Discurso do Dep. Paulo Ramos.

Diretório Estadual do Rio de Janeiro

Reunião de 12 de março de 2018

Paulo Ramos

 

Primeiro, cumprimentar todos. Eu poderia, aqui, sair nominando todos os companheiros da direção do PDT. Sobre a minha bancada, não é?… Luiz Martins, amanhã, já vai chegar lá, no plenário, tirando uma onda: dizendo que já é meu líder… Então, tá bom… Já vai chegar lá cantando de galo…

Poderia mencionar praticamente os nomes daqueles que estão, aqui, em homenagem ao meu regresso. Mas eu vou preferir falar: companheiras e companheiros.

É claro que não é possível estar aqui neste auditório sem falar na figura do velho Brizola. E sem lembrar, também, de vários companheiros com os quais aqui convivemos; e que estão com referências, nos orientando politicamente – afirmando e reafirmando os compromissos que temos tido, ao longo desta luta.

Imaginar que, há poucos dias, perdemos o Caó; perdemos o Pedro Porfírio. Poderia eu, aqui, citar nomes que já perdemos há mais tempo; como Carmen Cynira; citando, aqui, Jorge Vieira… Mas poderíamos trazer, também, Lisâneas Maciel, Brandão Monteiro, Edialeda Nascimento. Eu poderia citar, assim, muitos nome, que, mesmo não estando aqui de corpo presente, certamente sempre farão parte destes nossos encontros.

Mas o Brizola, só quem conviveu mais de perto sabe, nos momentos de desentendimento – quando ficava muito difícil chegar a uma conclusão, nas reuniões…

Porque muita gente, às vezes, não sabe: o Brizola talvez tenha sido o dirigente partidário mais democrata que nós conhecemos. Porque Brizola tinha paciência para ouvir. E, à vezes, aqui, cheguei a ver um ou outro – desavisado – tratar, até, o Brizola com desaforo. Mas o Brizola tinha a paciência para ouvir.

E quando, nas reuniões, ficava impossível chegar a uma conclusão, ele dizia: “Chegamos ao estágio da incompreensão” – era a expressão que ele usava. Ele, às vezes, encerrava a reunião, sem nenhuma conclusão, “vamos para casa; cada um reflete; e vamos marcar outro dia, porque hoje está impossível”.

Estou dizendo isto por quê?

Eu, na minha convivência no PDT, entendo que, num determinado momento, nós chegamos ao estágio da incompreensão. Uma incompreensão maior, minha; mas chegamos ao estágio da incompreensão. E, no estágio da incompreensão, nós (e nesta loucura de que sou possuído, que a Cidinha lembrou muito bem)…

No estágio da incompreensão, muitas vezes nós perdemos um pouco a serenidade; e muitas vezes, no estágio da incompreensão, por vezes, desrespeitamos companheiros tão diletos. No estágio da incompreensão.

Mas o desrespeito, naquele momento, não significa falta de reconhecimento da importância, da trajetória, da contribuição dada, na luta pela construção do socialismo – que é o propósito do PDT.

E eu acredito que, no momento da incompreensão, eu tenha sito desrespeitoso com muitos companheiros.

Mas eu quero – ao mesmo tempo em que peço a reflexão e a consideração – representando aqueles com os quais eu não tive a devida serenidade, no momento, e me excedi, eu quero selecionar apenas um (mas que ele represente, pelo menos, todos aqueles que foram feridos por palavras minhas, em determinado momento)… e talvez…

Brizola dizia assim: “Eu vim de longe”. E Brizola veio de muito mais longe do que qualquer um de nós que estamos aqui presentes. Mas eu posso dizer que já percorri alguma distância. Não sei de que distância eu vim, mas eu venho, já posso dizer, também, um pouco de longe.

E eu me lembro, no antigo MDB (não tinha havido a reformulação partidária) – e eu ainda um pouco mais jovem, participando de reuniões do MDB um pouco na clandestinidade, já que era oficial da Polícia Militar em serviço ativo: ainda tinha algumas dificuldades políticas, naquela época…

E eu me lembro, uma vez – isto nunca mais esqueci –, numa reunião do MDB: “Nós vamos receber os prefeitos democratas; os prefeitos da resistência”. E a reunião do MDB reuniu Noel de Carvalho, prefeito de Resende; Carlos Emir Mussi, prefeito de Macaé; Jarbas Stelman, Paraíba do Sul e José Bonifácio, de Cabo Frio.

Isto, hoje, aqui, me remete à compreensão de que, em determinado momento, isto faz parte da luta. Também nos sentindo minimamente agredidos da reação (às vezes é uma reação, que poderia ser uma reação, mas uma reação no mínimo respeitosa). E eu acredito que eu tenha faltado com o respeito à trajetória de luta e de vida de vários companheiros.

