Brizola por Brizola

Em 7 de agosto de 2000, enquanto esperava o preparo do local em que seria entrevistado, na sede da revista Caros Amigos, Leonel Brizola travou o seguinte diálogo com o editor:

Editor – Isto é demorado… Olha quanta gente para perguntar aqui…

Não… Mas eu sei. Sabe que eu não… Vocês vão ter uma decepção: não faço história. Eu tenho uma resistência em fazer história; porque eu tenho uma impressão que aí já estou vivendo no passado. E eu não estou… Eu estou com os meus projetos, entendeu? Eu estou vivendo no futuro.

Mas os jovens que lêem a revista talvez não saibam da sua história…

Mas isso eu deixo para os outros investiguem; que façam pesquisas, não é verdade? Às vezes me vem assim numa coisa que eu revelo, na circunstância ali. Mas eu tenho também a má impressão de que eu estou agarrando um boné, já estou indo embora. Então, essa história de memórias… [dá um leve sorriso] então eu tenho uma resistência total. A impressão que tenho é que estou agarrando…

O senhor não é da Academia Brasileira de Letras, não é?…

É… Isso mesmo…

Na Academia brasileira de Letras é que se escreve memórias…

…É… Exato…

Leonel Brizola possuía a exata consciência de sua importância política, num país em que qualquer ser humano – sem a menor experiência teórica ou empírica –, quando encontra um espaço na mídia, discorre sobre as mais profundas teses das ciências sociais e políticas.

Por isto, soube galgar cada degrau de sua vida, sem nunca se afastar de sua raiz, de seu alicerce, que definia quando falava sobre sua gênese:

“Eu vim de lá. Eu vim de um lugar chamado ‘Brasil Profundo’, onde ninguém registrava os filhos; onde não havia um médico: havia um curandeiro. Não havia professores. Não havia nada!

Onde as crianças somente nasciam pelas mãos das parteiras práticas: alguma camponesa; muitas delas camponesas negras. O crédito: elas é que nos faziam nascer. Eu nasci pelas mãos de uma que se chamava Joana. Ela vinha a cavalo, duas semanas antes, mais ou menos, do parto. Ela aparecia lá; e lá ficava”.

Como se pode, sem esforço, compreender no diálogo com o editor da revista Caros Amigos, Brizola não tinha intenção de sistematizar seus pensamentos políticos – em livro, por exemplo.

Entretanto, como um autêntico líder, utilizou-se de pelo menos três modos de comunicação para a propagação de suas ideias: rádio, jornal e auditório (principalmente os ambientes pedetistas, em que, nas aberturas de reuniões proferia verdadeiras palestras).

Durante seus dois governos no Rio de Janeiro: criou os tijolaços (divulgados nos principais jornais); e manteve um programa semanal, na Rádio Tupi, em que falava sobre seu governo e política: Com a palavra, o Governador.

No âmbito interno, nas sistemáticas palestras (que a militância chamava de ‘esquenta’), antes de emitir uma opinião – importante, a seu juízo – fruto de sua vasta experiência de vida, Brizola tinha o hábito de usar a frase: “Escrevam o que estou falando”.

É exatamente isto que estamos propondo fazer, neste final de ano – que vai descortinar 2018, em que o PDT vai trabalhar, com um discurso uníssono, para eleger nosso pré-candidato, Ciro Gomes, à Presidência da República; além de, no nosso caso particular, do Rio de Janeiro, levar para o Palácio Guanabara um pedetista capaz de fazer de nosso Estado um ente semelhante aos que nos deixou o governador Brizola, em 1994.

É com este objetivo que, durante estes próximos dez dias, vamos publicar textos – Brizola por Brizola –, que abrangem diversos aspetos de sua trajetória política, desde seu governo no Rio Grande do Sul até o período fluminense, que transformou a forma de fazer política, no Brasil, desde sua redemocratização.

Temas abordados: Deputado pelo Rio de Janeiro; Escolha do Rio de Janeiro para morar; Três urnas unânimes; Encampação de empresas multinacionais (1); Encampação de empresas multinacionais (2); Brizola batizou a Embratel; Horóscopo; Soja e maçã fuji; Movimento Sem-Terra; e Paredão Leonel Brizola.

 

1 – Brizola por Brizola: Deputado pelo Rio de Janeiro.

2 – Brizola e a Política: Escolha do Rio de Janeiro para morar.

3 – Brizola por Brizola: Três urnas unânimes.

4 – Brizola por Brizola: Encampação de empresas multinacionais (1)

5 – Brizola por Brizola: Encampação de empresas multinacionais (2)