Darcy Ribeiro: “Jango achou melhor cair do que desencadear uma guerra civil no Brasil”

Em reportagens históricas da “Folha”, Darcy disse em 95: ‘Jango não topou a briga, a direita o pôs para fora’

Por Osvaldo Maneschy / Bruno Ribeiro

Em 1995 o antropólogo Darcy Ribeiro decidiu fugir do Hospital Samaritano, no Rio, onde se tratava de uma pneumonia e do câncer que o matou dois anos depois, para viver em Maricá na casa em forma de oca de índio projetada pelo arquiteto e amigo Oscar Niemeyer na praia e terminar,  sossegado, um de seus projetos mais ambiciosos e importantes: o livro “O Povo Brasileiro – A Formação e o Sentido do Brasil”, obra começara a escrever há 30 anos enquanto trabalhava em outros tantos projetos acadêmicos, políticos e administrativos.

O jornal “Folha de São Paulo”, que no próximo dia 19 de fevereiro completa 100 anos de fundação, há tempos vem publicando textos que considera “Reportagens Históricas” que merecem ser lembradas agora nos seus 100 anos, entre elas a reportagem do jornalista Marcos Augusto Gonçalves para o caderno “Mais”, publicada em 1995, dias depois de  Darcy Ribeiro fugir do hospital para Maricá onde adorava ficar na rede fazendo anotações para o livro e apreciando o mar.

Na entrevista a Marcos Gonçalves Darcy falou sobre temas pessoais, relações com políticos e com intelectuais, e contou histórias que viveu como Chefe do Gabinete Civil do presidente João Goulart, deposto pelos militares em 1964;  que discutiu com o antropólogo francês Levi-Strauss, e muitas outras vivências como amigo e vice-governador de Leonel Brizola, de quem se aproximou depois da volta do exílio. Na mesma edição, em 1995, a “Folha” publicou também texto até então inédito de Darcy Ribeiro intitulado “Confrontos de civilizações”.

Logo depois do golpe de 1964 e depois da volta do exílio Darcy Ribeiro vivia angustiado com a pergunta: Por que o Brasil ainda não deu certo? Doente, enfrentando a segunda crise do câncer que o mataria e já o deixara com apenas um pulmão, decidiu fugir da sala de UTI para terminar a obra que lançou, em 1997, pouco antes de morrer, em memorável noite de autógrafos na Casa França-Brasil, na rua 1° de março, no Centro do Rio de Janeiro.

Livro que é uma obra histórico-antropológica em que ele se vale de seu conhecimento teórico e da vivência política acumulada para elaborar uma interpretação própria da formação do povo brasileiro a partir de suas três matrizes básicas: os índios, o europeu decobridor-colonizador e os africanos escravizados. Essas culturas tão diferentes entre si dão origem, na visão de Darcy, a um povo singular e a uma organização social que, embora reproduzindo traços da sociedade europeia, incorporam fortemente as outras contribuições.

Diferentemente do que ocorreu em outras sociedades também multiétnicas, aqui não floresceram antagonismos raciais, culturais ou regionais, nem movimentos separatistas vitoriosos. As diferenças, pelo contrário, fortaleceram o sentido de “povo nação”, fundado na diversidade e na língua comum. Estudando as diferentes formações regionais, ele identificou cinco diferentes “Brasis”: o Brasil sertanejo, o Brasil crioulo, o Brasil caboclo, o Brasil caipira e o Brasil sulino.

Na entrevista, longa, Darcy falou de sua infância, de sua vida em Minas, de sua militância na juventude comunista, de sua vivência junto a diferentes tribos indígenas brasileiras, de sua amizade e trabalho com o educador Anísio Teixeira, da descoberta do Trabalhismo quando Getúlio decide dar um tiro no coração para defender o seu legado político; da amizade e do trabalho no governo João Goulart, “deposto por suas realizações”; e de sua aproximação política com Brizola, após o exílio, o governante que assinou embaixo de seu projeto de construção das escolas de horário integral para salvar a infância e a juventude brasileira; e dos seus muitos amores.

Sobre o presidente João Goulart, nesse depoimento de 1995, Darcy Ribeiro diz ao jornalista da Marcos Augusto da “Folha de São Paulo”, sobre tema atualíssimo até por conta das versões que agora circulam sobre as desavenças de Brizola e João Goulart, a respeito do golpe de 1964:

“O presidente João Goulart era um homem curioso, um fazendeiro muito eficiente. Quando foi para a presidência, tinha muitas fazendas, engordava 20 mil cabeças de gado por ano. Mas era um homem generoso, preocupado com a pobreza. Era um homem simples, nacionalista, muito predisposto a atos de coragem para passar o Brasil a limpo. Jango não foi derrubado por seus defeitos, mas por suas qualidades, que a direita não podia admitir. Os projetos de reforma agrária e da lei de controle do capital estrangeiro provocaram sua queda. Eu achava que ele deveria se defender do golpe. Quando os militares, em Minas, se levantaram contra o governo federal, eu sugeri que Jango enviasse aviões só para para “lamber” a tropa. Eles recuariam. Mas ele temia que isso se transformasse numa luta fratricida. Não queria dar ordem de fogo. Achava melhor cair do que desencadear uma guerra civil. Não quis topar a briga e a direita o pôs para fora. Não poderia imaginar que o resultado fosse o que foi”.

Leiam a íntegra da entrevista de Darcy no link:

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