Brizola por Brizola: Movimento Sem-Terra.

“A semente para o surgimento do MST talvez já estivesse lançada quando os primeiro indígenas levantaram-se contra a mercantilização e apropriação pelos invasores portugueses do que era comum e coletivo: a terra, bem da natureza. Como imaginar o Movimento Sem Terra hoje, sem o exemplo de Sepé Tiarajú e da comunidade Guarani em defesa de sua terra sem Males. Ou da resistência coletiva dos quilombos ou de Canudos? Da indignação organizada de Contestado? Como imaginar nosso movimento sem o aprendizado e a experiência das Ligas Camponesas ou do Movimento de Agricultores Sem Terra – Master. Por tudo isso, nos sentimos herdeiros e continuadores de suas lutas. E somos também parte das lutas que nos forjaram no nosso nascimento”. (História: 30 anos do Movimento Sem Terra – Documento do MST)

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Eu vivi o partido quando nasceu. Nossas assembleias eram… E esse processo, é claro, foi assimilado até com os modos: adquirimos bons modos. Nós sempre cultivamos os bons modos, mas melhoramos muito… Não vê aí? Nosso partido teve um nascimento lá nas camadas mais proletárias, lá no meio do lúmpen proletariado, lá nas camadas mais destruídas.

O movimento sem-terra nasceu conosco: chamava-se Master – Movimento dos Agricultores Sem-Terra. O primeiro presidente ainda está vivo. O primeiro acampamento de sem-terra reivindicando terra – com cinco, seis, oito, nove mil pessoas – foi feito por nós. Fomos desenvolvendo amplamente, quando o Julião, lá em Pernambuco, organizava as Ligas Camponesas.

Mas, aquela humanidade era outra: era a própria miséria; eram massas esfomeadas. Então, há poucos dias, eu – que não guardo nada – me deparei com um livro (um livro-reportagem, sobre aqueles tempos), muito interessante, mostrando o que estava ocorrendo naquela época, lá no Rio Grande do Sul. Que fotografias elucidativas! Então, isto que ocorreu conosco foi uma evolução natural.

Daí a responsabilidade que temos, em relação à nossa consciência. Não quer dizer que o Trabalhismo, para ser autêntico, precisaria que cada um de nós saísse daqui fosse trabalhar numa fábrica, fosse trabalhar ali – compreendeu? – numa lavoura, fosse, enfim, para atividades manuais modestas, simples; fosse vender até loteria. Não quero dizer isto.

(Convenção nacional do PDT, em 19 de abril de 2001)

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Nós surgimos com um vigoroso movimento; tão vigoroso que está aí até hoje, que foi o movimento de sem-terra, pela reforma agrária. Surgiu no ano de 1961. O primeiro presidente deste movimento está lá vivo ainda.

Claro, nós queremos registrar aquilo que muitas forças procuram esquecer, obscurecer: que nós não tivemos nada com isto. Tivemos sim! Este movimento sem-terra foi fundado pelo nosso partido.

Claro que depois veio toda aquela lenha de 64. Ninguém podia se meter. Só a Igreja. Porque pensou que a Igreja era contra nós. Nos primeiros acampamentos feitos por nós, a Igreja se recusava até a rezar uma missa lá.

Agora, quando veio a ditadura – compreendeu? – os nossos sem-terra, pés no chão, lá, claro, muitos foram presos, perseguidos. Levavam caminhões de gente dos acampamentos que existiam, e, sobretudo, nos projetos que nós desenvolvemos. Muitos, liquidaram com eles. Aonde havia muita pressão dos fazendeiros, acabaram com eles.

E outros conseguiram resistir, como foi o caso de Sarandi, em que a Igreja foi para lá e ficou lá com eles. Foi lá que se formou todo este movimento atual, o Movimento dos Sem-terra. Uma espécie de Meca, os municípios de Sarandi, Ronda Alta – toda aquela região ali. E o Banhado do Colégio era outro grande, no sul.

(Diretório Regional, em 14 de junho de 1999)

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… Pode haver alguma aparência, porque tem muita gente que se mistura conosco.

Lá no Rio Grande do Sul, tinha muito fazendeiro: dava uma para de botas para um, dava um churrasco para outro, essas coisas… Mas, no fundo, não significava nada… Era uma solidariedade. Está bom, venha ajudar. Não tinham mentalidade para isso. Porque também a repressão soube escolher quem era, quem não era.

Por exemplo, o seguinte: quem entrou firme, levantando as bandeiras da reforma agrária?

Claro que os comunistas falavam desse assunto. Mas eles não tinham chance de…

Nós, não. Nós, quando entramos no governo, resolvemos entrar firmes no assunto. Vimos que não adiantava falar no assunto. Tinha que ser concreto. Então. Entramos no concreto.

Tivemos que associar os agricultores sem-terra para poder ter apoio. Desenvolver o sociativismo no meio deles. E começamos não a invadir, porque o invadir, numa dessas, pode ser contra. Invadir assusta até o pequenininho, que tem um pedacinho de terra, que tem que estar junto. O invadir assusta.

Então, nós não invadíamos: nós ficamos na cerca, no alambrado. Não cruzamos o alambrado, mas ficamos no alambrado. E inventamos os acampamentos. E criamos acampamentos. Criamos acampamentos: três, quatro, cinco, oito, dez mil pessoas. Então, isto aí foi o que nós criamos.

E o Julião no norte. Lá, no nordeste, o Julião – um outro caminho. Ele criou as Ligas Camponesas. Era um outro caminho. Que dava uma ideia de cuidado lá, que vão fazer guerrilha… vão fazer guerrilha. Ele associava o pessoal nas ligas camponesas.

Foram dois movimentos 100% autênticos.

(Seminário 54 anos do Trabalhismo, em 19 de junho de 1999)