“É possível mudar o Brasil”, garante Bruno Gonçalves, líder da juventude do PS português

Em conversa com William Rodrigues, presidente da JS-PDT, Bruno destacou a interação histórica do PS português com o PDT

Um diálogo aberto sobre a importância da militância dos jovens para transformar o Brasil e o mundo a partir da contribuição do trabalhismo. Nesse contexto, a Juventude Socialista (JS), vinculada ao PDT, entrevistou, durante a última semana, o dirigente da Juventude Socialista do Partido Socialista, de Portugal, Bruno Gonçalves. Na conversa por e-mail com o presidente nacional da JS do PDT, William Rodrigues, Gonçalves reafirmou a confiança na mudança conjuntural estimulada, no Brasil, pelo partido criado por Leonel Brizola. “Estou certo que o PDT vencerá os desafios do futuro, começando pelas próximas eleições, que acabarão com as políticas populistas e neoliberais que tanto têm prejudicado o país e o planeta”, projetou.

Bruno Gonçalves, boas-vindas ao Brasil através das redes do PDT e da Juventude Socialista. Conte um pouco sobre a sua trajetória (William Rodrigues).

R: Antes de mais, muito obrigado pelo vosso convite e pelo vosso trabalho em prol do socialismo e do movimento trabalhista no Brasil. É uma alegria estar hoje convosco.  Quanto a mim, procurando sintetizar um pouco do meu percurso político, devo dizer que sou militante da Juventude Socialista desde os 17 anos, tendo-me filiado na minha cidade natal: Braga. Fi-lo por entender que há, na Juventude Socialista, uma plataforma capaz de dar voz às soluções para os problemas sistémicos da juventude e de aproximar os representados dos representantes.

Sou, além do mais, mestre em Engenharia Mecânica, um apaixonado pelas tecnologias de produção de energias limpas e um permanente otimista abalado pela realidade. Não creio que exista, no tempo e no espaço, nada tão poderoso quanto uma ideia e nada tão encorajador, para todas as gerações, como a capacidade que todos temos em aprender com os nossos insucessos.

Por que o Partido Socialista?

R: O Partido Socialista nasce para mim como o espaço onde encontro a visão de sociedade, justa e plural com que me identifico. Um espaço de pequenas e grandes conquistas permanentes que elevam a dignidade da vida e a liberdade de cada um.

Cativou-me, desde logo, não só pelo papel que desempenhou, em Portugal, na luta pela liberdade e na construção e manutenção de uma República verdadeiramente democrática, mas pelo projeto do partido: solidário, onde os problemas de uns são os problemas de todos; integrador, onde as soluções para determinados problemas se incluem na missão de sociedade e não na resposta a certos nichos desfasados do interesse comum ou maioritário e de esperança, onde todas e todos partem em pé de igualdade, com os seus sonhos e expetativas, na busca da sua felicidade.

Ademais, o Partido Socialista é, foi e será, em Portugal, o único projeto de social democracia que combate, simultaneamente, o modelo de sociedade individualista e a unicidade de pensamento, representação e expressão. Diria, acima de tudo, que o partido tem sido, para os portugueses, um farol de liberdade – e esse é um legado que devemos defender todos os dias com o reforço das instituições democráticas.

Na sua visão de mundo, qual o papel e a importância da integração e da solidariedade internacional entre partidos e rganizações políticas.

R: A existência de um modelo global de cooperação, integração e comunicação entre países, partidos e organizações é essencial à manutenção da paz. É através da partilha de experiências e culturas distintas que podemos, enquanto seres políticos, entender novas realidades e antecipar dinâmicas futuras. A historia ensina-nos que sempre que as fronteiras – físicas ou não – se fecham, agudizam-se as divergências e estimulam-se os confrontos. E a sua causa recai, radicalmente, na falta de diálogo e comunicação.

Se olharmos para os nossos movimentos políticos e para os desafios atuais, então, é inevitável perceber o quão fulcrais são estas interações intercomunitárias. Se por mais não fosse, a pandemia que enfrentamos mostrou-nos, precisamente, o perigo do isolacionismo, do protecionismo e do individualismo na resposta aos desafios da humanidade e do planeta.

Só conseguiremos enfrentar os desafios das alterações climáticas, da revolução digital, da promoção da democracia ou da defesa dos direitos humanos através da cooperação. Não só pela incapacidade ou falta de recursos das comunidades a nível local, mas pela escala dos próprios problemas.

Como português, falando para brasileiros, que papel a língua portuguesa deveria ter nas relações internacionais?

Acho que nós, portugueses, temos uma tendência autocrítica muito grande – o pessimismo foi sempre uma constante no ‘fado’ do país. Ainda assim, creio que a língua, como elemento de coesão e de partilha, é um dos grandes orgulhos nacionais. Mia Couto disse que o português é “uma língua de uma grande plasticidade, que absorve e se deixa absorver”. E eu não poderia estar mais de acordo. É uma língua bela que expressa emoções como nenhuma outra e que, até na gratidão, como nos explica o professor Sampaio da Nóvoa, estabelece a diferença nos diferentes graus de comprometimento.

Hoje, a língua portuguesa é falada por mais de 200 milhões de pessoas e representa, acima de tudo, um património imaterial que é a ligação entre povos irmãos. A língua portuguesa, pelo passado, presente e futuro, está cada vez mais presente a nível global pela expansão social e económica de países como o Brasil. Também, por isso, é importante que a continuemos a “absorver e deixar absorver”. É, em português, que pensamos e nos exprimimos. E é também nesta língua de Camões, de Machado de Assis e de Saramago que estabelecemos laços entre comunidades.

