“Sou favorável a eleições gerais se Michel Temer sair ou for afastado da presidência, posição do PDT, mas acredito que as chances disto acontecer são iguais a zero: deverá prevalecer a Constituição, que fala em eleições indiretas pelo Congresso, em que cada deputado e cada senador terá um voto”, afirmou o ex-ministro Ciro Gomes nesta segunda-feira (29/5), no Rio, ao ser questionado na palestra, seguida de perguntas, que fez para cerca de 500 estudantes e professores do Centro Federal de Educação Tecnológica (CEFET) Celso Sukow, no Maracanã.
“Precisamos esquentar os protestos, porque a democracia não é regime de concessões: é de conquistas. Ninguém dá nada para ninguém; e existe uma minoria no Brasil que trabalha contra os interesses da maioria”, acrescentou. Disse também que o autoritarismo faz parte da tradição brasileira; “tanto, que o mais longo período de vivência democrática que tivemos – 27 anos – se encerrou com a deposição da presidente Dilma Rousseff”.
Segundo Ciro, é lamentável a precarização e desmoralização dos sindicatos, hoje em dia, pelo fato de a esquerda tradicional os ter cooptado, a ponto de eles muitas vezes não falarem pelos trabalhadores. “Precisamos recuperar e valorizar os sindicatos”, frisou.
Ciro explicou mais detalhadamente:
“Sou favorável às eleições gerais e acho necessário aumentar e acelerar as manifestações de rua. Mas, como tenho o hábito de cultivar a franqueza e fazer com que as pessoas entendam as coisas, acho que isto não vai acontecer. Vai prevalecer o que está escrito na Constituição: corrido o Temer – por renúncia, impeachment ou ação do TSE – Rodrigo Maia assumirá a presidência e convocará eleições indiretas em 30 dias onde cada parlamentar – deputado ou senador – terá um voto”. Destacou ainda que deverão concorrer ao cargo brasileiros inscritos ou não nos partidos políticos.
Ele prosseguiu:
“Deveria me calar, mas digo que o nosso lado não tem a menor chance. E as eleições deverão ser indiretas, onde o PDT nem deve participar. Falam em Rodrigo Maia, porque ele tem apoio de 60% dos votos da Câmara, o chamado baixo clero. Há outras soluções, mas nenhuma delas é do nosso lado. Não defendo nomes do lado de lá, mas acho que Ayres de Brito não tem chance, porque estamos confinados nas opções da maioria do Congresso: Rodrigo Maia, Nelson Jobim (ex-ministro de FHC, Lula e Dilma; simpático ao PT); e Tasso Jereissati . Estes dois últimos, na minha opinião, tem o mínimo de respeitabilidade para assumir o cargo”.
Ciro explicou que não apoia a emenda Miro Teixeira, porque ela prevê só a eleição presidencial, deixando o atual Congresso de fora, pois é a favor de eleições gerais, como o PDT. Disse que não acredita em renúncia de Michel Temer “porque ele não tem dignidade para isto”. Já se as diretas passassem, questiona quando seriam essas eleições, dezembro ou setembro, na prática permitindo ao eleito governar por apenas seis meses, até ser atropelado pela campanha das eleições diretas previstas no calendário para 2018.
O Brasil, em sua opinião, precisa parar para pensar porque “não há saída para o FLA-FLU odiento que se tornou a política brasileira”, referindo-se à disputa pela hegemonia que PT e PSDB estão travando nos dias de hoje. “É importante pensar o Brasil além do que pensam os amigos de Fernando Henrique Cardoso e os amigos do Lula: temos que fazer um esforço para pensarmos juntos o nosso país”, destacou.
O Brasil precisa encontrar seu próprio caminho, porque, segundo Ciro, não serve um corta-e-cola do modelo chinês ou do modelo norte-americano. “Não podemos copiar e colar as instituições da China no Brasil, do mesmo modo que não podemos copiar e colar as instituições dos Estados Unidos aqui, como a elite faz”.
Concretamente, assinalou que Brasil e China estavam economicamente empatados em 1980, cada um, responsável por 1% do comércio mundial, mas a China avançou e hoje já responde por 12% do comércio mundial, enquanto o Brasil responde pelo mesmo 1%. “O que aconteceu? Que lições podemos tirar? É por isto que estamos condenados a construir o nosso próprio caminho”, frisou.
Assinalou que o Brasil não ficou totalmente parado; ganhou em produtividade, mas trocando gente por máquinas e robôs que, somados à crise, são responsáveis pelo fato de termos hoje no país 14 milhões de desempregados e mais 9 milhões de trabalhadores na informalidade. Ciro alfinetou o prefeito de São Paulo: “Informalidade que o atual prefeito de São Paulo, com uma simples canetada, aumentou ao proibir que os usuários de ônibus não paguem mais o serviço com dinheiro. Ou seja, vai colocar todos os trocadores – de uma só vez – na rua, incrementando a máfia do transporte urbano”. Citou ainda o fato de que uma única colheitadeira de cana-de-açúcar substitui 76 trabalhadores rurais.
Outra pergunta que respondeu foi sobre a escola sem partido e a questão da educação em geral. Citou a experiência aplicada no Ceará, de fortalecimento da profissionalização do ensino, como um sucesso e sobre a escola sem partido limitou-se a classificar: “É uma baboseira reacionária de algum zé bostinha”, sendo aplaudido pela plateia. Explicou: “Fui educado a maior parte da minha vida em escola pública. Enquanto eu chegava à escola de banho tomado e alimentado, muitos colegas meus chegavam com piolhos e com fome; por isto, acho que qualquer pessoa preocupada em estudar decentemente não aceita essa de escola sem partido. Como é que a escola sem partido vai tratar a história? Como vai tratar o período da escravidão?”.
Em resposta a uma outra pergunta, disse que não acredita em derrota da esquerda, porque a sociedade brasileira é solidária e humanista; por isto não entendeu como um homem do porte de Haddad, ex-prefeito de São Paulo, perdeu a eleição para Dória. Segundo ele, talvez pelo fato de não ter posto “o povo na jogada”, erro que atribuiu também à Dilma. “Na política a gente vale pelo que é e pelo que nega”, disse.
Sobre a parcialidade da mídia, como enfrenta-la se eleito, disse que a melhor maneira de lidar com a mídia é não expor o queixo “para ela bater”. Ciro disse que hoje sua principal fonte de informação é o Facebook porque “o que for relevante, confiro”. E que evita a tevê comercial, os jornais ou rádios. No máximo, no dia-a-dia, dá uma olhada em sites noticiosos. A solução para lidar com a parcialidade da mídia, disse, é fortalecer as cooperativas de jornalistas independentes e autônomos, via mecanismos de financiamento e de distribuição de verbas de publicidade. “Zé Dirceu defendia a mídia técnica. Aí vem o Ibope e diz que a Globo tem 80% da audiência e por conta disso, leva 80% da verba. Comigo não! Vou mexer com isto! Brizola é que tinha razão, fazendo tijolaços”.
Ao todo, entre palestra e pergunta de estudantes, o evento promovido pelo núcleo de articulação política do CEFET/RJ durou duas hora e meia. Na mesa, além de Ciro, tiveram assento o Reitor da Instituição, Carlos Henrique Figueiredo Alves; e o professor Weber Figueiredo, um dos responsáveis pela presença de Ciro.
Muito aplaudido pela palestra e por suas respostas aos questionamentos da plateia – Ciro respondeu a mais de 15 perguntas diretas, de estudantes e professores – ele ainda atendeu ao convite do professor Weber e almoçou no bandejão do CEFET/RJ, com alunos e professores.