Ciro: “Bolsonaro é um presidente incompetente, despreparado e corrupto”

Ciro, em entrevista ao “Diário de Notícias” de Lisboa,  defende o impeachment de Bolsonaro por crimes de responsabilidade

Em entrevista ao “Diário de Notícias” de Portugal, o vice-presidente nacional do PDT e ex-governador do Ceará, Ciro Gomes, afirmou que a democracia brasileira tem sofrido violências, ao longo de sua história, e que a solução imediata para resolver esta questão, na sua opinião, é a deposição do presidente da República, Jair Bolsonaro. Para Ciro, Bolsonaro  já cometeu quase todos os crimes de responsabilidade previstos na lei.  “Bolsonaro é um presidente incompetente, despreparado e reconhecidamente corrupto. São inúmeras as ligações dele e da sua família com desvio de recursos públicos e com as milícias do Rio de Janeiro”, declarou.

Sobre a pandemia, o ex-governador do Ceará detalhou os erros acumulados no governo federal, com destaque para a negação da ciência, boicote aos imunizantes, desestruturação do Sistema único de Saúde e discriminação sobre países parceiros do Brasil.   “Bolsonaro cercou-se de generais traidores da pátria e conduziu a pandemia de forma negacionista e incentivando o povo a aglomerar-se, a não usar máscaras e prescrevendo remédios sem comprovação científica”, pontuou. Segundo Ciro, ele “atuou contra a vacina, e, para piorar, o seu preconceito criminoso contra a China, por exemplo, dificulta ao Brasil adquirir vacinas para imunizar o povo”, completou, citando o sucesso do seu último livro ‘Projeto nacional: o dever da esperança’.

 Ao confirmar sua intenção de disputar a presidência novamente pelo PDT, Ciro ratifica a importância de implementar um plano trabalhista para colocar novamente o país no rumo certo.  “Tenho rodado todo o país apresentando um Projeto Nacional de Desenvolvimento com começo, meio e fim que recupere a capacidade industrial do Brasil, garanta desenvolvimento com justiça social e devolva ao Brasil as rédeas do seu futuro”, disse.

 

Confira, abaixo, novos trechos da entrevista:

 

Defende um impeachment do presidente Bolsonaro ou acha que, depois do de Dilma Rousseff, há cinco anos, seria demasiado traumático para a democracia brasileira repetir todo o processo?

– Sim, defendo o impeachment de Bolsonaro. Explico as razões: Bolsonaro é um presidente incompetente, despreparado e reconhecidamente corrupto. São inúmeras as ligações dele e da sua família com desvio de recursos públicos e com as milícias do Rio de Janeiro. Mas só isso, segundo a Constituição brasileira, não bastaria para ele sofrer o processo de impeachment.

 Ele teria que ter cometido crimes de responsabilidade durante o seu mandato. E ele já cometeu quase todos os previstos na lei, como obstrução da justiça; aparelhamento da Polícia Federal; interferência no COAF [Conselho de Controle de Atividades Financeiras]; uso da Abin [Agência Brasileira de Inteligência] para interesses de seus filhos; confraternização com grupos que pedem o fecho das instituições da democracia; além de expor a comunidade brasileira ao genocídio em função de como administra a pandemia. Infelizmente a democracia no Brasil tem sido violentada em toda a sua história.

 O impeachment contra a ex-presidente Dilma foi um golpe, uma vez que, apesar de seu governo ter sido desastroso para o país, ela não tinha cometido crimes de responsabilidade.

 

Como avalia a condução do governo na pandemia?

– Seguramente uma das piores do mundo. Bolsonaro cercou-se de generais traidores da pátria e conduziu a pandemia de forma negacionista e incentivando o povo a aglomerar-se, a não usar máscaras e prescrevendo remédios sem comprovação científica.

 O resultado: mais de 210 mil mortos, o maior número de profissionais da saúde mortos com covid por falta de equipamentos de proteção. Atuou contra a vacina, e, para piorar, o seu preconceito criminoso contra a China, por exemplo, dificulta ao Brasil adquirir vacinas para imunizar o povo.

 

Bolsonaro gabou-se, nos últimos dias, de o governo dele não ter casos de corrupção. Acha, pelo trajeto dele (e da família), que ele pode carregar essa bandeira anticorrupção?