Preservar e promover a língua portuguesa não é, assim, apenas salvaguardar a história. É, sobretudo no campo das relações internacionais, olhar para o futuro e dinamizar novas sinergias e desenhar novos caminhos. Este é, consequentemente, o tempo certo para reivindicarmos o português como língua oficial do ONU e, obviamente, da União Internacional da Juventude Socialista (IUSY).

No Brasil, assim como em outros países do mundo, vivemos há algum tempo uma crise de representatividade política. Há alguns anos, isso atingiu a esquerda europeia e o próprio PS em Portugal. Considerando que o PS foi um dos primeiros partidos de esquerda da Europa a se reinventar e retomar a confiança do eleitorado, como acha que a esquerda latino-americana pode superar essa onda de descrédito e ataques.

R: Creio que essa crise de representatividade política está, primeiramente, relacionada com o descrédito das instituições, do seu entendimento, da qualidade da informação e da educação para a cidadania ativa. Só teremos democracias participativas e genuinamente estáveis quando todos os cidadãos, enquanto seres políticos e simbólicos, forem verdadeiramente livres; tiverem educação para a vida pública; participarem nos processos como intervenientes ativos na propositura de ideias;  respeitarem os fundamentos da democracia e as instituições da sua própria representação política e quando, mais do que nunca, tiverem acesso, livre e gratuito, a informação de qualidade.

No que concerne ao Partido Socialista e a Portugal, em particular, creio que a última década provou a capacidade que o partido tem em reinventar-se e em progredir fielmente aos seus princípios e à sua missão. O PS é, antes de tudo, o partido da liberdade e essa é uma conquista da qual poderemos, jamais, abdicar.

E foi nesse mesmo sentido que se apresentou como alternativa, em 2015, ao projeto da coligação de direita que, durante os anos de intervenção externa e auxílio financeiro ao país, fomentou a austeridade e reduziu a esperança dos mais jovens, não só na política, mas, essencialmente, no país.

Ultrapassando obstáculos históricos que separavam o PS dos partidos à sua esquerda, foi possível construir um projeto sólido, de futuro e de esperança, que culminou na recuperação de rendimentos e na promoção de políticas públicas que defendem o papel do Estado e o erário público. E foi, precisamente por isso, que o partido venceu as últimas eleições legislativas de 2019, pois afirmou e executou uma visão de país diferente das amarras austeritárias.

Gostaríamos de ouvir um pouco das suas propostas e pensamentos gerais como candidato a secretário-geral da IUSY.

R: No meu entender, a IUSY precisa encarar os novos desafios trazidos pela pandemia COVID-19 como uma oportunidade de vincar a sua agenda e marcar o passo do progresso global. E deve fazê-lo, em múltiplas frentes, honrando o seu legado e a sua enorme militância que a faz ser a maior organização de juventudes políticas do mundo.

Precisamos afirmar um novo futuro na permanente luta pela democracia e pelas liberdades individuais; na defesa de um modelo de economia digital que saiba defender os interesses dos trabalhadores e dos consumidores; no combate às desigualdades, sob todas as formas possíveis, e na eliminação da pobreza. Precisamos de uma IUSY capaz de afirmar, a uma voz, a imperativa necessidade de organização de um sistema global de saúde pública capaz de prevenir catástrofes e alavancar novos desenvolvimentos capazes de conceder dignidade à vida de todas as mulheres e homens.

É hora de abordarmos, de uma vez por todas, os problemas da saúde mental e do bem-estar na vida dos mais jovens que, mais uma vez, viram os seus sonhos hipotecados durante esta pandemia. Urge comprometermo-nos na defesa do planeta, no combate às alterações climáticas, na redução da nossa pegada ambiental e na salvaguarda dos ecossistemas. Apenas com uma voz global poderemos enfrentar problemas que são de todos, sem exceção.

E é também por isso, pela voz que precisamos construir, que se assente no compromisso de cada militante e de cada simpatizante dos movimentos socialistas, trabalhistas e sociais democratas para inovar na comunicação. No diálogo entre os membros da nossa União Internacional e com todos os jovens que anseiam, de nós, as respostas mais eficazes aos seus problemas.

É com este sentido de missão, e com um programa que apresentarei ao Congresso da IUSY, que me sinto preparado e capaz para liderar aquela que é a mais bela e mais nobre das ideias. Sei que, todos juntos, venceremos os difíceis desafios do presente e preservaremos a esperança de um futuro melhor onde ninguém fica para trás.

Uma mensagem final para os militantes do PDT e da JS, bem como ao povo brasileiro.

R: Esperança! Uma mensagem de esperança e de sonho. É muito importante, não só para o Brasil e os brasileiros mas para todo o mundo, que os militantes do PDT e da Juventude Socialista acreditem que é possível mudar o Brasil e o mundo. Nós, militantes de todas as partes do globo, precisamos que a vossa força seja contagiante e que seja o farol da viragem de rumo que o Brasil precisa.

Bem sei que os desafios que encaram são tremendos e requerem, mais do que tudo, uma enorme resiliência e um gigante espírito de combatividade. É precisamente por essa paixão, alegria e esperança contagiante, bem caraterística do povo brasileiro, que estou certo que o PDT vencerá os desafios do futuro, começando pelas próximas eleições que acabarão com as políticas populistas e neoliberais que tanto têm prejudicado o país e o planeta. Contem comigo para essa luta por um Brasil mais justo, igual e próspero.