Atos unificados contra Bolsonaro ocupam ruas no Rio e em capitais

Além do impeachment e da falta de vacinas, manifestantes criticaram  a política econômica: “Cemitérios cheios e geladeiras vazias”

Os protestos  contra Jair Bolsonaro neste sábado (29) reuniram dezenas de milhares de manifestantes em Brasília e todas as 27 capitais do Brasil, incluindo mais de 180 cidades e até capitais no exterior, como Lisboa e Paris. As principais manifestações ocorreram em São Paulo, Rio de Janeiro,  Salvador, Belém,  Fortaleza e Brasília. As centrais sindicais, entidades estudantis, movimentos sociais e partidos políticos de esquerda lideraram os atos.

Os manifestantes – preocupados com  distancia social, uso de máscaras e álcool em gel, evitaram aglomerações – e tiveram como principais bandeiras de luta, além do pedido de impeachment de Bolsonaro,  a necessidade de vacinação contra a Covid , a volta do auxílio emergencial para os mais pobres e a condenação das privatizações.  Os atos turbinarão a CPI da Covid  e os mais de 100 pedidos de impeachment de Bolsonaro engavetados.

No Rio, o protesto começou às 10 horas da manhã aos pés da estátua de Zumbi de Palmares, na Avenida Presidente Vargas, paralisando parcialmente três das quatro faixas da via, entre a Avenida Marquês de Sapucaí e a Rua de Santana.

JS-PDT se concentra na Av. Presidente Vargas antes de partir

Integrantes da JS-PDT estiveram presentes com faixas e bandeiras, como também o deputado federal Paulo Ramos (RJ), que usou da palavra como representante do PDT no carro de som; como também a deputada federal Jandyra Feghali, do PC do B; além de vereadores, deputados e representantes de entidades estudantis, movimentos sociais e partidos políticos. Também marcaram presença artistas como o ator Paulo Betti e as atrizes Camila Pitanga e Maria Ribeiro — a última homenageou com cartazes o humorista Paulo Gustavo, morto no início do mês aos 41 anos, que virou nome de rua em Niterói por iniciativa do prefeito Axel Grael – do PDT.

Depois, a partir das 11h30m, os manifestantes seguiram em passeata até a Cinelândia, seguindo pela Avenida Passos e rua da Carioca, onde ocuparam as escadarias do Palácio Pedro Ernesto, que abriga a Câmara de Vereadores, e do Teatro Municipal. O ato se dispersou por volta das 13h30m.

Na Av.Passos, a caminho da Cinelândia, aglomerou

Homens da Companhia de Engenharia de Tráfego do Rio (CET-Rio) fizeram o controle do trânsito enquanto agentes da Polícia Militar (PM) ficaram responsáveis pela segurança. Não houve conflitos envolvendo participantes do ato ou policiais. Apesar dos itens de proteção, a toda hora lembrados pelos organizadores do ato, aglomerações se formaram em momentos diversos da passeata, nos pontos próximos aos caminhões de som e nas áreas de sombra, onde era possível se proteger do sol forte.

Quando a passeata adentrou a Avenida Passos e a Rua da Carioca, mais estreitas, os participantes não conseguiram se manter distanciados. Muitos buscaram rotas alternativas até a Cinelândia, onde o espaço disponível era mais amplo.

No Rio, entre palavras de ordem diversas, manifestantes entoaram gritos de “Fora Bolsonaro”, “Bolsonaro genocida” e fizeram rimas com menções à CPI da Covid. Os mais de 459 mil mortos pelo coronavirus também foram lembrados nos discursos dos organizadores e nos dizeres de cartazes, que pediam respeito às vítimas, vacina para a população e  críticas a política econômica de Paulo Guedes como “Cemitério cheio, geladeira vazia”.

A operação policial que deixou 28 mortos no Morro do Jacarezinho, na Zona Norte do Rio, no início do mês, também foi lembrada nos discursos e cartazes que a classificavam de chacina. As menções ao episódio renderam críticas ao governador Cláudio Castro (PSC), a quem a PM está subordinada. Policiais que trabalhavam no local não reagiram às falas.

Na caminhada entre o monumento de Zumbi e Avenida Passos, o distanciamento social

Já no Recife (PE), o ato foi reprimido pela Polícia Militar com uso de balas de borracha e gás lacrimogênio. A vereadora Liana Cirne (PT) foi agredida com spray de pimenta e o governador de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB), disse que o comandante e demais policiais envolvidos na agressão serão afastados de suas funções e investigados.  Antes, a vice-governadora de Pernambuco, Luciana Santos (Pcdo B) afirmara que a ação da PM não fora autorizada pelo governo estadual.

Em São Paulo (SP), os manifestantes se reuniram na Avenida Paulista e chegaram a ocupar dez quarteirões da via, num protesto que terminou sem registros de violência. Na capital federal, os manifestantes se concentraram pela manhã próximo ao Museu Nacional da República e depois caminharam pela Esplanada dos Ministérios, rumo ao Congresso Nacional, ocupando todas as seis faixas da via.

A imprensa internacional repercutiu os protestos deste sábado. O jornal britânico “The Guardian”, um dos mais respeitados do mundo, destacou a manifestação como notícia principal do seu site durante a tarde e a noite do sábado, afirmando que esta foi a maior mobilização anti-Bolsonaro desde o início da pandemia de covid-19 no país. Ele também  noticiou as manifestações contra Bolsonaro que aconteceram em mais de 200 cidades do Brasil e do exterior.

 

A rede de televisão francesa France 24 destacou a queda de popularidade de Bolsonaro em meio à pandemia e o fato de o presidente ter feito pouco caso da severidade da doença, desincentivado o uso de máscaras e levantado dúvidas sobre a eficácia das vacinas, enquanto o Brasil supera as 460 mil mortes pelo vírus.

A rede Al Jazeera, do Catar, lembrou que os protestos acontecem enquanto o governo está sob escrutínio de uma investigação pelo Senado sobre sua atuação no combate à pandemia.

Bolsonaro, que esteve na quinta e sexta-feira (27 e 28/05) no Amazonas, onde inaugurou uma ponte de madeira e um painel solar num quartel, não comentou os protestos em suas redes sociais neste sábado.  Seu filho Carlos Bolsonaro, vereador no Rio de Janeiro, postou críticas aos protestos e à cobertura da imprensa ao longo do dia.

Paulo Ramos, pelo PDT, discursou de cima do carro de som dos manifestantes na concentração na Presidente Vargas:

 

(Por Osvaldo Maneschy com G1, BBC, Exame, Folha SP, The Guardian e redes sociais – fotos aéreas Rio de Pedro Rocha)