Domingos Fernandes, um dos signatários da Carta de Lisboa, morre em São Paulo aos 74 anos

Uma entrevista inédita com o economista Domingos Fernandes, um dos signatários da Carta de Lisboa, que morreu na terça passada (01/12) em São Paulo aos 74 anos, foi disponibilizada nas redes sociais pelo seu autor, Henrique Matthiesen, diretor do Centro de Memória Trabalhista da Fundação Leonel Brizola – Alberto Pasqualini, através das plataformas digitais spotify, Aplle Podcasts, Google Podcasts e Anchor.

Nascido em 13 de dezembro de 1945 no Rio de Janeiro, onde iniciou sua militância política no ano de 1962 na condição de estudante, por intermédio da Igreja Católica. Aliou-se à Organização Revolucionária Marxista Política Operária (POLOP) e assumiu um espaço de liderança no meio estudantil. Durante o ano de 1964, ligado ao Grupo dos 11, serviu ao exército brasileiro até ingressar na Escola Técnica Nacional (ETN). Domingos, além de ter sido integrante de um dos “Grupo dos 11”, estimulado por Brizola como forma de enfrentar o golpe militar que se avizinhava em 1964, posteriormente fez parte da luta armada através do grupo clandestino Ação Libertadora Nacional (ALN), liderado por Carlos Marighella, que acabou sendo executado pela ditadura em uma emboscada realizada em São Paulo.

Domingos foi preso em 1969 e submetido a torturas físicas nas dependências no DOI-CODI em diversas oportunidades até ser libertado por seus companheiros de luta armada em troca do embaixador da Alemanha Ocidental, Ehrenfried von Holleben, também sequestrado no Rio de Janeiro.

Sobre esse período, ele relata no seu depoimento a Matthiesen: “O Marighella tinha razão, seres humanos que torturam seres humanos são verdadeiros animais. Imaginar você enfiar qualquer coisa no outro e fazer o ‘cara’ falar, por ele não querer falar, não é coisa de ser humano. São pessoas totalmente fora do contexto”, disse.

Domingos Fernandes atendeu a convocação de Brizola em 1979 para que os trabalhistas que viviam no Brasil e os que foram obrigados a sair do país por causa da ditadura, vivendo no exílio, se reunissem em Lisboa para tentar reorganizar – que na época vivia a distensão ‘lenta e gradual’ tocada pelo general Ernesto Geisel enfrentando a extrema-direita militar simbolizada com a demissão de seu ex-ministro Sylvio Frota – o velho Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). O PTB, fundado por Getúlio Vargas em 1945, era o maior do país antes do golpe de 64 e continuou sendo até a sua extinção, na ‘reforma’ política da ditadura de 1966,  quando os partidos de 1945 foram todos extintos e substituídos pelo MDB e a Arena, partidos que o povo inicialmente apelidou de partidos “do sim” e “do sim senhor” à ditadura.

O Brasil essa época vivia um período difícil de cassações e perseguições políticas, além da imprensa amordaçada pela censura.

Mas progressivamente, com Geisel, o regime fechado dos militares foi se abrindo, ao mesmo tempo em que se organizava a resistência civil ao golpe de 1964, o que levou Leonel Brizola – com a ajuda do presidente socialista de Portugal, Mario Soares, a pensar em organizar um grande encontro em Lisboa que juntasse na capital portuguesa os trabalhistas que viviam no exílio com os trabalhistas que atuavam  no Brasil, para refundar o PTB ainda no exílio para, depois, com a abertura política no Brasil – retomar a sua trajetória, que ele definia como “retomada do fio da História”.

Domingos Fernandes participou dessa histórica reunião, ponto de partida da fundação do Partido Democrático Trabalhista (PDT) porque o general Golbery do Couto e Silva, poderoso e manipulando os ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), manobrou para que a sigla PTB fosse entregue a uma parente distante de Getúlio Vargas, Yvette, de direita e alinhada com os militares – tirando-a das mãos de Brizola.

No seu depoimento a Henrique Matthiesen, que disponibilizamos abaixo, de 67 minutos, Domingos fala sobre o esforço de Brizola de retomar o Trabalhismo no Brasil: “A postura do Brizola era uma só. Ele achava que o PTB  deveria retomar a história pré-golpe e se tornar um ‘estuário’ da resistência”.  Ultimamente Domingos prestava consultoria política à União Geral dos Trabalhadores (UGT),