Carlos Lupi: ‘Ministério do Trabalho, no governo Bolsonaro, é figurativo’

Ex-ministro criticou a política de precarização do emprego e a subtração de direitos

*Por Bruno Ribeiro

O presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, indicou que o presidente da República, Jair Bolsonaro, recriou o Ministério do Trabalho no modelo figurativo, pois serve apenas de base para sustentar medidas de precarização do emprego e subtração de direitos. Ex-ministro da pasta, o pedetista avaliou, em entrevista para o programa “Papo com Editor”, da TV Estadão, nesta segunda-feira (30), que a política do governo federal não recuperará o mercado, pois também não estimula setores essenciais, como construção civil e serviços.

Durante o diálogo com os jornalistas Eduardo Gayer e Gustavo Porto, Lupi afirmou que o ministério criado por Getúlio Vargas em 1930  – extinto em 2019 e recriado no mês passado – não representa, atualmente, a essência originalmente implementada pelo então presidente Vargas, que é a intermediação de trabalhadores com empresários, bem como o garantidor de direitos.

“Decisão errada foi ter acabado. Agora, ele criou como uma espécie de ministério figurativo. A grande discussão que tem que ser travada é sobre para que ele serve. Se não for um instrumento da relação entre capital e trabalho, da defesa do combate ao trabalho análogo ao escravo, trabalho infantil, da regulação dos reajustes salariais e, principalmente, se não tiver [a administração dos] grandes fundos da América Latina: o Fundo de Amparo ao Trabalhador e o FGTS”, pontuou.

Sobre as intervenções do Palácio do Planalto, via medida provisória, para fomentar o mercado, o pedetista, que acumulou recordes de vagas criadas com carteira assinada e pleno emprego ao longo da sua gestão, indica que é um pacote utilizado para ampliar a precarização e a subtração de conquistas históricas da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho).

“Primeiro, isso é subemprego. Porque emprego que não tem 13º salário, férias remuneradas, depósito do fundo de garantia não é emprego. É só para dar índice”, disse.

“Como ministro do Trabalho, eu peguei o Caged [Cadastro Geral de Empregados e Desempregados] completamente desmoralizado e ele passou, depois de cinco anos, a pautar a bolsa de valores”, acrescentou.

A saída, segundo ele, “é o Estado ser o grande implementador, desenvolvedor e investidor de políticas que geram emprego”. Nesse caminho, o país conseguirá retomar o “círculo virtuoso da economia”.

“Investimento maciço na construção civil, com pequenas, médias e grandes obras públicas, e isenção na área de serviços, porque é uma área que gera emprego rápido e fácil e sem grande especialização”, indicou.

“Como temos uma ‘besta-fera’ no poder, ele não compreende isso”, complementou.

Enfrentamento

Sobre a série de ameaças e atos antidemocráticos de Bolsonaro, Lupi mostrou que o partido está atento e mobilizado para seguir lutando, “na política e Justiça”, em prol do Estado Democrático de Direito, da sociedade brasileira e das instituições.

“Ele alimenta a parcela raivosa, odienta, da direita que saiu do armário. […] Tudo o que esse profeta da ignorância faz é pensando em segmentar e solidificar essa base eleitoral e nós temos que enfrentá-lo”, relatou, contrariando movimentos golpistas e autoritários.

“Se é na conversa, a gente conversa com todo mundo. Agora, com gente como o Bolsonaro, nós só vamos conseguir vencê-los no voto e não aceitando qualquer tipo de tom mais elevado conosco”, salientou, mencionando medidas judiciais da sigla em todo o país e a expectativa de prisão do chefe da União pelas consequências da pandemia.

Alternativa

Ao analisar o cenário eleitoral brasileiro para 2022, o líder pedetista defendeu a pré-candidatura de Ciro Gomes a presidente como opção viável dentro do espectro de opções, mas deixou uma ressalva com relação ao bolsonarismo.

“Na política, você colocar e criar divergência, alimentar diferenças, não quer dizer que você é inimigo. Por isso que tem dois turnos na eleição. No primeiro turno apresenta a sua plataforma, seus projetos, e no segundo os mais afins estarão juntos”, explicou.

“Não há possibilidade do PDT estar com esse profeta da ignorância chamado Bolsonaro. Nós vamos combatê-lo com todas as forças. Agora, achar que ele é tão forte que nos impeça de disputar uma eleição por achar que ele vai ganhar, é não acreditar na inteligência do povo brasileiro”, confirmou, projetando o segundo turno entre Ciro e Lula, do PT, a partir do rompimento da polarização.

A viabilidade pedetista, na opinião de Lupi, está vinculada ao Projeto Nacional de Desenvolvimento (PND), que está sendo aprimorado, desde 2018, de forma coletiva e integrada. Como influência, o plano mostra vinculação às bandeiras trabalhistas de Getúlio Vargas, João Goulart e Leonel Brizola, que é o fortalecimento do Estado em setores estratégicos.

“A Petrobras foi criada por Getúlio. […] O monopólio estatal do petróleo significa energia, futuro da sociedade. Não podemos destruir uma empresa, que é a mais valiosa [no Brasil] e jogá-la na iniciativa privada para só ter lucro, sem ter compensação devida, como aquilo que representou a história do pré-sal”, ponderou, defendendo o comando público em áreas vinculadas à soberania nacional.