Mas eu quero me penitenciar, me referindo a José Bonifácio – e àqueles que sentiram um pouco (ou muito!) atingidos por reações minhas. Que recebem, também, o meu…

Porque eu cheguei a falar, aqui, quando estive no aniversário do Brizola: lá no Clube Militar (ali na Avenida Rio branco) tem uma frase do general David Canabarro… David Canabarro, na Revolução Farroupilha, foi o encarregado de entregar a carta de rendição dos Farrapos. E ele deixou a frase, que está lá, dizendo o seguinte: “Partilharemos a glória de superar os ressentimentos criados no furor dos partidos, em homenagem ao bem geral da nação”.

Está lá na porta do Clube Militar. À vezes, a gente entra lá (um ou outro entra); a gente perde o hábito de ler as coisas que estão escritas, e foram deixadas pelos nossos antepassados.

Então, quero dizer o seguinte: realmente eu me distanciei do PDT. Achei que, na ocasião, tinha motivos. Mas, não só o tempo seguinte; mas a própria realidade política foi me convencendo de que eu tinha me distanciado, exatamente, de uma trincheira da qual eu nunca deveria ter me afastado.

E, hoje, o desafio… O desafio é muito grande: a realidade no nosso país é uma realidade que nos convoca a uma luta muito maior – não só no país, como aqui no Estado do Rio de Janeiro.

Não é possível perceber que o sistema, hoje, está inviabilizando, de várias formas, o que a gente chama ‘a soberania nacional’. As riquezas nacionais estão sendo transferidas para o controle do capital estrangeiro. Não somente aquilo que é estatizado, mas a internacionalização da economia está caminhando, a passos largos. Há fragilidade, até, da elite empresarial brasileira, que está sucumbindo.

Mas, especialmente, o massacre à classe trabalhadora. Imaginar que foi feita uma reforma trabalhista que sepultou direitos que vinham da Era Vargas: direitos dos trabalhadores. Mas não apenas da Era Vargas: direitos que estavam escritos na Constituição como cláusulas pétreas.

E como eles conseguiram dar essa punhalada, com uma reforma trabalhista? – que contou com a resistência da nossa bancada no Congresso Nacional. Não podiam modificar a Constituição, porque cláusula pétrea só pode ser modificada com outra Constituinte.

Então, eles resolveram afirmar que o acordado prevalece sobre o legislado. Os sindicatos, fragilizados. O Djalma, que está aqui – Sindicato dos Químicos, Federação dos Químicos –, sabe como a classe trabalhadora está fragilizada. Fragilizada e dividida.

E aí criam, pessoa… O cidadão comum – um! – é pessoa jurídica! Ele pode ser empregado, como pessoa jurídica; e ele é quem tem a obrigação de pagar à Previdência Social.

Emprego temporário… O sujeito é contratado para trabalhar dois dias na semana; ganha a metade do salário mínimo – ou menos. O patrão paga sobre as horas trabalhadas; e ele tem que complementar para ter direito a aposentadoria de um salário mínimo. Um salário mínimo miserável; por que quem consegue sobreviver, dignamente, ganhando novecentos e poucos reais?

Isto é um massacre!

A má distribuição de renda é algo assim… Não conseguiram fazer a reforma da Previdência… Difamaram a Petrobras, e estão entregando as reservas de petróleo.

Eu poderia citar, aqui, todos os exemplos – que são do conhecimento de quem está aqui; mas refletindo a gravidade da situação pela qual passa o nosso país. Sem considerar os atentados à Constituição.

Hoje, a judicialização de tudo nos impõe o que é a chamada ditadura do Judiciário. E há dificuldade de a população compreender que o que eles falam é combate à corrupção não é combate à corrupção: é a preservação de uma situação que eles ainda não conseguiram mudar no todo, mas que eles querem mudar. Mas eles não vão conseguir, porque não têm candidato a Presidência da República.

O setor conservador perdeu quatro eleições sucessivas; e ainda não tem um candidato para a próxima eleição. A dúvida deles, agora, é se o Lula influi, mais, preso ou solto. E o Supremo Tribunal Federal está para decidir.

Mas, nesse emaranhado todo, nessa confusão toda, o PDT sobressai. Porque o PDT, com Ciro Gomes. ‘O PDT! com Ciro Gomes’ (não é o Ciro Gomes com o PDT).

Nós temos que registrar isto: o PDT, com Ciro Gomes. O trabalhismo; o brizolismo – As bandeiras do PDT com Ciro Gomes!

As bandeiras do PDT, com Ciro Gomes, representam uma verdadeira alternativa para o povo brasileiro. E devemos estar, todos, empenhados.

Não é possível que o PDT, agora, vá se apresentar ao povo brasileiro sem que haja uma compreensão do seu significado.

Porque tem sido assim – e todos ouvem isto. Talvez não tenha um lugar que a gente compareça, um debates políticos, que alguém não diga: o Brizola tinha razão. A figura do Brizola vem sendo lembrada em todos os cantos.

