Axel Grael escreve: ‘Covid-19 e as cidades: novas centralidades urbanas e mobilidade’

Por Axel Grael (*)

Há poucos dias, a montadora Ford, de presença histórica no Brasil, anunciou o encerramento das suas atividades no país. Isso é motivo de grande preocupação, pois é mais um episódio dramático do processo de desindustrialização do Brasil, mais um golpe contra a nossa combalida economia, mais uma demonstração que o nosso país vem perdendo competitividade e significa que mais alguns milhares de pessoas serão empurrados de uma hora para a outra para o desemprego.

Mas, a desistência de uma das maiores montadoras de veículos, alojada num dos maiores mercados, pode ser também a evidência de outros processos econômicos e sociais: o mundo está se afastando do automóvel e do rodoviarismo, que dominaram o cenário urbano e o ideário consumista de gerações.

Na minha geração, ao chegar aos 18 anos, os jovens rapazes de classe média tinham três grandes preocupações: era a época do vestibular, do alistamento para o serviço militar e, acima de tudo, hora de tirar a carteira de motorista o mais rápido possível. Éramos bombardeados pelo apelo publicitário de que ter um carro era uma afirmação social, um símbolo de status. As propagandas, veiculadas massivamente na TV e outras mídias, associavam o automóvel até mesmo à sexualidade.

Na atual juventude, apesar das propagandas continuarem de forma insistente (talvez menos apelativas), noto que o automóvel perdeu o encanto que tinha antes. A garotada precisa ser empurrada pelos seus pais para tirar a carteira de motorista e, muitos, nem assim se motivam. Preferem o transporte coletivo, utilizam os serviços de táxi, aplicativos e o uso das bicicletas vem crescendo rapidamente como uma preferência. Os jovens de hoje consideram o carro uma opção cara, pouco atraente e até inconveniente. E eles têm razão. É de fato uma opção muito onerosa, há cada vez menos opções de estacionamento e as outras alternativas são cada vez mais competitivas em termos de conforto, conveniência e eficiência.

Os automóveis não desaparecerão, mas seremos cada vez menos dependentes deles e, gradativamente, essa indústria perderá a relevância que ainda tem hoje. Com menos carros, as cidades serão muito diferentes, e certamente o mundo será mais limpo e sustentável.

Mudanças

O cotidiano das cidades está de fato mudando rapidamente e em muitas partes do mundo. Esta tendência já era evidente nos últimos anos devido à influência cada vez maior da mobilidade no planejamento urbano e o crescente movimento pelo engajamento das cidades na busca pela sustentabilidade e pela justiça social. Mas este processo de transformação ganhou ainda mais força e velocidade com a chegada da COVID-19. A pandemia está transformando rapidamente o mercado de trabalho, com a difusão das práticas do teletrabalho (home office), que tem se mostrado cada vez mais atraente, tanto para as empresas como para muitos dos seus colaboradores, embora mereça reflexões sobre os impactos nas relações de trabalho.

Se, graças à internet e à tecnologia dos aplicativos que permitem reuniões remotas, muitas categorias profissionais não precisarão mais se deslocar grandes distâncias entre a sua residência e o seu local de trabalho, podendo exercer as suas tarefas diretamente da sua casa, de escritórios próprios ou compartilhados, localizados mais próximo de casa. A nova solução reduz muito as despesas das empresas, que ficam livres de ter que oferecer os dispendiosos locais de trabalho e, para o prestador de serviços, poderá ser uma opção mais confortável e também mais econômica em tempo e despesas.

Segundo eu soube recentemente por profissionais do setor imobiliário (corretores de imóveis), em Niterói, por exemplo, já observa-se uma valorização dos imóveis maiores, que ofereçam mais conforto e espaço para abrigar o trabalho profissional em casa, para o indivíduo, para o casal e, eventualmente, até mesmo para os filhos. Ou seja, de forma oposta do que aconteceu nos anos anteriores, desde o ano passado, há uma demanda para permuta dos apartamentos por casas na Região Oceânica, São Francisco, Pendotiba etc.

Este comportamento, com as pessoas ficando mais tempo em casa, poderá levar também a uma descentralização de serviços para os bairros, fortalecendo o comércio local. As pessoas farão mais deslocamentos de curtas distâncias. As bicicletas e até o deslocamento pedonal serão muito mais frequentes. Mais uma vez, trazendo o exemplo de Niterói, lembramos que a opção cicloviária já se mostrava como uma tendência. Com os investimentos na infraestrutura cicloviária realizados pela Prefeitura, o número de bicicletas quintuplicou de 2015 até 2020.

Conectada com esta tendência mundial e este novo cenário urbano emergente, Niterói vem implantando o programa Niterói de Bicicleta desde 2013. A mudança é indiscutível e a presença das magrelas nas ruas das cidades já é uma forte realidade. Agora, estamos concluindo a licitação para implantar mais 60 km de ciclovias na Região Oceânica e vamos ultrapassar a marca de 100 km de infraestrutura cicloviária ainda na atual gestão.

Uma rápida transformação na mobilidade das cidades europeias indica que o mercado de bikes elétricas aumentou muito, como mostra o exemplo de uma startup holandesa que viu as suas vendas mais do que dobrarem de janeiro a outubro do ano passado.

Segundo as estimativas do setor, as vendas das e-bikes devem superar as dos automóveis até o final da presente década e as cidades terão que se adaptar para se tornar cada vez mais cicláveis.

 

(*) Axel Grael é prefeito de Niterói (RJ).