As atléticas e a UNE

*Por Joao Pedro Boechat, Pamela Cristina e Álvaro Camões

Formalmente chamadas de Associações Atléticas Acadêmicas (AAAs), as atléticas são entidades administradas exclusivamente pelos estudantes para gerir os times esportivos em seus respectivos cursos e são o motor do desenvolvimento do esporte universitário no Brasil. São elas que organizam os jogos universitários como os Jogos Jurídicos, as Engenharíadas, o Intereng, o TUSCA, o InterUNESP, o Intermed, o JUCA, entre outras inúmeras competições que acontecem ao longo de um determinado feriadão, onde os estudantes torcedores competem durante o dia e, durante a noite, curtem as festas que são feitas para custear a própria competição.

As atléticas também possuem o diferencial de desenvolver inúmeros esportes que são menos valorizados pela sociedade. Muitos estudantes só entram em contato com a prática de esportes, como o handebol, o atletismo e outros através das atléticas. Infelizmente, falta um reconhecimento maior do papel que cumprem, não só no desenvolvimento do esporte no Brasil, mas também no projeto pedagógico das universidades do nosso país, em todas as suas dimensões. À União Nacional dos Estudantes (UNE) urge a tarefa de dialogar com as atléticas e defendê-las para impulsionar seu desenvolvimento.

As primeiras atléticas surgiram ainda no século XIX, e sua história se confunde com a própria história do esporte no Brasil. A primeira partida da primeira competição oficial de futebol do Brasil – o Campeonato Paulista de Futebol – foi realizada em 1902, entre a Associação Atlética Mackeinze College e o Sport Club Germânia – hoje, Esporte Clube Pinheiros. O basquete, por exemplo, foi introduzido no Brasil através da Mackeinze. As primeiras Atléticas do Brasil foram fundadas pelas Faculdades que hoje integram a USP. A da Mackeinze foi extinta no início da década de 20, mas no lugar dela existem diversas Atléticas nos cursos da universidade.

Foi na era Vargas que o esporte universitário teve seu primeiro grande marco com a realização da I Olímpiada Universitária Brasileira em 1935, competição embrionária do JUBS, que reuniu acadêmicos de faculdades que hoje são parte de universidades como a USP, UFF, UFRJ, Mackeinze-SP, UFBA e UFMG. O decreto-lei nº 3617/1941 institucionalizou a criação das Associações Atléticas Acadêmicas na forma que são hoje, organizações independentes de estudantes universitários. Também estabeleceu que as Universidades investissem na construção de praças esportivas, e criou a CBDU.

Originalmente, as AAAs eram obrigatoriamente vinculadas aos Centros Acadêmicos. Hoje, pelo princípio constitucional da autonomia desportiva, não existe e nem pode existir regramento jurídico que determine a forma de organização das associações, pois a ingerência estatal é proibida.

É verdade que elas foram impulsionadas durante a ditadura militar para substituir os Diretórios Acadêmicos e coibir a organização política dos estudantes, mas, na época, pouquíssimas atléticas realmente existiam no Brasil. Para se ter noção, as Atléticas mais antigas do estado do Rio de Janeiro – A.A.A.R.L. Direito UERJ (1991), Atlética de Direito PUC-RIO (1993), A.A.A.F.N.D. Direito UFRJ (1995) e A.A.A.C.G. Direito UFF (1997) – foram fundadas apenas após a redemocratização.

Além disso, as Atléticas passaram a se envolver ativamente com a luta contra violências de gênero, racismo e homofobia, até por pressão dos próprios estudantes, acompanhando sua mudança de mentalidade. Ainda existe um longo caminho a percorrer nas práticas gerenciais de muitas Atléticas, que tendem a acompanhar a mentalidade dos estudantes de seus respectivos cursos.

Nesse sentido, é importante destacar movimentos como o Jogos sem Machismo e o Jogos sem Racismo, por exemplo, de estudantes que reconhecem a importância dos Jogos e os frequentam, mas não aceitam práticas que antes eram tratadas com uma absurda normalidade. É interessante destacar também a atuação das Atléticas no episódio da censura das universidades durante as eleições de 2018: o caso mais emblemático foi o da censura da bandeira Direito UFF Antifascista, criada pela Atlética dessa faculdade, que foi replicada por inúmeras Atléticas de norte a sul do país em solidariedade.

O movimento das Atléticas, como pode ser chamada essa forma de organização do esporte universitário, é um fenômeno intrinsecamente brasileiro, que funciona justamente porque se adequa ao gosto dos estudantes universitários do Brasil. Sua razão de existência, além de difundir o esporte nas universidades, é fortalecer o sentimento de pertencimento dos estudantes; dessa forma, elas obrigatoriamente precisam agradá-los para funcionar bem, estimulando a linda cultura de torcida brasileira que vem sendo alienada dos grandes estádios do Brasil.

Como a grande maioria das Atléticas não recebe nenhum tipo de apoio, formal ou informal, de suas universidades, sejam elas públicas ou privadas, os estudantes que dirigem as associações recorrem à produção de eventos – como choppadas, cervejadas, calouradas, churrascos e outros modelos culturais de festas universitárias brasileiras – para se manter. Também confeccionam produtos como camisas, casacos, bonés, e muitos outros, que além de trazer retorno financeiro, ajudam a criar toda uma estética universitária que hoje domina no Brasil.

