“Como desenvolver o Brasil II”, por Ciro Gomes

*Por Ciro Gomes na Carta Capital

‘O nosso problema não é, como insisto, trocar Chico por Mané ou Maria, mas trocar definitivamente de modelo econômico, o mesmo desde 1999’

Estatísticas são um perigo se mal lidas. Neste macunaímico país, tanto mais. Cabeça na geladeira, pés no forno, a temperatura média tomada à altura da barriga nada diz. Nunca antes na história deste país precisaremos tanto saber disso quanto nos meses próximos.

O PIB brasileiro vai “crescer” perto de 5% neste ano. No entanto, o nosso PIB caiu monstruosos 25% em dólar, a moeda que importa para a referência internacional, no ano passado. Caiu 4,1% em real no mesmo período. Logo, esse “crescimento” que será trombeteado de forma ruidosa pela Igreja Bolsonarista é pouco mais que um ajuste estatístico. É como se tivéssemos descido uma escada de 25 degraus e agora voltamos cinco. Melhor que nada, certamente, mas isso não é crescimento, muito menos desenvolvimento.

No meu artigo anterior, vinha dizendo que o Brasil está proibido de crescer pelo colapso do consumo das famílias, do investimento privado, do investimento público e por uma restrição estrutural nas nossas contas com o estrangeiro. Também por fatores estruturais de longo prazo, como a precariedade de nossa produtividade decadente pela nenhuma aposta em educação que preste, em ciência, tecnologia e inovação. Se nada disso se alterou com Jair Bolsonaro e Paulo Guedes, senão para muito pior, de onde viria crescimento e desenvolvimento?

Lembro, por dever histórico, que tivemos entre 2010 e 2020, a pior década em matéria de crescimento econômico dos últimos 120 anos!

Foram seis anos de PT, dois de MDB e dois de Bolsonaro a provar de forma irrespondível que o nosso problema não é, como insisto, trocar Chico por Mané ou Maria, mas trocar definitivamente de modelo econômico, o mesmo desde 1999. E operado pelos mesmos cavalheiros!

É história comprovada que o PT convidou Guedes para ser ministro da Fazenda de Dilma Rousseff antes de nomear Joaquim Levy. Como chega a ser engraçado que Henrique Meirelles tenha sido o líder da política econômica de Lula, ministro da Fazenda de Michel Temer, “o golpista”, e agora seja o secretário da Fazenda de João Doria. Haverá a hora para falar sobre a política e suas contradições. Volto à questão de como desenvolvermos o Brasil, trilhando a tática do curto para o longo prazo. Agora, algumas ideias de como enfrentar o colapso do investimento privado.

Afora outros tantos, dois fatores inibem o investimento privado no Brasil: uma ociosidade ao redor de 25% a 30% há dez anos e um colapso no crédito pela prática dos juros mais altos do mundo há nada menos que 26 anos. É assim: o Brasil tem capacidade de produzir mil geladeiras e só dá conta de vender 750. Quem é louco para abrir uma fábrica nova de geladeiras se a que existe há dez anos não remunera o capital empatado? Não há taxa interna de retorno que se sustente com este nível de capacidade instalada ociosa.

Alô, Guedes, você perdeu esta aula em Chicago ou é intoxicação ideológica mesmo? Em 1980, a indústria instalada no Brasil respondia por mais de 30% do nosso PIB. Hoje é menos de 10%. A ocupação de capacidade instalada ociosa vem depois que se retoma o desenvolvimento. Portanto, o único constrangimento alcançável por uma política pública competente é atacar o colapso do crédito. Aqui, a providência número 1 é retirar o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal do cartel de bancos que se formou no Brasil. Entre nós, obra dos progressistas de goela que nos governaram nas últimas décadas, os cinco grandes bancos controlam 82% de todas as transações financeiras e acertam tarifas e taxas de juro em jantares elegantes. Por isso pagamos até 300% de juros ao ano no crédito pessoal ou cartões de crédito.

Hoje, mais de 6 milhões de empresas estão constrangidas na Serasa, com uma inadimplência recorde. A pandemia agravou o problema, mas ele vem de bem atrás e o estrondo foi produzido pela ressaca do ciclo nacional consumista sem base que implodiu no governo Dilma.

Estou estudando em detalhes uma solução estratégica para isto na esteira de um novo projeto nacional de desenvolvimento: parte das reservas cambiais estocadas sem nenhuma rentabilidade lá fora será transformada em um fundo de reestruturação de passivos, por meio de um fundo soberano ou de uma unidade do BNDES reaberta no exterior para esta e outras finalidades. A vantagem, aqui, é trocar juros e prazos estrangulados pelo sistema financeiro nacional por juros e prazos compatíveis com os prazos de retomada do investimento permitidos por uma janela de oportunidade raríssima de estarem os juros internacionais próximos de zero desde 2008 – vejam como os nossos dirigentes são cúmplices do rentismo nacional! Continua…