Conversa com quem gosta de aprender e ensinar

Por Maria Amélia (*)

Rubem Alves por ele mesmo: nasci em Minas Gerais, em Boa Esperança. Estudei
música, quis ser médico, mas acabei teólogo. Teologia que apesar do nome pouco
sabe sobre os deuses, mas muito suspeita sobre os homens, pois os deuses são as
imagens do desejo. À medida que envelheço minha biblioteca encolhe, prefiro os
clássicos. Escrevi vários livros sobre educadores e educação, mas prefiro os livros que
escrevi para crianças e, este prazer nas histórias infantil como profissão e na poesia
me fizeram abraçar a psicanálise pois o que um psicanalista deve fazer é
simplesmente tentar resgatar o mundo das imagens poéticas esquecidas e vivas nos
subterrâneos da memória.

Esse é Rubem Alves, um filosofo da vida de quem gosta de ensinar. Um poeta de si
mesmo, um teólogo dos deuses que considera a todos com os desejos que estes
suscitam. Aqui estou eu, parafraseando os sentimentos que me incitam Rubem Alves
ao referenciar os modos e formas de ensinar e, muito mais, o prazer que se recebe ao
aprender com aqueles que ensinam com a certeza do espírito repleto de emoções e
prazeres que o ensinar nos inundam. São graças que se recebe em meio às emoções
que nos impõem do íntimo a partir da ação desse verbo que se pauta pela
comunicação que se faz presente no ato de educar e aprender, nos lembra Alves:
Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver
naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O
professor, assim, não morre jamais. (Rubem Alves, 2003) .

Muito se tem falado do sofrimento dos professores, de seu desalento, de seu
esquecimento pelo Estado que teima em demonstrar que a existência dos horrores
que acontece à sociedade e às culturas dos mais pobres, dos esquecidos e desvalidos
pelos seus modos de viver, dos seus modos de pensar, de suas cores de pele, de
suas vestimentas, religiões diversas e modos de agir diferenciados são considerados à
margem social, discriminados e violentados cotidianamente por ações movidas pelo
ódio sempre aceso aos corações pelo arautos do comércio, da indústria e da
escravização repetindo, é sua responsabilidade, sua culpa por não ter se esforçado
como eles próprios ao possuir tantos bens, dinheiro e fama.

Mas, neste Dia dos Mestres – 15 de outubro de 2021, eu que aprecio como Rubem
Alves o avesso das coisas, passo a falar da alegria e do prazer em ser professora
movida por preciosos sessenta anos de magistério. Vendo a alegria que se encontra
em ver o jardim que se planta crescer, a criança que aprende se tornar um adulto mais
crítico, mais humano, mais vulnerável as dores alheias pelo trabalho coletivo e aos
pares desenvolvidos em cada aula.

Senti que eu mesma ao sobrescrever sobre os escritos deste poeta do educar o

mesmo sentimento que nos invade a nós professores
e professoras – sentirmo-nos também como jardineiros vivenciando a cada dia o
esplendor de ver a planta crescer como educador/educadora das mil formas de
ensinar o melhor da vida. Esta é minha/nossa poesia e, como poeta/poetiza jamais
pensarei em me aposentar, pois como Alves, quem deseja se aposentar daquilo que

lhe traz alegria de viver e de existir? Cedo descobrimos como Rubem Alves, Paulo
Freire, Darcy Ribeiro e, tantos outros, que o prazer de ensinar era cada vez maior
quanto mais distantes estivessem nossos jovens alunos das deformações presentes
nas (des)educações que recebem nossos estudantes provocadas pelas distorções
existentes entre aqueles que conhecem efetivamente o chão das escolas, suas
alegrias e vicissitudes, as comunidades que os envolvem e aqueles que planejam de
seus gabinetes conteúdos e metodologias que cobram e avaliam professores e alunos
com ações matematizadas e estatísticas que, como alertava Einstein: se colocarmos
um homem com metade de seu corpo em um freezer e outra metade fora do freezer,
ao final da estatística teremos um homem morto.

Volto a lembrar a escola asa e a escola gaiola. Lembremos as águias que mesmo
correndo o risco das alturas acreditam que o risco das quedas vale a pena pois lá de
cima veem mais longe e muito mais bonita a paisagem. Apreendem do mundo muito
mais que as tartarugas que não correm risco de quebrar as pernas nem o casco ao
andar vagarosamente sobre o solo. Importante lembrar que a aprendizagem é uma
função do viver, a gente aprende para sobreviver às intempéries e para viver melhor,
sempre com alegria e prazer de viver em comunhão. Assim, nossas aprendizagens se
iniciam com os sentidos: ver, ouvir, falar, cheirar, gostar e agir. Nosso corpo fala e se
expressa a partir de nossas aprendizagens.

Dia do Mestre, fala-se ao mestre com carinho de seu prazer em ensinar e aprender
com o outro de sua cultura e formas de viver diferenciadas, local de memória e de vida
transdisciplinar. Educar é ensinar a pensar com vistas a um mundo de liberdades onde
os meios não bastam para trazer o prazer e a alegria, que são os sentidos da vida
local comum da educação da sensibilidade que também necessita ser educada, pois
somos também seres de cultura(s), inventamos e reinventamos objetos de prazer que
não se encontram apenas na natureza: a música, as artes, a culinária, a arquitetura,
os perfumes, os toques e tudo mais. A educação asa precisa despertar tais
sentimentos e sensibilidades para que a capacidade de sentir prazer e alegria se
desenvolva e se expanda. Deste modo existem mais atributos ao professor-educador,
ao mestre que ensina e aprende para além de fazer um ensino abstrato das disciplinas
é preciso que se torne um mestre de prazeres também capazes de ensinar e mais
aprender.
Parabéns a todos e todas professoras/professores deste nosso Brasil violentado.
Seguimos nossa tarefa de educadores da liberdade e do prazer de ensinar e aprender.
Estejamos todos e todas nós, militantes do Movimento Trabalhista pela Educação do
Partido Democrático Trabalhista, partido histórico de Pasqualini, Brizola e Darcy
Ribeiro movidos pela honra de elevarmos nossa educação ao patamar de excelência
em Educação, não para cumprir estatísticas internacionais mas acertar ao olhar o
presente com os olhos de quem acredita que EDUCAR É A MISSÃO DEMOCRÁTICA
DE TODOS/TODAS NÓS PROFESSORES/PROFESSORAS TRABALHISTAS

 

(*) Maria Amélia é presidente do Movimento Nacional de Educação do PDT