Então, é uma luta acumulada, que contou com o trabalho de muita gente – que está aqui; e outros que já não estão mais entre nós.

Eu quero dizer, Lupi, que têm aqui presentes, também, muitos companheiros que ousaram cometer o erro de sair do PDT quando eu saí. E têm muitos que comparecem a este ato – a esta reunião da direção regional, mas ao mesmo tempo este ato de refiliação – e vem também fazer sua refiliação. Têm vários aqui.

Mas o desafio nacional, porque a situação de indigência, a exclusão é muito grande.

Já imaginaram, agora, essa intervenção militar? É um massacre nas favelas. Quer dizer: excluíram, criminalizaram; e agora estão reprimindo com as Forças Armadas?…

Quer dizer que nas favelas são os inimigos da pátria? E aonde estão os vendilhões da pátria? Que são os verdadeiros… O excluídos são as vítimas do governo; vítimas deste modelo. Qual é a perspectiva que tem a juventude, hoje, em nosso país? Não tem perspectiva.

Então, o quadro social… A população é que vive no desemprego; a maioria não tem habitação.

Nas últimas décadas, o Brasil esteve entre as maiores economias do mundo; e não definiu uma habitação digna para cada família. Afinal de contas, que distribuição de renda é essa em que os cinco mais ricos têm a mesma renda dos 105 milhões mais pobres?

Então, nós temos dados aí que demonstram a tragédia. Mas o Rio de Janeiro também vive uma tragédia. E é preciso compatibilizar a luta no Rio de Janeiro com a luta nacional.

Eu vou falar aqui… Conversei com Martha Rocha…

[E o Zaqueu também está aqui: é da bancada… Falou Cidinha; falou Luiz Martins; falou Martha Rocha. E o Zaqueuzinho, meu delegado, ficou ali…]

O que vou dizer aqui… Porque o desafio sempre é muito grande. O desafio é muito grande.

Quem se manifestou falando na projeção, na penetração, no reconhecimento da deputada Martha Rocha falou a verdade.

O Estado do Rio de Janeiro está num vazio muito grande. Não há. Dentre os nomes citados, nenhum alcança o reconhecimento.

Eu tenho conversado com Martha Rocha. Não é fácil a decisão. Não é fácil a decisão. Mas é um desafio para se pensar; e é uma decisão muito pessoal.

Nós não podemos, de forma alguma, criar determinado tipo de constrangimento. É uma decisão pessoal.

Nós sabemos – eu sei! –, pela convivência ao longo dos anos, que a deputada Martha Rocha está à altura do desafio. Não tenho dúvida quanto a isto. Nenhuma!

Outro dia, brinquei com ela: você está achando o quê? Que não tem capacidade para governar o Estado? Lula governou o país; o Fernando Henrique governou; o Garotinho foi governador; o Pezão é governador; o Sérgio Cabral também.

Você está muito mais preparada. Você não tem por quê manifestar qualquer preocupação ou receio, em função do tamanho do desafio, que não é pequeno. De qualquer maneira, nós temos no PDT – e temos que reconhecer isto – também vários quadros (é claro: nós temos vários quadros). Vários quadros e uma militância aguerrida, disposta. E, agora, muito mais!

Porque, a par de muitos caminhos ou descaminhos, agora existe um reconhecimento – claro, evidente –, por todos os erros cometidos pelos outros, que o PDT é a alternativa.

Quero dizer que eu volto ao PDT… Lupi disse assim: “nunca saiu”. Realmente, eu nunca saí; porque era muito difícil conviver distante dos companheiros com os quais convivi tantos anos. Era, assim, um sofrimento não estar nas reuniões aqui no Pasqualini ou lá na Sete de Setembro.

E agora venho disposto a dar a minha contribuição, dentro das minhas limitações. Dar a minha contribuição, não em função de conquista de mandato. Quero deixar claro isto. Porque o desafio do PDT também é muito grande.

Eu venho, porque – primeiro – eu já não aguentava mais ficar fora. Já sofria a demais. Não aguentava.

E quero registrar uma alegria que tive: quando eu sinalizei, divulguei que ia voltar para o PDT, a Cidinha colocou, em seu gabinete, uma faixa: “Que bom você estar de volta”.

Espero que se, por ventura, ficou qualquer mágoa, eu peço a cada um que ficou magoado que possa superar como eu superei; que cada um possa – mesmo que não seja hoje – aqueles que não são convidados, em função de nossa mobilização… Mas aqueles que são do PDT (que permaneceram no PDT), que possam, pelo menos em pouco tempo – em muito pouco tempo; de preferência até hoje mesmo–, cada um poder dizer: “Que bom que você voltou”.

Então, Lupi, a você, principalmente – que é o nosso presidente –, agradecer a você aquela nossa conversa. Você foi o primeiro a dizer: “Olha, as portas estão abertas”.

Que as portas estejam abertas; mas os corações também.

Obrigado a todos.