Brizola por Brizola: Maçã Fuji e Soja. Maçã Fuji

[Em sua campanha eleitoral para a Prefeitura do Rio de Janeiro, Brizola fez uma visita ao Cadeg (central de abastecimento), situado em Benfica. No escritório da administração, fez uma saudação, por intermédio do serviço de som.]

(…) E ao me encontrar aqui nesta instituição, que faz a coordenação destes bens, desta riqueza produzida na terra. Que é de onde vem, realmente, a riqueza: da terra. Porque os outros transformam a matéria-prima que vem da terra. A indústria o faz.

Agora, a agricultura, não. Ela coloca ali uma sementinha, coloca ali uma mudinha. E, com trabalho, ela transforma aquilo em frutos, em bens e riquezas, como a madeira, por exemplo.

De modo que, aqui, eu me encontro muito feliz, muito à vontade. Neste setor de vocês, neste campo que estão trabalhando, eu tenho uma porção de ideias, afora outras coisas que, juntos, a gente vai traçar, vai projetar, vai organizar.

Quando a gente vai andando pela rua, se você não vê fruta nenhuma, não tem vontade de comer fruta. Mas se você vê uma fruta colorida, bonita, lustrosa, você não resiste: você para. Só mesmo não tendo dinheiro no bolso… Mas, tendo um dinheirinho, compra.

Eu conheço a história da maçã, por exemplo. A maçã – esta bonita; esta fuji, que está por aí; que todo mundo gosta –, vocês sabem? Isto nasceu nas minhas mãos, como governador lá no Sul. Conheço a história.

Hoje, milhares e milhares de trabalhadores lidam com a maçã: produzindo a maçã, transportando a maçã, industrializando a maçã. E aqui mesmo, trazendo a maçã para cá; desenvolvendo a riqueza do nosso país.

[Em seguida, foi visitar os boxes. O som é aquele característico de corpo a corpo. Porém, enquanto caminha, conversa com o anfitrião – sobre frutas, principalmente.]

… Primeiro foi a melancia. Tudo que era esquina da China – há trinta, quarenta anos – tinha melancia. Barato. Agora, tem fruta de tudo que é tipo. Particularmente uma pêra: a pêra asiática. Tem muito lá.

[O representante do Cadeg fala sobre a fruta brasileira, que dá o ano inteiro. E diz que, como o governo não incentiva, os distribuidores ajudam os plantadores.]

Eu sou muito ligado. Esta maçã gaúcha nasceu nas minhas mãos. No meu tempo de governo, tinha uma mulher bárbara, lá em Vacarias. Ela era uma verdadeira estação experimental. Foi ela quem produziu a maçã.

Então ela dizia: “Governador, como é que eu faço? Eu tenho que trazer muda de toda parte para nós irmos experimentando aqui. Não tenho apoio de estação de governo”.

Eu ia, com os caminhões da Brigada Militar (a PM de lá), ao porto, quando ela desembarcava os navios.

– Desembarca tudo aqui. Eu, governador… deixe a alfândega… Vocês nem venham… se escondam até… faz de conta que vocês não estão vendo nada…

Carregava dois caminhões de mudas e mandava para ela.

Mudas de maçã, de pêra e de outras variedades. Ela experimentou tudo! E acabou segurando a maçã, desta maneira. Esta maçã surgiu lá.

Dona Lourdes Coelho Borges!

(Campanha para a Prefeitura – Visita ao Cadeg, Benfica, em 27 setembro 2000)

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Soja

E nós temos que confiar neste povo. Agora mesmo, pela primeira vez na história do Brasil – e vamos dizer o que é a verdade! Tem gente mentindo a este respeito. O Brasil, pela primeira vez, exportou mais soja ao mundo do que os Estados Unidos. E eles eram os primeiros.

E por que aconteceu isso aí? Foi por que o governo Fernando Henrique fomentou, desenvolveu? Que nada! Deu as costas.

E vem desde Jânio Quadros. Eu era Governador do Rio Grande do Sul, e o Jânio Quadros foi lá me visitar (primeira visita que ele me fez). E ele foi de carro comigo a Caxias [Caxias do Sul], e ficamos conversando.

Lá eu preparei uma quente e fui dando para ele; da soja verdadeira. Ele disse: “É verdade, Governador, o Presidente Sukarno, da Indonésia, me falou das qualidades deste grão. Vamos mexer com este assunto, agora”.

Os colonos produziam lá para engordar porco. E assim mesmo, não podiam dar muito, porque enfraquecia os ossos. E começamos a trabalhar. Primeiro, produzir boa semente. Depois, importamos umas máquinas.

Não tinha – em matéria de produção – nada!

Ali nasceu. Ali nasceu: o Presidente entende, tem consenso; e o governador e o prefeito que trabalhem juntos com o povaréu.

Olha, vou dizer uma coisa: aquilo foi um milagre. Foi… foi… foi… foi… foi… e hoje, o Brasil… É a maior linha de exportação que tem o país. São os grãos. Os grãos estão garantindo, praticamente, a situação.

(Reunião do Diretório Estadual, em 16 julho 2003)

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No fundo, a passagem do Jânio Quadros, o que foi? Ele conseguiu excitar muita gente, interessar muita gente. Eu conheci gente, sincera, verdadeiramente apaixonada por Jânio Quadros: “aquele é que era um homem firme, era um homem de autoridade; era um homem que fazia valer”.

E ele inventava mil coisas: prendia galo de rinha; proibiu o biquíni na praia; e ele vivia falando coisas – que era contra isso, contra aquilo. Condecorou o Che Guevara. Coisas assim que, a rigor, não representavam… Tinha mágoa da direita.

Em matéria de transformações, naqueles sete meses não fez nenhuma. Só o que fez foi ceder à direita; e fazer um certo aceno…

Por exemplo, em relação a mim, governador do Rio Grande do Sul, foi muito correto. Mas também eu sabia que não podia avançar o sinal ali. Quando se tratava de alguma coisa que tivesse dentro do convencional…

Eu me recordo que apresentei a ele um projeto sobre a soja. A soja recém-estava nascendo. Era uma cultura de pequenos agricultores: doméstica. E eu apresentei um plano para ele. E ele apoiou.

Aí, começou a nascer forte a lavoura mecanizada de soja. Ele compreendeu. Quando mostrei para ele, ele me disse: [imitando Jânio] “É, governador, o presidente Sukarno me falou mesmo sobre as virtudes deste grão”.

Quer dizer: isso aí é o populismo. Não tem nada… não é verdade?

[Sukarno liderou do movimento de independência da Indonésia contra a Holanda; e foi o primeiro presidente indonésio, entre 1945 e 1967]

(Seminário 54 anos do Trabalhismo, 19 de junho de 1999)