Brizola por Brizola: Encampação de empresas multinacionais (2)

Eu não assumo nenhuma posição fechada. Eu quero ver. Tento, sabem?

Eu tenho uma fama de estadista… Tem uns caras que me botam esse negócio: que é um estadista, é não sei o quê… Sabem que eu não sou? Vocês vejam… Sabem que eu não sou?…

Eu não sou sectário. O que considero é que cada caso é um caso. Todas aquelas brigas que tive com aquelas companhias americanas, sectários foram eles!

Por quê? Primeiro (a de energia), antes de assumir eu já tinha feito ligações para eles irem falar comigo. Naquele tempo, as chefias dessas múltis eram, todas elas, autoritárias. Todos eram autoritários. Todos autoritários. Então, foram lá, falando castelhano comigo. Eu disse: o que quero é um milhão de quilowatts. E eles: “Não sabemos… tem que investir…”.

E nós, paralelamente, vínhamos tomando nossas providências: não íamos entregar nossos destinos a eles. Paralelamente, vamos ver como é a legislação, como é o negócio, não é? Criamos uma comissãozinha estadual (amanhã se não for ficar com o serviço, ela fiscaliza). Enquanto eles estavam lá, eu disse: vocês vão fazendo experiência, vão fazendo uma usina pequena, uma hidrelétrica para ir tomando prática; bem pequenininha; pode ser uma represa.

Estendemos umas linhas ali naquela zona que não tinha eletricidade (na zona rural). E fomos levantando o acervo daquela gente lá. Tanto lidamos, tanto lidamos. E eles vinham; e vinham… e me enrolavam…

Eu digo: bom, vocês têm que me dizer o seguinte… Eu preciso de um milhão de quilowatt aqui. Vocês me digam o que querem; quais são as condições. E eles: “Mas nós não temos capital”. Naquele tempo, a mentalidade do empresariado era outra.

Eu me lembro que contratei três auditorias – dois escritórios nacionais e um estrangeiro – para ver o que eu ia fazer. Sabem o que os três me disseram? Que eu não pensasse nunca em expropriar, em encampar, por causa da condição do capital; porque era uma coisa que já estava ali (o capital de uma empresa americana). Portanto, se o Estado quisesse fazer investimento, que fizesse em outra coisa que gerasse emprego. Aquilo já estava ali, que se deixasse ali. Que o Estado aplicasse em outra coisa.

Eu achava, realmente, razoável. Mas como eles não se propunham a desenvolver…

Depois mudou essa concepção. A concepção ficou a seguinte: pegava as empresas do Estado e entregava tudo. Quando que o correto é “deixa a empresa aí, vamos racionalizar e vamos abrir outros campos para o capital estrangeiro fazer mais; e dar mais empregos”.

Mas não. Achavam melhor entregar tudo e deixar como está. Agora não tem. Está faltando agora.

Então, nós adotamos esta linha de retomar o serviço, porque não chegamos a um acordo.

No caso dos telefones, chegamos. Fizemos um acordo: uma companhia mista, sugerida por mim. Era a ITT, lá. Fizemos um juízo arbitral (foi até um engenheiro daqui – engenheiro Rangel). Fizemos um levantamento de tudo, deu tanto milhões de dólares. Como era um juízo arbitral, aceitamos: eles entravam com 25%, o Estado com 25% e os usuários, que iam comprar os telefones, com 50%. Aceitaram; aprovaram em Nova Iorque; comemos um churrasco… tudo isso aí… Está tudo muito bem.

De repente, eles ficaram quietos. Mudaram a direção lá. Passaram-se dois meses, e eu procurei saber o que era. Ai, veio aquele homem: “Não… Vou avisar em Nova Iorque para que eles venham conversar com o senhor”. Perguntei: e o nosso acordo? – “Eles vêm conversar com o senhor”.

Estiveram lá três diretores que disseram que a companhia tinha reestudado o assunto. Unilateralmente! Chegaram à conclusão que não dava para fazer uma negociação nessas bases. Eles recuaram.

E sem solução (ele não ofereceram alternativa), nós marchamos para a expropriação. E aquilo foi muito bom, porque outros governadores seguiram: Lacerda criou uma companhia telefônica; em São Paulo também. Foi indo… E depois deu a Embratel.

Então, eu não sou estadista, como não sou também privatista, sob o ponto de vista de uma doutrina. Meu raciocínio, por exemplo, é assim: o natural é que haja livre iniciativa entre os indivíduos. O indivíduo tem que ter o direito de optar: se quer estudar, se não quer estudar; se quer ser engenheiro, se quer ser médico; quer morar aqui, quer morar aonde; tentar a vida aonde quiser. Isto é a opção, é a liberdade.

É o princípio da livre iniciativa individual.

E de grupo? Agora, aí começam os condicionamentos, em função dos problemas sociais; da necessidade social. Na medida em que a sociedade vai ficando complexa, mais o Estado tem que intervir aí para poder criar o ambiente de equidade. Então, aí é que os problemas começam a se criar. Mas, a princípio, cada caso é um caso.

O pior é dizer: cada setor tem que ser assim!

Ora, existem alguns que são estratégicos – que nós achamos que são estratégicos. Então, tudo bem: o Estado tem que cuidar. Você vai num país como os Estados Unidos, por exemplo, que é o paraíso da iniciativa privada: as usinas hidrelétricas são estatais. As represas são tão estatais que é o Exército que cuida das represas, para não deixar poluir, não deixar deteriorar.

Então, são problemas que, realmente, eu lhe responderia isto: perfeitamente, vamos encarar o problema. Ele precisa ser solucionado. Agora: conceder é colocar sobre a mesa. Mas não só pelo fato de conceder por conceder.

Tem muitas concessões que fizeram agora nesta fase aí que tenha sido um desastre. Um desastre! Eu, francamente, me sinto muito inconforme, com a situação, por exemplo, de muitos serviços públicos que não se sabe a quem reclamar. Não sabemos a quem reclamar, porque o serviço não tem cara.

(Palestra na Câmara Comunitária da Barra da Tijuca, em 20 de setembro de 2000)