Ciro critica ‘reforma’ de Bolsonaro: “Quem tem que pagar a conta é o andar de cima”

Proposta de Bolsonaro, diz Ciro, quer repassar a servidores os erros do Governo

*Por Bruno Ribeiro / PDT-RJ / Brasil Independente /OM

O ex-ministro Ciro Gomes (PDT) criticou a proposta de reforma administrativa do governo Bolsonaro durante live da Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB), nesta segunda-feira (05). “Em uma sociedade onde cinco pessoas tem a fortuna igual a de 100 milhões de brasileiros, está muito claro pra mim que quem tem que pagar a conta é o andar de cima”, afirmou o pedetista. O ex-governador do Ceará fez duras críticas à gestão de Jair Bolsonaro no enfrentamento à pandemia e lamentou as mais de 330 mil mortes no país.

“Se juntar todas as guerras, não morreu um terço do que a covid já matou no Brasil. É disparada a maior crise e da história do país”, apontou Ciro.

Ele também manifestou indignação com a situação de insegurança alimentar atual de boa parte da população, em larga escala. “Trabalhador não pode mais comer nem pizza no domingo”, daí o seu empenho, explicou, da necessidade  do Brasil ter um novo projeto nacional de desenvolvimento. O ex-ministro elencou o que definiu como “desgoverno” Bolsonaro: “O Brasil tem um déficit primário de 900 bilhões de reais, sete vezes  o maior déficit que já tivemos na história”, alertando ainda que a dívida pública “galopou para 90% do PIB”.

“E  aí o que acontece? O agiota já não quer renovar o acordo com o papagaio, que é o governo. Estamos fechando uma janela de oportunidades. Vamos ver os juros voltarem a subir voando, entraremos em um quadro de estagflação”, avisou.

Ciro lembrou que entre 1980 e 2010, o Brasil viu seu crescimento médio cair de 12% para 2%, nos governos Collor, FHC e Lula. “E de 2010 para cá paramos de crescer, por isso 10 milhões de lares de irmãos nossos não tem um copo d’água”, afirmou. Chamou a atenção para o aumento da concentração de riqueza durante governos considerados progressistas.

“O PT ganhou quatro eleições, o FHC mais duas com esse papo de progressismo e criou essas cinco pessoas acumulando a mesma renda que 100 milhões de nossos irmãos. Eu estava lá, a gente tem que olhar, não adianta se zangar. Mas por que isso acontece? Por que no Brasil a gente só cobra imposto de pobre e classe média”, destacou, frisando: “Em uma sociedade onde cinco pessoas tem a fortuna igual a de 100 milhões de brasileiros, está muito claro pra mim que quem tem que pagar a conta é o andar de cima”.

Na opinião dele, não são os servidores públicos que devem pagar a conta.

“Precisamos fazer uma homenagem ao servidor público, que na CSB tem sua voz altiva. Minha vida é devotada ao serviço público e dou meu testemunho que se não fosse o servidor a situação humana seria ainda mais dramática”, disse.

O pedetista também opinou sobre o suposto “inchaço” do Estado brasileiro. “Pergunto, você acha que o Brasil tem mais ou menos policiais do que precisa? Mais ou menos médicos?”, indagou. Ciro argumentou sobre os problemas causados por uma sociedade baseada no consumo como medição de ‘sucesso’.

“A grande ilusão do mercado é essa. O ‘deus, que provê felicidade, através do consumo, é o mercado”, criticou.

Para ele, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 32/20, do governo Bolsonaro é mais uma ferramenta para subtração de direitos e depreciação do Estado. “A culpa é do servidor público?”, indagou.

“As coisas no Brasil, se não fosse o serviço público, seriam muito mais traumáticas e graves”, ressaltou, mencionando a dedicação dos profissionais da Saúde no enfrentamento da Covid-19, mesmo com a precariedade da infraestrutura e do volume da mão de obra do sistema.

“O motivo do setor público não é o lucro, mas o bem-estar social. Com as contradições, como toda obra humana, precisam destruir essa entidade para que o Estado saia do meio e o mercado se aproprie de todas as energias. Para isso acontecer, é preciso desmoralizar duas coisas: servidor público e política”, relatou, argumentando que a chantagem está sendo feita pelo “maior desgoverno” já visto no Brasil.

Ciro mencionou os valores e prazos da dívida pública e o déficit primário como indicativos de um prejuízo que Bolsonaro tenta se eximir. E uma das saídas do ministro da Fazenda, Paulo Guedes, é atingir o servidor – para torná-lo fiador dos erros.

“O governo brasileiro, interditado pela incompetência do Bolsonaro e pela interdição ideológica do Paulo Guedes, não quer discutir a receita. O déficit de 900 bilhões de reais acontece porque 238 bilhões de reais foram para o socorro emergencial, que diminuiu pela metade a queda da economia brasileira”, detalhou, lembrando que 40% do auxílio voltou para a União em impostos e a receita regrediu R$ 232 bilhões.

Ao mencionar os 40 milhões de brasileiros “empurrados para a informalidade”, o pedetista também destacou o número de desempregados na composição da maior fatia da mão de obra brasileira – com cerca 60 milhões de cidadãos vulneráveis .

“Eu digo a todos, sem nenhum exagero ou medo de errar: é disparada a pior crise social, econômica e fiscal da história brasileira. Alguns números demonstram isso. Primeiro, o Brasil tem, hoje, 14,3 milhões de pessoas abertamente desempregadas. Nunca houve um número parecido”, apontou.

Com relação às empresas, foi alcançado, segundo Ciro, a maior estatística de pedidos de recuperação judicial registrado, além da recorrente retração da produção e da capacidade industrial. Situação ocasionada, no entendimento dele, porque o governo escolheu direcionar R$ 1 trilhão para os bancos em detrimento do suporte direto aos empresários impactados pela pandemia.

“Seis milhões de empresas atingidas, está ocorrendo um verdadeiro genocídio das micro, pequena e média empresas. Elas estão com o nome no Serasa, que é a antessala da recuperação judicial e da antiga falência”, ressaltou, lembrando  que o atual poder de compra do salário mínimo é o menor dos últimos 16 anos. “Os ricos fazem conta em dólar porque tudo, mais cedo ou mais tarde, acompanha o valor do dólar. A riqueza brasileira encolheu 25%. É o tamanho da perda da bolsa de valores. Quando a gente vê os ricos assinando manifestos denunciando os descalabros do Bolsonaro, é porque na bolsa, onde os ricos especulam, eles perderam 25%”.

Como alternativa concreta, Ciro sustenta, além do impeachment de Bolsonaro, a necessidade do Projeto Nacional de Desenvolvimento (PND) como o que construiu na disputa eleitoral de 2018 com a contribuição coletiva de centenas de especialistas brasileiros.  “Por que eu repito tanto isso? Porque o PND é uma resposta prática para um punhado de perplexidades e conflitos dos quais nós estamos apanhando”, afirmou.

“Isso que eu chamo de projeto. É um diagnóstico correto em um plano para que o povo brasileiro bote nele o que quer para si e para seus filhos no futuro. Dali a gente tira quanto custa e vamos para o grande debate de dividir a conta”, acrescentou, mencionando a desigualdade social progressivamente ampliada.

O pré-candidato á presidência da República finalizou fazendo um apelo aos servidores públicos, aos trabalhadores, e a sociedade de em geral.

“Temos que parar de acreditar em ‘Papai Noel’. A sociedade vê seus direitos serem destruídos e não vemos uma vitrine ser quebrada… Por quê? Porque nos últimos anos aquilo que se pensava ser um governo de esquerda cooptou as estruturas e tirou delas a vocação para a luta. Por isso precisamos de servidores públicos organizados, altivos e que exijam de todos os partidos propostas e compromissos para negociar aquilo que é bom e correto para a população”.

As posteriores mesas de debate contaram ainda com as participações de diversas lideranças do campo progressista, incluindo o deputado federal André Figueiredo (PDT-CE) e o coordenador do programa de governo de Ciro em 2018, economista Nelson Marconi

 

Confira aqui o evento na íntegra.