Brizola por Brizola: Deputado pelo Rio de Janeiro.

Bom, eu terminei o meu período lá, em 62. E fui candidato a deputado pelo Rio de Janeiro. Então, o seguinte: eu vim aqui e fiz cinco ou seis comícios. Eu, como não conhecia o Rio de Janeiro… Vejam vocês: chegar de avião aqui, ir ao Catete, vir aqui na Cidade, ir para um hotel em Copacabana e ir embora…

Não conhecia o Rio de Janeiro. Então, chegava de tardezinha, já de noitezinha, e ia para o comício. Eu me lembro: foram cinco ou seis comícios. Grandes comícios. Se vocês me disserem: aonde foram? Eu não sei. Não conhecia… Em Bangu, eu sei que foi um. Mas o Talarico [José] deve saber. E outros sabem.

Mas, olha: foi uma coisa colossal.

Ali já fizemos um acordo com o Partido Socialista. Elegemos um senador (Aurélio). Eu me lembro que eu elegi doze ou quatorze deputados na minha garupa. Fizemos uma votação de praticamente um terço dos votos do Rio de Janeiro. Quer dizer que, se fosse hoje, devia andar na base do quê? De quase dois milhões de votos. Então, elegemos uma quantidade. Eu me lembro que o último tinha 300 votos.

Aí, vocês vejam que nós tivemos o nosso período.

Como eu, ver aqui no Rio. Aqui tinha, no Estado do Rio (que era Estado da Guanabara e Estado do Rio), com Roberto Silveira, grande governador do partido. Pai do nosso Jorge Roberto. Naquele tempo, nós éramos seis governadores do nosso partido.

(Comemoração dos 20 anos do PDT – 25 de maio de 2000)

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Eu tinha aqui um histórico, não é? Aquela página de bronze, que foi a Legalidade: foi uma coisa excepcional. Não por mim, mas pelo seu sentido sociológico e histórico. Foi o único caso na América Latina, onde num país grande houve um golpe instalado, com os três ministros entendidos, com as Forças Armadas aparentemente unidas, e os governadores, em geral (principalmente: Minas, São Paulo e Rio) apoiando o golpe. E surgiu uma reação civil que acaba – pelo menos naqueles primeiros tempos – vitoriosa.

Então, aquele episódio teve uma repercussão muito grande no Rio de Janeiro. Isto me fez avaliar também o nível de consciência política desta população aqui. Tanto que eu fui candidato a deputado. Foi em setembro; princípio de setembro. Quando foi em outubro eu fui candidato a deputado aqui (outubro, novembro). Eu tive uma votação…

Eu vim aqui e fiz cinco comícios; ou seis… Eu não sabia aonde era. Eu desembarcava no aeroporto, e ‘vamos’… …‘hoje é Bangu’. Aquela multidão.

‘Agora vai ser no Largo do Machado’. Íamos ao tal do Largo do Machado. Eu não sabia nem aonde era, porque eu não conhecia o Rio de Janeiro praticamente. Muito ligeiro…

Então eu recebi aquela votação, que foi surpreendente. Fora o que me roubaram de votos. Chegou a ponto que não fiscalizavam mais. De cada três votos um era meu. Então, se fora hoje, eu devia ter quase dois milhões de votos para deputado federal. Então, aquilo ali, claro, foi um episódio importante. Eu mesmo não tinha condição de avaliar.

Então, eu vim para o Rio de Janeiro atraído por este conjunto de fatores. E eu estive com a inspiração certa. Eu fiz que nem os portugueses. Os portugueses escolheram o Rio para plataforma. Usaram este lugar aqui, que é o mais bonito do mundo, como dizia o nosso querido Darcy Ribeiro: “É o mais lindo que Deus fez no mundo”.

Os portugueses se instalaram aqui; fizeram do Rio uma plataforma para fazer o Brasil. Demarcaram as fronteiras. Tudo foi feito aqui. Veio Dom João VI para cá. O Fico foi também dito aqui. Depois, a independência foi feita aqui. Porque tudo que aconteceu Brasil afora – inclusive o Grito do Ipiranga – foi elaborado aqui. Claro que, depois, o país inteiro atuou; mas que foi elaborado aqui, foi.

E eu agora tenho uma interpretação de que a Revolução de 30 também foi feita aqui. Sim, os gaúchos fizeram lá a ‘marcha dos hunos’, compreendeu como é? E vieram…

(Entrevista à revista Caros Amigos – 7 de agosto de 2000)