Caminhoneiros fazem greve contra preços abusivos da Petrobrás

Centrais sindicais apoiam a greve e Ciro Gomes afirmou que os lucros pagos a acionistas da Petrobrás “são tapa na cara” dos brasileiros 

A greve dos caminhoneiros autonomos autônomos contra os preços abusivos dos combustíveis dolarizados pela Petrobrás está entrando no seu quarto dia, embora a mídia esteja escondendo a notícia. Os caminhoneiros iniciaram greve nacional na meia-noite desta 2ª feira (1/11) mesmo com o governo tendo obtido liminares na justiça para impedir o bloqueio de rodovias federais.

Líderes dos caminhoneiros garantem que a greve está mantida, apesar da baixa adesão. A paralisação começou nesta segunda-feira (1º) e inicialmente tem previsão para durar 15 dias.  “Continuamos a paralisação até o governo apresentar alguma resposta às demandas da categoria”, disse ao Estadão o presidente do CNTRC (Conselho Nacional do Transporte Rodoviário de Cargas), Plínio Dias. “A adesão está boa, dentro do esperado e em vários Estados. Há poucos caminhões rodando nas rodovias”, afirmou ele.

Diferente da de 2018, dessa vez empresas de frete e celetistas não aderiram ao protesto, restringindo-o aos autônomos. O Supremo Tribunal Federal (STF), no entanto, proibiu o bloqueio de estradas. A categoria recorreu, mas a liminar foi recusada.  “O movimento segue aqui em Ijuí (RS), apesar do efeito das liminares”, afirmou ao Estadão o diretor da CNTTL (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes e Logística), Carlos Alberto Litti Dahmer.  Segundo o Ministério da Infraestrutura, apenas uma rodovia registrou princípio de bloqueio, a BR-116/RJ (na rodovia Presidente Dutra), em Barra Mansa (RJ).

A paralisação atinge também o Porto de Santos, o principal do país.

Além do fim da política de preços da Petrobrás, os caminhoneiros exigem  um piso mínimo para os fretes e a volta da aposentadoria especial da categoria profissional. Em nota conjunta, as principais centrais sindicais do país – CSB, anunciaram na sexta (29/10) da semana passada apoio total à greve e a pauta de reivindicações dos caminhoneiros  apresentadas há tempos ao governo, mas sem retorno das autoridades.

Na nota, as centrais afirmam que “neste ano a gasolina já acumula um aumento de 74% e o diesel 65%”. No vídeo abaixo, um dos líderes do movimento, entrevistado por Ciro Gomes, explica os problemas que afetam a categoria e a todo o povo brasileiro – o aumento absurdo do preço dos combustíveis embora o Brasil ja seja um dos maiores produtores de petróleo do mundo.

 

As reivindicações dos caminhoneiros foram lembradas por líderes da categoria neste final de semana, os mesmos que participaram da greve de 2018, em grupos de WhatsApp através de vídeo onde deixam bem claro que o movimento não é político, é pela sobrevivência da categoria massacrada pela dolarização dos preços dos combustíveis pela Petrobrás.  Lideranças também afirmam que a greve está mantida, apesar das liminares que proíbem o bloqueio de rodovias federais e determinam que os grevistas sejam multados em até R$ 100 milhões.

Na manhã deste domingo (31/10), o diretor da CNTTL (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes e Logística), Carlos Alberto Litti Dahmer, argumentou que uma das principais causas da greve é o fato de que o preço dos combustíveis  “é no mínimo 50% do gasto do caminhoneiro no dia a dia de trabalho”. Por conta da insensibilidade dos constantes aumentos  ele considera  necessário o fim da política de preços da Petrobras.

A Petrobras desde a gestão de Temer e de Pedro Parente à frente da empresa, passou a seguir no mercado interno brasileiro os preços internacionais do petróleo e já reajustou  o preço do diesel 12 vezes só este ano de 2021, sendo 9 aumentos e 3 reduções.

O presidente da Abrava  (Associação Brasileira de Condutores de Veículos Automotores), Wallace Landim, conhecido como Chorão, disparou um vídeo à tarde dizendo que a greve é “para que o governo tenha sensibilidade” e mude a política de preços da Petrobras.

“Peço apoio a todos os nossos irmãos caminhoneiros que a partir de amanhã, vamos cruzar os braços, você que não está aguentando mais essa situação”, afirmou. No sábado (30/10). o  presidente do CNTRC   (Conselho Nacional dos Transportes Rodoviário de Cargas), Plinio Dias, também convocou os caminhoneiros para a greve. Ele diz que a manifestação “não tem nada a ver com atos antidemocráticos e não envolve bandeira política”.

Ele frisou: “Nossa pauta é a sobrevivência”.

DOLARIZAÇÃO ABUSIVA

Os caminhoneiros protestam  contra os preços abusivos dos combustíveis dolarizados pela Petrobrás em benefício de petrolíferas estrangeiras, apesar da promessa de Jair Bolsonaro de pagar um “auxílio diesel’  de R$ 400,00 para pelo menos 750 mil caminhoneiros,  segundo iniciativa anunciada pelo governo federal na quinta-feira (21) da semana passada. Segundo as centrais sindicais, esse aumento impacta sobre todos os preços  promovendo carestia,” como no caso do botijão de gás que custa em torno de R$ 100,00”, ao mesmo tempo em que a taxa anual de inflação “já beira  os 10%”.

