Brizola por Brizola: Encampação de empresas multinacionais (1)

Este quadro geral do país, nós podemos entender através de metáforas simples. Simples. Bem simples para entender como é. Nós temos isso sobre nós.

Você sabe quando eu fui indeferido? Quando eu era Governador lá do Rio Grande do Sul. Primeira coisa que fui tratar: nós precisamos de um milhão de quilowatts, porque o Rio Grande do Sul não pode viver sem energia; não temos energia. Temos aí umas caldeiras velhas, que vinham estourando; na base do racionamento; umas termoelétricas na base do carvão.

Enfim, uma situação precária. Até já venceu todo o período que tinha de concessão. Não querem investir, não querem fazer nada. Essas linhas de transmissão, até as subterrâneas, ameaçando a cidade com acidentes, com incêndios que podiam ocorrer. Eu digo: bom, não tem maneira.

Depois de esgotar todas as possibilidades de entendimento, eu digo: não; eu tenho que buscar a lei; e vou agir de acordo com a lei.

Não foi fácil conseguir assinatura do Presidente Juscelino Kubistchek, porque aquilo estava centralizado no Governo Federal. Precisava de uma licença. Eu fiz lá uma estratégia e peguei a assinatura dele. Esta estratégia, depois eu conto. Peguei a assinatura dele e paf! – usei a lei.

Já tínhamos feito um levantamento, a avaliação, o tombamento. Como eles tinham levado muito lucro além do que podia levar (lucros ilegais): eles tinham que indenizar o pessoal; eles tinham muitas extensões de redes que deviam à população (eles só estendiam a rede, paga pela população). Eu descontei tudo aquilo, e eles estavam nos devendo ainda.

Então, eu desapropriei por um cruzeiro. Fui ao juiz, depositei um cruzeiro, e encontrei um juiz com ‘J’ maiúsculo, e ele – pá! – emitiu-me a posse.

Eu digo a vocês: se fosse uma empresa carioca, paulista, mineira ou mesmo gaúcha, procedendo daquela forma, eu ia à desapropriação. Não é só por ser estrangeira (naquele tempo eu era um inocente).

Mas eu fiquei surpreso, quando eu pratiquei aquele ato. Olha, começou uma campanha nacional: os jornais do Chateaubriand saíram a campo e… pau daqui, pau dali; briga daqui, briga dali – por toda parte. Eu passei a ser um perigo nacional. E noticiários na Europa, Estados Unidos, contra mim – fotografia nas revistas. Até na revista Times: eu a cavalo, parecia um bandido… É… me botaram…

E eu estranhava: como pode fazer isso comigo?…

Olha, aí que eu fui ver que, num país como o nosso, cheio de sanguessugas, onde você vai querer reformar mesmo, tirar dali a sanguessuga, pode ficar certo que você está pisando em interesses internacionais.

Este é o ponto da questão. Então, nós vivemos aí. Claro, você toca ali, a sanguessuga não quer saber. Aí ele vai dizer: e a sanguessuga? Este é o problema.

Tem um povo que trabalha, que tem uma enorme de uma produção econômica, todos os anos; um enorme de um produto econômico – o povo brasileiro trabalha muito. Não é verdade que é um povo que não produz, que não trabalha. Trabalhamos muito.

O interior agrícola, por exemplo, trabalha; e para ter um precinho ali – como não pode adubar, como não pode ter outros fatores para produzir mais – eles exportam o húmus da terra. Exportam húmus! E vai ficando a terra pobre e esgotada porque não pode repor. Em tudo é assim.

Algumas atividades – compreendeu? – encontram uma compensação diferente, mas a muito custo. É necessário que convenha também, porque às sanguessugas não interessa que aquele organismo morra. Porque, se morre, não tem mais sangue (toda verba tem que sair: tem que se ir mudando pra cá, pra lá…). Não interessa que ele fique inerme.

Então, é preciso esta compreensão, porque esta é a base do que ocorre. Para mim, esta questão é uma espécie de contador-gêiser, desses que põe ali o contador para ver se tem radiação: detecta irradiações.

(Reunião do Diretório Regional, em 4 de fevereiro de 2002)