Ciro e Rodrigo se reúnem no RJ com os Cristãos Trabalhistas

Movimento Cristãos Trabalhistas foi criado em 2018 na campanha de Ciro Gomes à presidência

por Osvaldo Maneschy/Apio Gomes

Os pré-candidatos do PDT à presidência da República e ao governo do Rio de Janeiro, Ciro Gomes e Rodrigo Neves, participaram na noite desta sexta-feira (24/9) da reunião com dezenas de religiosos do Movimento de Cristãos Trabalhistas (MCT) que tem entre suas principais lideranças no Rio de Janeiro o pastor presbiteriano Luiz Longuini e o advogado Cacau de Brito. Também estiveram presentes ao ato – na sede nacional da Fundação Brizola – Pasqualini, no Centro do Rio – parlamentares, militantes do PDT e o presidente nacional da sigla, Carlos Lupi, que comandou a reunião.

Logo na abertura Martha Rocha, a primeira a falar, agradeceu ao pastor Longuini e aos demais pastores presentes pelo apoio que recebeu na sua campanha à prefeitura do Rio de Janeiro, de forma organizada e propositiva, e lamentou não ter chegado ao 2° turno. Saudando os presentes, alinhados às campanhas de Ciro e Rodrigo, disse esperançosa sobre 2022: “Não sou a prefeita,  mas o tempo de Deus não é nosso tempo”.

O deputado federal Paulo Ramos, segundo orador, disse que considerava a princípio que religião e política não deviam se misturar, mas com o fato de hoje Bolsonaro “ser o principal disseminador de ódio” entre os brasileiros, não vacilando em usar para isto pastores alinhados ideologicamente a ele, saudava com alegria o fortalecimento no PDT do movimento Cristãos Trabalhistas pelo fato dele ser ecumênico e abranger a todas as religiões, “inclusive as de raízes africanas”. Ramos saudou também a volta do ex-deputado Miro Teixeira, presente ao encontro, ao PDT.

Miro, por sua vez, ao se dirigir aos presentes elogiou Cacau de Brito, um dos organizadores do encontro, e sua possível candidatura à deputado estadual, como fora anunciada pouco antes por Lupi. Miro falou  sobre a importância da igreja evangélica e o crescimento dela no Brasil, frisando que o ecumenismo era importantíssimo por seu viés inclusivo e não se pode mais aceitar exclusões como as da pregação de ódio dos evangélicos alinhados a Bolsonaro. Elogiou o governo de Rodrigo em Niterói e concluiu: “Pátria livre! Ciro na presidência!”.

Cacau de Brito falou de sua trajetória de filiado há 35 anos no PDT, desde que chegou da
Bahia, e da importância da escolha de bons administradores, citando Rodrigo Neves e Ciro como exemplos. Sobre Rodrigo, disse: “Não há ninguém mais preparado do que ele para exercer o cargo de governador”. Sobre Ciro, completou, brincando: “Ele é tão preparado que se fosse candidato a Papa votava nele”.

Já Bolsonaro e seu discurso de ódio, na sua opinião, “não representam o povo evangélico”.

Ao passar a palavra ao pastor Luiz Longuini, um dos líderes do movimento, Lupi fez questão de dizer que ele é seu amigo há 25 anos e era um brizolista. Professor e mestre  em Teologia, com doutorado na Alemanha, Longuini começou explicando aos presentes a origem da palavra ‘companheiro’, derivada do latin ‘cum panis’ –  ou dividir o pão. Ele relatou a gênese do movimento Cristãos Trabalhistas em 2018, na campanha de Ciro à presidência, que depois se desdobrou na campanha de Martha Rocha à prefeita do Rio – sempre  com a preocupação de agrupar, nele, todas as religiões independente de suas práticas. Citou dois versículos da Bíblia para destacar a importância do olhar para os desvalidos, para os mais pobres, uma das razões de ser do movimento e de sua preocupação de unir – em vez de dividir cristãos.

Lembrou os ensinamentos de Calvino, e Lutero, no movimento protestante, em defesa do povo mais humilde e mais pobre, contra o luxo e a ostentação da igreja. “Não podemos deixar a história da Igreja evangélica nas mãos dessa gente!”, conclamou. Falou de sua amizade pessoal com Leonel Brizola, “criado por um pastor metodista” em parte de sua vida, e da permanente proposta de luta do PDT pelos humildes, pelos mais pobres.

Leia a íntegra da fala de Longuini:

 

Pastor Luiz Longuini fala aos Cristãos Trabalhistas

“Lembrando que a palavra companheiro vem do latim “cum panis”: aqueles que repartem o mesmo pão. E Jesus Cristo fez isto com seus discípulos, seus apóstolos. E nós, aqui, estamos repartindo o mesmo pão – o da justiça.

Que Deus – nosso pai; mãe – nos abençoe a todos e a todas.

Eu quero começar, lembrando dois versículos da palavra de Deus, que estão em Provérbios. É o provérbio 31, muito usado para falar das questões da mulher. Mas é uma parte, que começa com o conselho de uma mãe. A mãe falando a seu filho, que era um rei – o rei Lemuel.