Além do valor inegável do desenvolvimento do esporte nas universidades, que ajuda a promover um estilo de vida saudável, a competição sadia, a paz entre os povos e o trabalho em equipe, a própria administração das Atléticas dá aos estudantes inúmeras competências extremamente valiosas na vida profissional. Seus dirigentes-alunos aprendem a administrar as finanças da associação, a produzir eventos, a fazer o marketing esportivo, a gerir as equipes esportivas, a dialogar com o poder público e firmar negócios com empresas privadas, a desenvolver inúmeras competências sociais, de trabalho em equipe e de liderança.

Dessa forma, a prática esportiva nas Atléticas e a própria administração das Atléticas merecem ser reconhecidas como parte do projeto pedagógico das faculdades e universidades do Brasil.

Hoje, no Brasil, os eventos que mais movem os estudantes para a confraternização e o intercâmbio de vivências e aprendizados são os Jogos Universitários organizados pelas Atléticas do Brasil, de forma semelhante como as Olimpíadas são o evento que mais conectam os povos de todo o mundo a cada 4 anos. Esse é o potencial do esporte. E o esporte universitário, através das Atléticas, merece ser valorizado, pois elas têm o maior potencial de melhorar a vida dos estudantes universitários, sejam eles atletas ou não. Ainda existe um longo caminho a percorrer.

Sabe-se que o desenvolvimento das Atléticas foi extremamente desigual por todo o país. O berço das Atléticas do Brasil, sem dúvida alguma, é o estado de São Paulo; isso reflete a maior importância que as Universidades e os governantes do estado sempre deram pro desenvolvimento do esporte, bem como o elevado nível de desenvolvimento econômico em comparação com as outras unidades federativas do Brasil. Nos outros estados, o apoio dado pelas universidades é próximo de zero, e o cenário está cada vez mais difícil, mesmo com o crescimento exponencial do número de atléticas.

Sem dúvida alguma, a década de 2010 foi a década de maior crescimento do esporte universitário na história, quando o número de atléticas em todo o Brasil proliferou, muito por conta do intercâmbio de conhecimento e maior facilidade de organização proveniente do advento das redes sociais.

O acesso a prática esportiva se torna elitizado sempre que os estudantes precisam gastar dinheiro para treinar, competir e manter seu equipamento esportivo. Muitas delas conseguem arcar com os custos dos treinos através de suas atividades-meio, mas o número de atléticas que dependem da contribuição associativa dos atletas é ainda maior.

Em um país onde o acesso à universidade pública foi felizmente democratizado com a Lei de Cotas, mas também onde a economia se deteriora ano a ano, a prática esportiva se torna uma atividade cada vez mais onerosa ao estudante, sobretudo aos de baixa renda. A prática esportiva não é e nunca poderá ser uma atividade restrita a quem tem dinheiro, e as Atléticas fazem o que podem para dirimir esse panorama. Entretanto, falta um apoio sério do Estado para o desenvolvimento do esporte universitário, que deve ser feito conforme a demanda dos estudantes e de suas atléticas.

Elas precisam ser reconhecidas como o motor do desenvolvimento do esporte universitário do Brasil, e o Estado não precisa investir rios de dinheiro para estimular esse crescimento.

A melhor forma de estimular a criação é garantindo um calendário anual de competições universitárias de qualidade, pois elas ajudam os próprios estudantes a criar e manter as equipes esportivas. Em torno delas é que surgem novas equipes em cursos que não possuem, ainda, essa tradição. Em torno delas, a economia é estimulada com a contratação de equipes de arbitragem, do lado dos organizadores do evento, e de técnicos, por parte das atléticas.

O modelo dos Jogos Universitários – competições de tiro curto, ao longo de um feriado, que atraem o público universitário com a perspectiva de torcidas lotadas e festas de madrugada – é economicamente sustentável pelo setor privado e não depende da atuação do setor público.

É claro que o apoio do município-sede é essencial, bem como a construção de novos ginásios públicos de qualidade que comportem a demanda por praças de treino e de competição. Entretanto, a consolidação de competições com um calendário robusto, ao longo do ano inteiro, que sejam esportivamente atrativas para os alunos-atletas moveria montanhas na proliferação de novas atléticas nos cursos que ainda não as possuem.

O estado de São Paulo está adiantado nesse desenvolvimento. O estado do Rio de Janeiro, historicamente o segundo mais desenvolvido nesse cenário, não. Iniciativas novas de apoio nesse momento de pós-pandemia serão essenciais para a melhor retomada das atléticas universitárias por todo o Brasil.

A UNE tem o dever de ajudar a estreitar o diálogo entre as Atléticas do Brasil para que sejam inseridas com o destaque que merecem no Plano Nacional de Desportos, nas federações esportivas universitárias, na CBDU e no próprio Conselho Nacional de Esportes. Ela também tem o dever de valorizar as atividades das Atléticas como parte do projeto pedagógico do ensino superior no Brasil, e demandar dos governantes o devido apoio ao fomento do esporte universitário na sua forma mais promissora e intrinsecamente brasileira, que é através das atléticas do Brasil, onde a voz estudantil é soberana no desenvolvimento de suas atividades.

Para essa tarefa, a UNE, através de sua diretoria de Esportes Universitários, está organizando o Censo das Atléticas do Brasil, para mapear e divulgar a pesquisa que ajude às próprias atléticas e ao poder público a entender como está o cenário nacional. A partir desse diálogo, ajudar a consolidar demandas e conhecer casos de sucesso para trazê-los ao conhecimento de todas as Atléticas do Brasil e ajudar na organização de fóruns e seminários de diálogo entre as Atléticas para que discutam ativamente os caminhos dos cenários estaduais e regionais do esporte universitário.

 

*Joao Pedro Boechat, Pamela Cristina e Álvaro Camões são diretores de Esportes da UNE e militantes da Juventude Socialista (JS)