O epidemiologista Eduardo Costa, ex-secretário de Saúde do Rio no governo Brizola, e professor da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz), afirmou nesta quarta-feira (28), em entrevista ao HP, que a polêmica envolvendo as decisões da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) no tocante ao uso emergencial de vacinas, inclusive importação, tem sido problemáticas “e dão margem à desconfiança de que argumentos técnicos são uma bobagem, não passam de cortina de fumaça para satisfazer interesses não explicitados, o que não é só de hoje”.

“Esses posicionamentos questionáveis da Anvisa não são tão incomuns – vêm de trás. Hoje se evidenciou, por uma série de fatores, a existência de uma luta explícita que se trava normalmente entre nosso país de um lado e todos aqueles que querem impor ao Brasil uma dependência total ao imperialismo americano”, disse ele. “No fundo é disso que se trata”, destacou o especialista, ao comentar a recusa pela Anvisa da importação da vacina russa Sputnik V.

“Argumentos técnicos não passam de cortina de fumaça para satisfazer interesses não explicitados”

PESQUISADORES RUSSOS CONSIDERARAM ABSURDA AFIRMAÇÃO DA ANVISA

Eduardo Costa reforçou o que já vem sendo dito pelos desenvolvedores da vacina na qual é usada a técnica do vetor viral. Eles disseram que a afirmação da agência brasileira, de que o vírus poderia se replicar no organismo de quem tome a vacina, é completamente absurda.

Segundo Kirill Dmitriev, diretor do Fundo Russo de Investimentos Diretos (RFPI, na sigla em russo), isso é uma fake news que a Anvisa resolveu espalhar sem nenhum fundamento científico. Sobre isso, o Instituto Gamaleya afirmou que tem um controle de qualidade rigoroso e que “nenhum adenovírus competente para replicação (RCA) foi encontrado em qualquer um dos lotes da vacina Sputnik V que foram produzidos.”

HP: O argumento da replicação viral foi o principal elemento levantado pela Anvisa para questionar a segurança da vacina?

EDUARDO COSTA: “Discutir o que o adenovírus poderia fazer, se ele vai voltar a se replicar é uma bobagem, porque, na verdade, o vetor viral não é usado completo, já está modificado”, explicou Eduardo. “Nesse caso é só um vetor (vírus) que foi modificado, inclusive com deleção da capacidade replicante, para levar uma proteína S do coronavírus. Esse é o processo básico que é usado nesta técnica de vetor viral, inclusive na da AstraZeneca que a ANVISA não questionou”, acrescentou.

“Os adenovírus que servem de vetor já não têm capacidade de replicação”, prosseguiu o professor. “ O que pode acontecer é que antes da purificação da vacina possa haver algum remanescente da cultura inicial, mas que deve desaparecer.”

“Ainda que nas vacinas mRNA haja replicação do antígeno, e que no caso da Moderna o mesmo seja construído a partir de um adenovirus não replicante, sendo pois desejável que se replique depois de formulada a vacina, todos podem estar de acordo com o gerente-técnico da ANVISA” destacou o professor, “que não é desejável que nas vacinas de vetor viral, o adenovírus modificado para levar junto na sua estrutura a proteína S se replique no organismo, ou seja seria uma impureza, provavelmente inócua por ser muito diluída, nem mesmo uma infecção por adenovirus seria capaz de produzir”.

“No entanto, com todo o respeito possível ao técnico que fez a apresentação da base técnica para rejeitar o pedido de importação da Sputnik – acho que ele escorregou numa casca de banana. A análise epidemiológica do estudo de fase 3 que fez foi digna de ir para aulas de como não se analisa um trabalho desses. Aliás, me surpreenderia se foi a mesma pessoa que aceitou tudo do estudo de fase 3 da AstraZeneca, o qual até os responsáveis pelo estudo em sua publicação reconhecem que não foram em boa parte duplo-cego e que houve critérios diagnósticos diferentes nos centros de estudo e que erraram na quantidade de doses e que fizeram análises não previstas no protocolo, já com conhecimento dos dados…! Essa história é antiga e faz parte de anedotas, com a que o juiz pede para o auxiliar fazer o sumário dos autos do caso e ele pergunta se é para condenar ou absolver”, continuou.

“Poderíamos pensar que com essa análise esse gerente pode até ter comprometido uma parte mais burocrática e correta da decisão por falta de algum comprovante, ou requerer algum tipo de teste não incluído na análise de qualidade, o que ele poderia defender melhor. Pelo menos não daria margem para que alguém pensasse que o fez por sua fraqueza técnica e volúpia condenatória”, argumentou.” Mas aí não teria o crédito que vai ter junto a big pharma.”

“Todos também sabemos dos múltiplos interesses políticos e financeiros envolvidos nesse caso. Daí a perda total de credibilidade da decisão tomada nesta reunião de 26 de abril.”, enfatizou.

Eduardo chamou a atenção para o fato de que não se trata de acusação pessoal, mas, diz, “quando se empresta o nome deve se arcar com a crítica”. Também não acha que são pessoas corruptíveis ocupando cargos técnicos em instituições como a Anvisa. Considera, todavia, que o modelo da regulação da ANVISA produz uma maneira pseudo-técnico-científica de adequar posições para justificar decisões em disputas políticas, econômicas e financeiras, tanto no ambiente nacional como internacional.

“Não se trata só de que, eventualmente, um ou outro seja corruptível, tenha um diretor que seja chegado a isso, não! Se trata de que essas agências foram criadas no Brasil absorvendo o modelo americano, como se fossem capazes de regular o setor público e privado, entregando ao próprio setor privado as principais indicações diretas ou indiretas dos cargos”, argumentou.

INSULINA RECOMBINANTE E PRESSÕES ESTRANGEIRAS

Ele contou um pouco de sua experiência com a Anvisa. “Eu trabalhei diretamente na absorção de tecnologia de uma insulina recombinante, que era uma tecnologia nova, dominada por poucos. Tive muitos atritos porque os interesses das empresas produtoras de insulina do eixo dos EUA e Europa Ocidental são muito fortes”, relatou Costa. “De um lado era a Lilly, de outro era a Novonordisk, não querendo admitir que se trouxesse uma tecnologia que nos trouxe grande economia, frente ao que nós pagávamos pela insulina importada”, denunciou.

“De um lado era a Lilly, de outro era a Novonordisk, não querendo admitir que se trouxesse uma tecnologia que nos trouxe grande economia, frente ao que nós pagávamos pela insulina importada”

Costa disse que foi duro. “Tive que enfrentar diretores. Tive que ir lá e dizer para eles coisas que nós sabíamos que eles faziam”, afirmou o epidemiologista. Não é à toa que quando fui indicado para ser um dos diretores da ANVISA, o líder do governo foi pedir ao presidente que retirasse a minha indicação, o que efetivamente aconteceu. E mais incrível ainda: na Ucrânia, a estatal foi privatizada ante insistente interesse da Novonordisk, como a imprensa internacional divulgou.”

“Então”, acrescentou, “isso não é novidade. Nós estamos com um modelo que é impossível de funcionar bem para o povo brasileiro. Ele nunca vai na verdade corresponder aos anseios de autonomia do país para nosso desenvolvimento, seja de empresas privadas, seja de empresas públicas”.

Eduardo disse que “as empresas privadas nacionais que ainda resistem são meros pedintes nesse processo”. “Os que dominam mesmo são as empresas estrangeiras, especialmente em áreas como a de petróleo, farmacêutica, telefonia, etc. Os interesses que estão ali são muito fortes”, assinalou.

AGÊNCIA NÃO SEGUE POLÍTICA NACIONAL

Eduardo Costa afirmou de forma categórica que, “com essa forma de funcionar, a ANVISA não contribui para uma política nacional de desenvolvimento”, pontuando que, “em nome de uma dita ‘qualidade’ definida por uma ‘cultura técnica ocidental neoliberal’ desses tempos, ela é, na verdade, dependente do que vem de imposições externas. Outras agências multilaterais também fazem com que a idéia de fortalecer nossa economia não está no jogo. Alguns técnicos convivem com isso, até para não se incomodar, e outros realmente se entregam a esse jogo, mas, na verdade os “tecnocratas” de nível superior que transitam pelos gabinetes de senadores, que transitam em outras áreas de natureza pública, são absolutamente dependentes das instruções que são dadas a eles”, assinalou, para completar: “não há nada de técnico nessa atuação. Ela é determinada de fora e impede o Brasil de romper a dominação imperialista”, assinalou.

“Por isso, as decisões da Anvisa não são confiáveis”, disse ele. “Somos um país dependente, culturalmente abafados pelo imperialismo que não deixa o país se desenvolver”, denunciou Eduardo Costa. “Nós nem estamos discutindo o desenvolvimento de uma vacina nacional. Mesmo sendo importada de uma outra potência, de certo modo, se não é do eixo ocidental, não terá vida fácil na ANVISA. Então eles jogam todas as cartadas que podem, e, às vezes para sobreviver recuam”, observou o professor da Fiocruz.

“Então…, as decisões da Anvisa não são confiáveis em termos dos interesses do povo brasileiro. O que nós vemos, por exemplo, na questão dos agrotóxicos? Não é novidade. Sempre foi uma luta, e vem passando tudo. Lá passa a boiada inteira”, denunciou. “Os medicamentos dos outros países que vêm aqui são todos registrados com uma facilidade enorme, afinal são do receituário técnico das disposições da ANVISA”, acrescentou. “Aqui no Brasil, o Brizola diria, se fazem negócios da China, lembrando o enriquecimento de americanos e europeus à custa de contrabando de ópio naquela China do passado. Então nós viramos aquela China, ou seja, um lugar onde se pode fazer qualquer coisa”, avaliou.

“Mas todo caso, como esse que repercute, se torna exemplar e pode trazer mais pessoas a ver melhor esses processos. Vejam que, no caso atual, uma variedade de conflitos pode levar a acreditar que a questão é que não se quer o setor privado na produção de vacinas no Brasil’, que ‘políticos estejam agindo de má fé’, que ‘essa decisão da ANVISA foi para poder se colocar acima, contrariando um ministro do Supremo Tribunal Federal’, ou que ‘o Governo quer distrair a atenção por causa da CPI’.”, pontuou. .

“O que o povo brasileiro precisa nessa conjuntura pandêmica é vacinas eficazes e seguras o mais rápido possível. Isso é o que temos de exigir agora e não espetáculos midiáticos pobres, ao tempo que aprendemos como construir uma perspectiva melhor para o país”, finalizou.

 

Fonte: “Hora do Povo”