Quando a mãe fala, a gente deve prestar atenção. Ela fala: leva o guarda-chuva porque vai chover. Você não leva; e chove.

Esta mãe diz assim ao rei Lemuel: “Abre a boca a favor do mudo, pelo direito de todos: os que se acham desamparados. Abre a boca, julgue retamente e faça justiça aos pobres e aos necessitados”.

É uma mãe falando ao seu filho “abre a boca, julgue retamente e faça justiça aos pobres e aos necessitados”.

Este Movimento Cristãos Trabalhistas, do qual eu faço parte já há um tempo, nasce praticamente no Rio de Janeiro – quando, em 2018, fizemos um projeto para apoiar a candidatura de Ciro. Trabalhamos aqui. O mesmo projeto foi feito para apoiar a candidatura da deputada Martha Rocha – como ela já mencionou aqui, candidatura à prefeita.

É um trabalho que nós estamos tentando levar à frente, considerando alguns aspectos que quero compartilhar com vocês aqui, hoje. Já participei de reuniões com pastores, doutor Ciro. Temos feito um trabalho em nível nacional: há um estatuto; há um manifesto; há um presidente; há uma diretoria. E este movimento é um movimento do PDT.

O que significa isto? Eu parto do seguinte princípio (digo sempre isto às pessoas): não somos nós que estamos apoiando estes candidatos – bons candidatos! Eles que nos apoiam. Prestem atenção nisto. É preciso inverter o negócio; isto é, nós precisamos ter bons candidatos, como foi o caso da Martha Rocha. Por que ela apoiava o movimento para levarmos isto avante; e fica fácil fazer a caminhada.

Quero pedir permissão, Rodrigo Neves, mas é muito pontual: está lá no fundo do nosso auditório uma moça que se chama Maria Giovana [pede que ela se levante]. Ela veio de Americana: é a nossa candidata em Americana a deputada federal. E hoje ela veio aqui, com seu assessor, para visitarmos o Hospital Oceânico, em Niterói. Fomos lá, pela manhã, recebidos por uma bela equipe. Gente, é de chorar de emoção. Aquele centro de atenção à convid: o que estão fazendo pela vida; o que estão fazendo em defesa do ser humano. Parabéns, Rodrigo. Vimos aquilo lá concretamente.

Então, é isto: o nosso movimento precisa de bons candidatos. Todos vocês que estão aqui: Cacau, Ciro, Rodrigo, Martha. Porque vocês nos apoiam.

E nosso movimento é centrado em cinco grandes objetivos. O primeiro deles é a articulação, a mobilização, o engajamento de todos nós em prol de todos os candidatos – a em nível federal, estadual, municipal: todos!

Segundo objetivo: nós temos de fazer um trabalho de desdemonização de nossas igrejas da participação da política, principalmente da esquerda. Quer dizer, tirar esse demônio. As pessoas acham que a participar politicamente é um erro (principalmente da esquerda). Mas, aí, se vocês quiserem saber sobre a esquerda, ouçam bem o Ciro Gomes.

O terceiro aspecto: incentivar os cristãos a que participem dos partidos políticos. As pessoas têm medo dos partidos… Não! Escrevi um artigo, recentemente, que vai sair agora em um livro. Por quê? É no partido político que nós fazemos o exercício da nossa cidadania; e podemos fazer a distinção entre religião e sociedade. É aí que nos fazemos isto.

O quarto objetivo é movimentar e integrar todo o movimento, através de ações concretas, com uma frente ampla. E aí: a palavra do Paulo Ramos, a palavra do Miro Teixeira. Todos que estão neste movimento têm que respeitar todas as religiões. Os cristãos não têm a última palavra. Nós não somos donos da verdade. Este é um movimento ecumênico, de inclusão, de respeito a todos os movimentos: ao movimento negro, às mulheres.

Ou seja: este movimento não pode ser excludente. Quem não quer dialogar com outra religião não pode participar deste movimento. Tem que ter abertura de coração; nós temos que proclamar o amor neste país. Chega de ódio, que estão proclamando tanto por aí. Isto não é nem a vontade de Deus, nem a vontade de Jesus, e nem a vontade do nosso povo. O nosso povo não quer isso.

Participar deste movimento é entender que nós vamos dar as mãos. Por quê? Porque nós temos um horizonte maior: eleger estas pessoas em quem acreditamos. Mas é o bem do Brasil. É que o pobre seja respeitado.

Eu trabalho, com igreja, em favelas do Rio de Janeiro há 30 anos. Tem gente aqui que é membro da minha igreja. Não dá para aguentar mais isto. É muito exploração. Mas, enfim…

O quinto tópico como se deve levar estes candidatos para nossas igrejas. Mas vou explicar. Na época da campanha da Martha, ela fazia lives, ela falava. Precisamos levar as ideias destes candidatos para que as pessoas possam conhecer.