– É mais uma das mentiras propagadas por Bolsonaro. Interferir na Polícia Federal para proteger familiares e amigos de investigação é corrupção, como ele fez de forma despudorada e pública. Como parte da roubalheira descarada, o Banco do Brasil vendeu a preços muito baixos uma carteira de crédito para um banco privado fundado por Paulo Guedes, ministro da Economia; o BNDES [banco estatal de desenvolvimento] vendeu os seus ativos a preços baixíssimos; o governo fatiou a Petrobras com a venda da BR Distribuidora; além de ter anunciado a criação de um banco digital na Caixa Económica Federal já com prévio anúncio de venda. Para completar, Bolsonaro ainda mandou o exército comprar cloroquina superfaturada em seis vezes o preço, para produção de um remédio sem comprovação científica para combater a covid.

 O seu secretário de Comunicação possui uma empresa que prestava serviço para emissoras que recebem verbas do governo que ele mesmo autoriza; o ex-ministro do Turismo é acusado de desvio de verbas eleitorais com candidaturas laranjas [de fachada]; o ministro da Cidadania confessou ter recebido dinheiro de caixa dois [saco azul]; o ministro do Meio Ambiente é condenado por fraude em uma área de proteção ambiental; entre outros casos.

 

É candidato a 2022 ou, no mínimo, dado como “presidenciável”, depois da ótima votação obtida em 2018. Caso seja eleito, o que seria prioritário no Brasil?

-Sim, sou pré-candidato. Tenho rodado todo o país apresentando um Projeto Nacional de Desenvolvimento com começo, meio e fim que recupere a capacidade industrial do Brasil, garanta desenvolvimento com justiça social e devolva ao Brasil as rédeas do seu futuro. Inclusivamente, lancei em meados de 2020 o meu mais recente livro que detalha que o Brasil tem todas as ferramentas necessárias para voltar a crescer e quais os caminhos para que isso aconteça.

 Para minha alegria, o livro figurou entre os mais vendidos no Brasil, com encomendas também do estrangeiro, o que mostra que a minha mensagem tem chegado a cada vez mais pessoas.

 

Já foi candidato três vezes: o que lhe trouxe essa experiência e que erros não repetiria?

–  Toda a eleição é uma aprendizagem. Naturalmente, estou mais experiente, os meus poucos cabelos brancos já demonstram isso… Assim, tenho a tenacidade, mas também a firmeza necessária para ajudar o Brasil a sair desse imenso buraco em que fomos jogados.

 

Portugal é um país onde, contra as expectativas, as esquerdas se uniram para governar. Os eleitores da esquerda brasileira sonham com o mesmo, uma “frente ampla”, incluindo o PT. É possível ou impossível?

– O Brasil não cabe apenas na esquerda. É preciso que fique claro que aqui temos que compor com o centro democrático para apresentar ao Brasil uma candidatura viável. Mais que isso, o PT é um partido que ainda guarda uma rejeição enorme da população. Nas eleições municipais de 2020 isso ficou claro com a derrota deles em todas as capitais e elegendo pouquíssimos prefeitos em cidades menores.

 Ou nós pensamos e apresentamos um projeto verdadeiro para o Brasil, ou poderemos ter Bolsonaro mais uma vez eleito, ou alguém que pensa como ele na economia, mas mais moderado nos costumes.

 

Como vê a relação entre o Brasil e Portugal, acha-a mais próxima ou mais distante do que a que existe entre EUA e Reino Unido ou a entre Espanha e Argentina (ou México)?

– Tenho profundo carinho e admiração por Portugal, além de uma relação de parentesco, já que o meu avô era português. A nossa pátria mãe ensina-nos hoje também a achar um bom termo nas relações políticas, sociais e económicas para desenvolver distribuindo renda. Mas, infelizmente, o Brasil não tem dado o devido valor a essa relação histórica. 

Certamente é uma relação muito menos aproveitada do que as entre outros países. Portugal, por sua história, exemplo e tradição, e Brasil, por seu potencial, tamanho e força, juntos, poderiam apresentar ao mundo uma visão humanista e de desenvolvimento sustentável.