Contra o país e a cidade

POR MARTHA ROCHA

Ao afetar gravemente o ambiente de negócios, roubo de cargas encarece valor do seguro e inflaciona o preço final dos produtos

O roubo de cargas no Rio tem crescido numa velocidade alarmante. Somente nos dois primeiros meses deste ano, 1.145 casos foram registrados no estado, comprometendo ainda mais a já combalida segurança pública e causando enorme prejuízo às empresas. O crime não é uma prática nova, mas está ficando fora do controle porque se tornou um braço financeiro do tráfico de drogas.

São assaltos a caminhões de carga de eletrônicos, alimentos, cigarros, bebidas, medicamentos e combustíveis, que capitalizam velozmente as quadrilhas para a compra de mais armas e drogas. O interesse dos traficantes pelo roubo de cargas — que, obviamente, não se destina a doações às comunidades pobres — tem explicação. O investimento necessário para praticar os assaltos é baixo, e o escoamento das mercadorias é rápido, porque sempre tem quem as compre.

O prejuízo financeiro não impacta somente os empresários, mas sim a todos nós. Ao afetar gravemente o ambiente de negócios, o crime encarece o valor do seguro feito pelas transportadoras e inflaciona o preço final dos produtos comprados pela população. Para a entrega em alguns pontos do Rio, elas criaram uma taxa extra que varia de 0,3% a 1% do valor da carga ou de R$ 10 a R$ 15 por cada cem quilos transportados. Outros trechos da cidade estão sendo evitados, com o risco iminente de desabastecimento para os consumidores.

Medidas urgentes precisam ser tomadas para estancar essa situação calamitosa não somente para o Rio, mas para o país. Foram 97.786 roubos de cargas registrados em todo o território, de 2011 a 2016, causando o dano de mais de R$ 6,1 bilhões à economia brasileira. O Rio somou mais de 33,2 mil ocorrências no mesmo período, segundo a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro, com prejuízo de 2,1 bilhões às empresas.

Para combater efetivamente esse crime, especialmente no Rio, em cujas estradas ocorrem 43,7% dos assaltos cometidos no país, é preciso reforçar o policiamento nas fronteiras pelas quais atravessam as drogas e as armas adquiridas pelos traficantes, que passaram a utilizá-las, também, nos assaltos a caminhões.

São fundamentais, também, iniciativas de cooperação entre a União, os estados e as entidades representativas dos setores atingidos pelos índices estratosféricos alcançados pelo roubo de cargas. É necessária, ainda, a adoção de ações legislativas que tornem mais severas as penas para os crimes de receptação, armazenamento e venda de produtos roubados.

No Rio, é preciso investir na Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas, uma das poucas unidades do país especializadas no combate a essa modalidade criminosa. Embora tenha policiais com grande competência técnica para as investigações, sofre com a falta de apoio do governo. Transformá-la em Divisão de Roubos e Furtos de Cargas, com maior estrutura em recursos humanos e tecnológicos, será um grande passo para o combate ao crime no Rio, além de exemplo para todo o país.

 

Martha Rocha é deputada estadual (PDT) e presidente da Comissão de Segurança Pública da Alerj

 

Fonte: https://oglobo.globo.com/opiniao/contra-pais-a-cidade-21366665

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