Deputado Chico D’Angelo escreve: ‘Vivemos crise ética devastadora, fortalecer o SUS será prioridade da nova agenda’

“A sociedade brasileira vive uma crise ética devastadora, radicalizada pelas iniciativas estapafúrdias do governo federal na  pandemia da Covid-19”

Por Chico D’Angelo (*)

“O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caráteres corrompidos”. Este diagnóstico aterrador consta nas linhas iniciais do primeiro livro das “Farpas”, escrito por Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, em 1871. Tais palavras se aplicariam perfeitamente ao Brasil contemporâneo, em grande parte violento, misógino e preconceituoso. A sociedade brasileira vive uma crise ética devastadora, radicalizada pelas iniciativas estapafúrdias do governo federal na  pandemia da Covid-19.

O Brasil se encontra em seu pior momento para enfrentar esta crise. Com toda a certeza, o sofrimento pela doença poderia ser muito amenizado se tivéssemos tomado as medidas cabíveis. O país teve a carência de quatro meses após os primeiros registros da epidemia, mas a desperdiçou em teorias conspiratórias e avaliações sem respaldo científico. A insuficiência de testes, equipamentos de proteção individual, leitos, respiradores e do número e treinamento de profissionais de saúde poderia ter sido enfrentada com mais vigor e estratégia. A importância do isolamento social jamais deveria ter sido colocada em dúvida, para confundir a população.

Um dia será hora de retomar a vida em sua plenitude, e precisamos de um começo novo. Um novo caminho, com valores que a própria tragédia nos aponta, na perspectiva de um paradigma humanista de organização da vida. Como eixo central deste processo, o enfrentamento da marca histórica mais essencial da nossa sociedade: a desigualdade.

Neste sentido, cabe o reconhecimento  definitivo da maior política social do planeta,  o SUS. Engendrado por sanitaristas brasileiros na década de 1970, feito oficial pela Constituição de 1988, no momento da crise o SUS revelou toda a sua potência e contemporaneidade.

Um primeiro item da nova agenda da sociedade brasileira há de ser fortalecer o seu sistema de saúde, não apenas pela reconhecida importância estratégica, mas por se tratar de uma ação capaz de colocar em prática tantos conceitos cuja relevância a pandemia nos há de ter ensinado.

Vivemos um período de recolhimento, propício à reflexão e à elaboração de novos conceitos.  Na década de 1960, Nelson Rodrigues escreveu artigo no “Correio da Manhã” sobre a epidemia da gripe espanhola, no Rio de Janeiro. Assim ele diz: “E ninguém percebeu que uma cidade morria, que o Rio machadiano estava entre os finados. Uma outra cidade ia nascer”. Façamos da tragédia contemporânea o ponto de partida para o nascimento de outra sociedade, mais justa, fraterna e solidária.

 

 (*) Chico D’Angelo é  Deputado Federal (PDT-RJ)

Em 11/5/2020