Hoje foram ditas algumas coisas, aqui, muito interessantes. Mas sabem o que acho, gente? Há muito prurido; o PDT é muito ético (especialmente os partidos mais de esquerda). O Ciro, então, está tendo um trabalho muito grande em tratar este tema. Parabéns, Ciro. Mas a gente tem que encarar algumas coisas de cara.

Nós respeitamos isto, mas precisamos chegar ao nosso povo: evangélico, católico, cristão… todos! Ou seja: nós vamos realizar trabalhos para levar estas ideias exatamente ao nosso povo. O Ciro Gomes tem um livro escrito. Já lemos. As ideias estão lá. E o que é feito em Niterói, por exemplo. Enfim…

Então, são este cinco objetivos. Vamos trabalhar neste sentido.

As pessoas, à vezes, falam “mas, pastor Longuini, esse negócio de misturar religião com a igreja”. Nós não estamos misturando religião e igreja. Nós estamos incentivamos aquilo que nós entendemos ser a nossa participação política e cidadã. Na nossa cidade e no nosso país.

O nosso professor, aqui, Miro já falou de Jesus. Eu vou dar um pulo e falar de Martinho Lutero. Alemanha, 1517: ele proclama as 95 teses contra as indulgências; mas, em 1520, ele escreve uma carta – Carta à nobreza alemã. Ele faz uma plataforma de reformas para toda a Alemanha. E os príncipes seguiram. João Calvino, quando escreve a sua Instituta, faz, na introdução, uma carta ao Rei Francisco I. Um cara que escreve um texto e escreve uma carta ao rei, ele quer mudar a sociedade, meu Deus do céu!

Ou seja: historicamente, nós temos este compromisso e esta grande possibilidade. Não nos envergonhemos de nossa História verdadeira. Não podemos deixar a moral, a ética, a história da igreja evangélica brasileira – belíssima! – na mão desses canalhas. Esse grupo que quer representar não representa a igreja evangélica brasileira.

A igreja evangélica brasileira ou a igreja católica brasileira está muito dividida. Então, é preciso entender este movimento. Estamos muito bem acompanhados.

Eu só gostaria de encerrar com um versículo que se encontra em Tiago (a Carta de Tiago), que diz assim: “atendei agora, ricos; chorai lamentando por causa das vossas desventuras. As vossas riquezas estão corruptas”. Olha como a Bíblia é trabalhista; e Tiago também.

– “Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos e que por vós foi retido com fraude está clamando. E os clamores dos ceifeiros penetram até os ouvidos do Senhor dos Exércitos”.

Uma greve de um trabalhador, de uma trabalhadora, a luta de um trabalhador, de uma trabalhadora é uma oração que penetra nos ouvidos de Deus. É o que diz a Bíblia.

É preciso entender isto; ter estes compromissos. Leiam o manifesto dos Cristãos Trabalhistas. O que afirmamos lá está muito vinculado aos valores do Reino de Deus e ao Estatuto do PDT. Não estou aqui fazendo média: é só, realmente, estudar e verificar isto.

Encerro, Ciro, contando uma história que alguns aqui já sabem: eu fui amigo de Leonel Brizola. Privei com ele durante muito tempo. Brizola foi um missionário metodista, desde sua adolescência. Muitas histórias.

Um dia ele me disse assim: “Nós estávamos, um dia, na igreja, ajoelhados, e um missionário disse ‘agora, o Leonel vai orar’. Me levantei para a oração”. Aí, Brizola me disse: “Pastor Longuini, o primeiro discurso que fiz foi para Deus!”.

Viva o PDT e Leonel Brizola!”

 

RODRIGO NEVES & CIRO GOMES

Logo em seguida falou Rodrigo Neves, citando o versículo João 10:10, que diz: “Vim para que todos tenham vida!”. E que isso é fundamental por conta do governo atual que não liga para os mais necessitados, é o grande responsável pelas quase 600 mil mortes em consequência da atual pandemia de Covid-19. Falou também de seus planos para o Rio de Janeiro “que precisa sair do buraco em que está”, líder em mortes por Covid no país, com grande parte de sua população sofrendo por conta do desemprego embora seja o maior produtor de petróleo do país e já foi, no passado, o lugar mais importante do país em produção Cultural. Destacou que a reunião destinava-se principalmente a Ciro e pediu aos líderes do movimento que marcassem um novo encontro, específico, para a discussão dos problemas do Rio.

Principal orador, deixando as perguntas para o final, Ciro cumprimentou a todos os presentes e falou de sua “sólida formação cristã” responsável pela leitura da Bíblia, integralmente, por mais de 30 vezes “para compreender as lições metafóricas” que ela transmite e ter sido, no passado, integrante da juventude franciscana. Lembrou que São Francisco foi um filho da nobreza “que se despiu de tudo por ser identificar com os filhos da pobreza e proteger os animais e a natureza”. Uma trajetória que também aconteceu com Buda.  Revelou que Dom Aloísio Lorscheider, ex-presidente da CNBB, além de amigo foi seu confessor e disse que compreendeu melhor a questão da religião quando esteve no poder.

Veja a íntegra da fala de Ciro Gomes em vídeo: