Ciro, no The Guardian: ‘Mundo precisa sinalizar que não tolera golpe de estado no Brasil’

“Precisamos que o mundo olhe para nós para garantir  que esse itinerário de loucura e tragédia será paralisado”

O pré-candidato do PDT à presidência da República, Ciro Gomes, em entrevista ao jornalista Tom Phillips, correspondente do jornal inglês “The Guardian” no Rio de Janeiro, publicada com grande destaque, afirmou que a comunidade internacional precisa sinalizar que não vai tolerar “a morte prematura da democracia brasileira” através de um golpe da extrema direita. Ciro instou governos estrangeiros a enviarem uma “mensagem forte e explicita” no sentido de que qualquer retrocesso democrático no Brasil será inaceitável numa nação que só em 1985 emergiu de duas décadas de ditadura militar.

“Realmente, precisamos que o mundo olhe para nós, porque esse será um dos fatores chave para garantir  que esse itinerário de loucura e tragédia coletivas seja paralisado” – disse ele.

Na entrevista, Ciro confirma que vai disputar a eleição presidencial do ano que vem contra Bolsonaro, “uma excrescência moral e humana”, cuja retórica antidemocrática – na sua opinião pode gerar violência antes mesmo da eleição. O jornalista lembrou que Bolsonaro já ameaçou não acontecer a eleição do ano que vem caso não haja transparência no voto eletrônico que já teria sido usado para fraudar pleitos, inclusive o que o elegeu. Segundo Tom Phillips, a retórica de Bolsonaro é muito parecida com a de Trump e da candidata da direita peruana, Keiko Fujimori.

Segundo o jornalista, Ciro disse que não acredita que os comandantes militares do Brasil apoiem “os delírios golpistas” de Bolsonaro, caso ele pretende ficar além dos quatro anos do mandato para o qual foi eleito – “embora esses temores tenham se intensificado em março após a repentina remoção do ministro da Defesa e os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica”.

O jornalista registra, porém, que Ciro teme que o apoio generalizado às ideias radicais de Bolsonaro nas bases da polícia militar signifique que motins e “episódios espasmódicos de violência” possam ocorrer antes das eleições do próximo ano. Ele também lembra que o irmão de Ciro, Cid Gomes, levou dois tiros ano passado durante rebelião policial na cidade de Sobral, no Ceará.

“Gomes exortou os governos estrangeiros a enviarem mensagem “contundente e explícita” de que qualquer regressão democrática será inaceitável para uma Nação que só emergiu de duas décadas de ditadura militar em 1985”.  Ao jornalista, Ciro também afirmou: “Precisamos mesmo que o mundo olhe para nós para que seja possível parar esse itinerário de loucura e tragédia coletiva rumo ao Brasil”, disse.

Ciro também afirmou:  “Seja qual for o ângulo que você escolher para olhar, o Brasil está vivendo o pior governo de sua história. E essa [constatação] agora se espalhou pela população brasileira porque o Bolsonaro é basicamente uma fraude ”, disse Ciro Gomes, citando a CPI da Covid.

“Gomes disse que a investigação da CPI, iniciada em abril, expôs a negação e a incompetência que contribuíram para a morte de mais de meio milhão de brasileiros por conta da Covid, doença que Bolsonaro chamou de gripezinha”.

“As pessoas estão assistindo a uma novela ou ao Big Brother”, disse Gomes sobre as sessões quase diárias da investigação, alegando que a maioria dos cidadãos passou a ver o Bolsonaro como “um criador de problemas desastrado”, incapaz de resolver os complexos problemas do Brasil.

“Gomes também dirigiu palavras duras ao rival de esquerda Lula, em cujo primeiro governo foi ministro. Antes aliados e amigos próximos, os dois se desentenderam durante a campanha presidencial de 2018 com Gomes acusando Lula de facilitar a vitória de Bolsonaro ao supostamente insistir que ele era o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) quando sabia que isso seria impossível por estar na prisão” por causa de condenações por corrupção  recentemente anuladas.

“Lula mentiu para o povo brasileiro afirmando que era candidato… e eu disse a ele que era um engano perigoso que acabaria elegendo Bolsonaro. Ele ignorou tudo o que eu disse”, frisou Ciro, argumentando que poderia ter derrotado Bolsonaro com o apoio dos eleitores do PT e de Lula.

O jornalista cobrou de Ciro a sua viagem a Paris, no segundo turno da eleição de 2018, e escreveu:  “Gomes foi amplamente criticado por brasileiros progressistas por não ter defendido a candidatura de Haddad no 2º turno e, em vez disso, viajar para Paris. Ele se defendeu alegando que tinha direito pessoal e político de não fazer campanha para o PT, na sua opinião “a causa da tragédia Bolsonaro”.

“Achei que seria um grande desastre, mas nunca poderia imaginar que esse desastre seria contabilizado em centenas de milhares de mortes”, finalizou.