As centrais sindicais e os caminhoneiros também condenaram a anunciada iniciativa de Bolsonaro e Paulo Guedes de querer privatizar a Petrobrás, maior empresa do Brasil  criada em 1953 pelo presidente Getúlio Vargas para abastecer o mercado interno de combustíveis e dar autonomia ao Brasil no setor . Em crítica à gestão Bolsonaro a nota das centrais afirma que a inflação “se expressa na alta dos preços da energia elétrica e dos combustíveis”, ressaltando que esses aumentos são de responsabilidade do Executivo, “que, mais uma vez, nada faz”.

Segundo as centrais sindicais, os gestores atuais da Petrobrás “estão voltados para os interesses de cutro prazo dos acionistas da empresa” e não dos brasileiros.  Entre as demandas dos caminhoneiros apoiados pelas centrais estão a redução do preço do óleo diesel e a revisão da política de preços de Petrobras, o piso mínimo de frete, o retorno da aposentadoria especial com 25 anos de contribuição, a aprovação do novo Marco Regulatório de Transporte Rodoviário de Carga e a criação e melhoria dos Pontos de Parada e Descanso.

A nota é assinada por Antonio Neto, presidente da Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB), ligada ao PDT; Sérgio Nobre, presidente da CUT (Central Única dos Trabalhadores), ligada ao PT; Miguel Torres, presidente da Força Sindical; Ricardo Patah, presidente da UGT (União Geral dos Trabalhadores); Adilson Araújo, presidente da CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil); José Reginaldo Inácio, presidente da NCST (Nova Central Sindical de Trabalhadores);  CSP e Conlutas.

A nova paralisação foi convocada por três das entidades do setor de transporte: Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes e Logística (CNTTL);  Associação Brasileira de Condutores de Veículos Automotores (Abrava); e  Conselho Nacional do Transporte Rodoviário de Cargas (CNTRC).  Segundo o jornal “Valor Econômico”, que ouviu as lideranças do movimento, a a greve começa hoje  e tem duração indeterminada, podendo se arrastar até que o governo aceite negociar a política de preços de combustíveis da Petrobrás e piso mínimo para o frete rodoviário.

“A greve geral [dos caminhoneiros] vai começar e não tem hora para terminar”, frisou Carlos Alberto Litti Dahmer, diretor da CNTTL

“Mas é muito difícil expressar um volume por conta da natureza do negócio de cada um. O caminhoneiro, pela sua condição de autônomo, determina o seu rumo. É a definição de um a um”. Segundo Litti, em meio às sucessivas altas nos preços dos combustíveis nos últimos meses, o objetivo principal da paralisação é expor ao governo o descontentamento da categoria com a política de preços da Petrobrás e com a gestão da estatal.

A ampliação do movimento ocorre porque a agenda estabelecida em 2018 para negociação entre governo e a categoria não avançou, afirma o presidente da Abrava, Wallace Landin, conhecido como Chorão. “O movimento cresceu, pois [o presidente Jair] Bolsonaro, em quem votei, não cumpriu promessas de campanha e se voltou mais para o empresariado e porque a agenda de 2018 não avançou”, afirmou.

CIRO CRITICA PREÇO DOS COMBUSTÍVEIS

O ex-ministro Ciro Gomes (PDT) criticou a atual política de preços de combustíveis da Petrobras e condenou o anúncio da estatal de que vai dobrar a distribuição de dividendos aos acionistas da empresa após um lucro de R$ 31 bilhões no último trimestre. “Os números do balanço do último trimestre da Petrobras, divulgados ontem, são um tapa na cara de cada brasileiro e uma punhalada profunda no coração dos mais pobres”, argumentou Ciro,  que também criticou a distribuição “dos lucros gigantescos” da petrolífera, para seus acionistas.

“Agridem, zombam, humilham milhões de pessoas que pagam o combustível mais caro da história enquanto poderosos acionistas se banqueteiam. Sofremos e suamos em real e pagamos o festim dos magnatas em dólar. Construímos a Petrobras com nossos impostos e a riqueza do nosso subsolo e estamos entregando tudo isso a eles de bandeja”, apontou.

O ex-governador no entanto ressaltou que os brasileiros não devem, por conta da crise, canalizar sua raiva à Petrobras em si e defendeu a ‘retomada’ da petroleira para que atue a serviço do bem-estar do povo brasileiro.

“Mas, cuidado, minha irmã, meus irmãos ! Não podemos entrar no jogo deles que querem que odiemos a Petrobras. Temos, sim, que tomá-la de volta e colocá-la no seu verdadeiro rumo que é o de gerar riqueza e bem estar ao povo brasileiro. Abaixo a política genocida do preço dos combustíveis atrelado ao dólar! O Petróleo é nosso! A Petrobras é nossa! Queremos ela de volta”, afirmou.

(por O.M.)

Atualizado em 4/11/2021 às 10h55m