Ciro Gomes: “Comportamento genocida de Bolsonaro atrasa o fim da pandemia”

*Por Ciro Gomes

A pandemia vai passar, muito mais tardia e devastadoramente do que precisava ser entre nós, graças ao comportamento genocida e dramaticamente incompetente de Bolsonaro. E aí? Aí restará o luto pelo mais de meio milhão de mortos que choraremos e uma terra arrasada por reconstruir. Quem sabe consigamos estabelecer um debate, sem gritos e interdições, para elaborarmos um bom diagnóstico da nossa crise, condição essencial para tentarmos as soluções nada fáceis, mas perfeitamente possíveis, ainda, para o nosso futuro enquanto nação.

Alguns números para caracterizar o estado de terra arrasada que Bolsonaro e suas antecedências nos impuseram: 14,2% é a taxa de desemprego aberto, com o maior número de desempregados da história. São 34 milhões os brasileiros e brasileiras empurrados para a informalidade. Entre novembro de 2020 e janeiro deste ano, 81% das novas ocupações eram informais. Menor poder de compra do salário mínimo (mensurado em cestas básicas) dos últimos 12 anos. IGPM (inflação do atacado) de 31%, um dos maiores desde o Plano Real, que ajudei a consolidar (só é menor que a inflação do início do governo Lula). A economia brasileira caiu da nona posição mundial para a 12ª e representa 2,4% do PIB do planeta, praticamente a metade do que representava em 1980 (4,3%) em dólar, a moeda de conversão internacional.

Mais: o PIB brasileiro caiu 24% no ano passado. A proporção da perda em dólar na Bolsa de Valores foi muito próxima (20%). O real é a moeda que mais se desvaloriza no mundo entre as economias organizadas. O investimento é um dos menores desde os anos 1960. O déficit nas contas do governo, abstraída a contabilidade criativa disfarçada de “orçamento de guerra”, PEC emergencial ou lei de orçamento, que não “prevê” gastos obrigatórios, ou seja, a diferença entre o que entrou no caixa do Tesouro e o que foi gasto nos últimos 12 meses, se aproxima de 900 bilhões de reais. A dívida pública cavalga célere para os assustadores 100% do PIB. Vivemos a maior fuga de capitais da história moderna e a maior inadimplência dos indivíduos (67% das famílias ) e das empresas (6 milhões no Serasa) da história. Ufa… Desculpe, caro leitor, se parece um exagero. São números. Mas a coleção macabra aqui exposta ainda não convenceu parte de nossa elite de que o fundo do poço chegou.

Considero que Bolsonaro é uma excrescência humana e política a ser banida da vida republicana pelos caminhos do Estado de Direito democrático. Luto por seu impeachment pelos continuados crimes de responsabilidade que tem cometido. Se o Congresso não cumprir o seu dever, pretendo derrotá-lo nas urnas no ano que vem. Para entendermos, entretanto, o tamanho do nosso problema e acharmos o caminho da solução é necessário que se diga com franqueza: Bolsonaro e Guedes agravam, e muito, o problema, mas este não foi criado por eles. É honesto que se entendam as consequências da pandemia sobre esses números, embora, especialmente na pandemia, Bolsonaro tenha abusado de incompetência e conduta genocida.

O que quero dizer os números ajudarão a entender: o problema brasileiro é estrutural e demanda o abandono do modelo de economia política que adotamos após a Constituição de 1988. Não por ela ter anunciado, entre muitas contradições, um generoso Estado de Bem-Estar Social nunca entregue. Mas pela rendição tosca e mal reflexiva à propaganda ideológica neoliberal que nos foi vendida como ciência boa e, pior, a vergonhosa prostração de todas as forças políticas brasileiras ao longo das últimas quatro décadas ao rentismo e à agiotagem oficial, viciando a nação nos juros mais altos do mundo, em detrimento de uma cultura de parcimônia, austeridade, trabalho duro e produção. Ao povo se ofereceram migalhas de políticas sociais compensatórias ou rápidos ciclos de consumismo ilusório logo seguidos de quebras.

Entre 1945 e 1980, o Brasil cresceu 7,34% ao ano, em média. Entre 1981, quando o velho modelo foi assassinado pela alta dos juros internacionais, os choques do petróleo, a ditadura e o início da aceleração da estonteante revolução tecnológica, e 2010 (eleição de Dilma Roussef), o País despencou para 2,7% de crescimento médio anual. Entre 2011 e 2020, o sinal definitivo, outro, do fundo do poço: tivemos a pior década em matéria de crescimento em 120 anos (média de 0,3% ao ano). Foram seis anos de PT, dois de Temer e dois de Bolsonaro, a demonstrar que o nosso problema não é trocar Chico por Mané ou Maria.

O traço comum foi o modelo econômico. É isto que tem de ser debatido. E mudado. O Brasil traz ao mundo quase 3 milhões de bebês por ano, apesar de estarmos envelhecendo rapidamente, de tanto arrocho. Não crescer é condenar milhares à morte. Crescer de qualquer jeito também não interessa, crescer destruindo o planeta, não pode… Como fazê-lo? Comecemos por abandonar o “passado (que) é uma roupa que não nos serve mais”. Seguiremos a propor as bases de um novo projeto nacional de desenvolvimento.

*Ciro Gomes é vice-presidente nacional do PDT e pré-candidato a presidente da República.