Emparedado

Por Augusto Ribeiro

“A ‘esquerda’ brasileira não sonha mais. O poder pelo poder lhe basta”

Ciro Gomes está emparedado! Esta frase tem se tornado corriqueira entre os comentaristas políticos da grande mídia e nos blogs chapa branca da dita esquerda brasileira. Eu tendo a concordar com a frase, porém por motivos distintos daqueles apresentados pelos “especialistas” daqueles canais midiáticos. Lá o motivo de Ciro estar emparedado é meramente de cunho eleitoral, onde forças de direita e de esquerda, se é que podemos assim chamar, ocupam os campos políticos representados por Bolsonaro e Moro de um lado e Lula de outro, com vistas à eleição que se aproxima.

Ciro estaria sem espaço porque o centro, que no Brasil é ocupado pelos conservadores, pero no mucho, tem migrado para um dos três pré-candidatos. E não para Ciro. No entanto, o “emparedamento” de Ciro se dá por motivos muito mais nobres do que uma mera expectativa de voto refletida nas pesquisas.

Ciro encontra-se nesta posição porque é o único, sim o ÚNICO, pré-candidato que tem um programa extremamente detalhado, que mostra como fazer para que o Brasil se liberte das amarras que o mantêm em estado letárgico há mais de 40 anos, apontando de onde vem os recursos e com uma estratégia de desenvolvimento nacional de longo prazo.

Ciro é o ÚNICO, por exemplo, que tem denunciado abertamente o desmonte criminoso da Petrobrás, que desde a descoberta do pré-sal, tornou-se a menina dos olhos do capital estrangeiro, e é considerada por Ciro como a mola mestra do desenvolvimento nacional.

Deveria ser assim considerada por todos os demais, mas o silêncio é constrangedor. A pergunta que faço é: onde está a verdadeira esquerda brasileira? Perdeu-se nos ecos dos gritos de Lula Livre, entoados nos últimos anos como se nada mais houvesse para se preocupar? Petrobrás, CLT, previdência, queimadas, dólar, nada era tão importante quanto livrar Lula de uma prisão, injusta é verdade, mas cujo julgamento justo ainda terá de acontecer. Não houve, ainda, a absolvição dos pecados.

Da direita e dos conservadores, pero no mucho, só se pode esperar mais do mesmo. Mais do mesmo que o PT, e Lula, parecem ter adotado como discurso e solução para voltar ao poder e fazer sua vingança particular, para depois dar uma banana para o povo brasileiro, sem antes alimenta-lo com uma bolsa qualquer. Na verdade, estão todos do mesmo lado.

Ciro não está emparedado pela dubiedade que caracterizou os governos brasileiros desde a ditadura militar. Ciro não está emparedado pela falta de iniciativa de governantes que, com altíssima popularidade, preferiram seguir o “mais do mesmo” a transformar o Brasil numa nação soberana. Ciro não está emparedado por falta de capacidade política de dialogar, de apresentar propostas, de debater. Não. Ciro está emparedado porque suas propostas, estas sim, emparedam aqueles que querem o atraso e a manutenção de seus privilégios ao custo do saque de uma nação que tem tudo para ser soberana, em uma terra que possui as maiores riquezas naturais do globo terrestre, e para se desenvolver de forma autônoma e independente.

Fosse a nossa esquerda um pouco menos obtusa, compreenderia que não há, como não houve durante os 14 anos da suposta “esquerda” no poder, proposta de mudança no discurso de nenhum outro pré-candidato além de Ciro Gomes. Parece que 40 anos de Rede Globo e seus satélites conseguiram petrificar o raciocínio da esquerda brasileira. Estão muitos deles, intelectuais, artistas, operários, estudantes, funcionários públicos, profissionais liberais, todos os ditos de esquerda, confinados em um canto do ringue, de olhos vendados e sem luvas.

Apanham há 40 anos, mas seguem ali, sofrendo. São os zumbis do neoliberalismo. A luta, para eles, não continua. Parou no tempo. Parou em 1979, quando um general da ditadura e uma claque de empresários, incluindo-se aí multinacionais, incentivaram um operário do ABC paulista a criar um partido político, partido este que se denominaria dos trabalhadores, mas que na verdade sempre protegeu os interesses de uma burguesia financeira em plena expansão, permitindo o avanço do neoliberalismo como ditava o Consenso de Washington. A “esquerda” brasileira não sonha mais. O poder pelo poder lhe basta. Ao invés de romper as correntes que não permitem a libertação do Brasil, preferem ampliar os muros e isolar o único programa que propõe um sonho à nação brasileira a partir de 2023.

Ciro não está emparedado por seus defeitos, mas por suas qualidades. Emparedá-lo faz parte do que deseja o sistema. Pois Ciro é o antissistema. E o sistema tem a capacidade de erguer muitos muros, que somente o povo brasileiro unido e consciente será capaz de derrubar. Cabe a nós, não abduzidos, difundir a mensagem. Mostrar que há esperança de mudança, de uma vida melhor e de um país melhor. Não um país cujo governo, quando na mão dos “trabalhadores”, dá migalhas para os mais pobres por meio de um pequeno agrado financeiro mensal ao custo de 300 bilhões enquanto dá cerca de 4 trilhões aos bancos, mas sim pela capacidade do povo brasileiro de se reinventar, como faz há décadas, agora porém com um objetivo diferente do que só sobreviver: tornar o Brasil, através do trabalho e da soberania nacional, um país que sem privilégios para poucos, e com oportunidades para todos.

 

(*) Augusto Ribeiro é presidente do Diretório Municipal do PDT da Cidade do Rio de Janeiro.